Sexo grátis para quem sair do muro na política brasileira

10/04/2016

Por Marta de Oliveira Torres – 10/04/2016

Se sexo fosse pago, não o fariam os animais, mas fazem, como já cantarolava Chico Buarque. Logo, a parte do “sexo grátis” foi só pra chamar a atenção. Tem advogada que imita um cantor metaleiro, tem gente que rasga a Constituição Federal por ser membro do Congresso Nacional, outros malham bastante e tiram vários autorretratos mostrando o resultado de seu tanquinho na barriga. Para ganhar a atenção, por que não colocar no título a palavra “sexo”? Afinal, estatisticamente, esse é um assunto que as pessoas se interessam e gostam. Mas infelizmente, falaremos sobre política. Porque o muro está caindo e quem ficar em cima vai se esturricar no chão. Estamos em guerra, e como dizia Heráclito: “a guerra é a rainha de todas as coisas: de uns faz deuses; de outros, escravos”.

Vejamos Esopo na fábula a raposa e o macaco (eleito rei): “Em uma assembleia de animais, um macaco, que obtivera o favor de todos com seus trejeitos, foi por eles eleito rei. A raposa não se continha de ciúmes; como visse em uma armadilha um pedaço de carne, conduziu o macaco até lá, dizendo ter encontrado um tesouro, mas que dele não tirara proveito próprio para reservá-lo à sua majestade, e convidou-o a pegar o tesouro. O macaco aproximou-se sem o cuidado e acabou preso na armadilha. Como acusasse a raposa de tê-lo levado a uma emboscada, ela disse: ‘Ó macaco, tolo como és, ainda queres ser rei dos animais?”.

Mais ou menos o que aconteceu com a esquerda brasileira. Permitindo que o BNDES financiasse a bilionária obra de Belo Monte sem garantias de retorno financeiro, destruindo reservas indígenas e riquezas brasileiras milenares, autorizando a proliferação de pesticidas e transgênicos a envenenar o povo brasileiro, além de permitir a penhora do salário dos escravos brasileiros para pagar dívidas com instituições financeiras (esses “pecadilhos” só para exemplificar), com várias trocas políticas escusas, o PT acabou se tornando rei. Não percebia que esse mesmo sistema financeiro, que financiou sua campanha e também está a financiar a campanha antidemocrática de impeachment, iria chamá-lo para a armadilha e depois derrubá-lo.

Todavia, segundo o mestre Harildo Déda, existe um “mínimo de democracia” que devemos lutar, sob pena de retrocesso, “para depois continuarmos avançando”. Assim, se o jogo da falaciosa “democracia brasileira” diz que há financiamento privado de campanha e urna eletrônica, e o jogo foi jogado assim, logo, quem ganhou o jogo, ganhou com as regras do jogo. Se as regras do jogo estão erradas (E ESTÃO ERRADAS! PODEM SER MELHORES! PENSEMOS SOBRE ISSO!), então vamos lutar para mudá-las. Mas deixemos as coisas como estão e passemos para a próxima fase do vídeo game. Que tal todos nós juntos fazermos o seguinte: primeiro, respiramos fundo, depois, “façamos, vamos amar”.  Aí então, depois, discutiremos sobre a causa da corrupção, ou seja, o financiamento privado de campanhas. Deixemos quem foi “eleito pelo povo” aí e vamos discutir uma reforma política profunda. Reforma para mudar as regras do jogo eleitoral. Estamos todos acordados para isso agora. A hora é essa. Aliás, comecemos a limpeza no Congresso Nacional com processo jurídico bem fundamentado, que tal?


Marta de Oliveira Torres2. Marta de Oliveira Torres é Defensora Pública do Estado da Bahia, atriz no Teatro Fórum Rui Barbosa, fotógrafa, poetiza, mestra em Relações Sociais e Novos Direitos pela UFBA. . .


Imagem Ilustrativa do Post: Flipped His Lid // Foto de: Ian Sane // Sem alterações

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O texto é de responsabilidade exclusiva do autor, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Empório do Direito.


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