Violência e natureza humana (Parte 7) - Por Atahualpa Fernandez

15/12/2017

Leia também: Parte 1, Parte 2Parte 3Parte 4Parte 5, Parte 6


“No penséis que he venido para traer paz a la tierra. No he venido para traer paz, sino espada. Porque yo he venido para poner en disensión al hombre contra su padre, a la hija contra su madre y a la nuera contra su suegra.  Y los enemigos de un hombre serán los de su propia casa.” Mateo 10: 34-36 


Está em declive a violência?


Segundo Steven Pinker, o afinamento dos instrumentos da inteligência que floresceram e avançaram sobretudo a partir da Ilustração, que aportaram grandes logros à ciência e fizeram retroceder cada dia o indemonstrável – territórios da religião, a superstição e a ideologia dogmática – constituem os instrumentos responsáveis de uma caída na frequência da violência, das guerras e da agressividade em geral nas relações humanas. De que, em suas palavras, sejamos em conjunto “más buenos”.


A tese central de The Better Angels of our Nature. Why Violence Has Declined  é que, ao longo de milhares de anos, a violência diminuiu. Embora admita que a brutalidade não foi abatida completamente e que provavelmente não seja possível garantir a permanência dos “baixos níveis” de violência destes tempos, Pinker compara as cifras estatísticas de épocas anteriores com as da nossa para defender a ideia de que estamos em um momento histórico privilegiado.[1]


Assegura que a evolução social reduziu os incentivos para a agressão e o crime cambiando as sensibilidades modernas; razoamento que se pode resumir em três motivos fundamentais: i) a consolidação dos governos – como descreveu Thomas Hobbes em Leviathan – como monopolizadores da violência legítima e da arbitragem das disputas reduzindo a necessidade da vingança privada; ii) o auge do “comercio aprazível” que produz os benefícios mútuos do intercâmbio; e iii) uma progressiva melhora na inteligência e no pensamento crítico que dá lugar a uma ética secular e à consecução  de uma maior “bondade” nas novas gerações em seu conjunto. (M. T. Giménez Barbat)


Um livro que, sem mais rodeios, expõe uma única ideia: que a violência entre humanos diminuiu de forma radical em comparação com o passado e que, em consequência, vivemos no melhor dos mundos possíveis até agora. Não cabe a menor dúvida que se trata de uma mensagem deveras otimista; mas, realmente nos tornamos “más buenos”? E já que estamos: Realmente a época atual poderia ser a mais pacífica na história da humanidade?


Abraçar ou não a esta tese quiçá dependa do modo em que percebemos a realidade: haverá quem concorde que, apesar de alguns fatos isolados ou um que outro episódio de violência em alguma região do mundo, em realidade fomos “bendecidos por niveles inéditos de convivencia pacífica”. Também haverá quem pense que a criminalidade, o terrorismo, os assassinatos, o infanticídio ou os crimes motivados por homofobia ou misoginia não somente são recorrentes, senão que estão em aumento.


Quem compartem o primeiro ponto de vista são sobretudo aqueles que apoiam um ideal utópico de racionalidade e mantêm uma fé incondicional nos poderes do Estado e do mercado como provedores de leis e reguladores da sociedade. Nada obstante, a aposta por um mundo mais racional e civilizado não impede assinalar que na proposta de Pinker há vários aspectos discutíveis. Diferentes críticos, por exemplo, detectaram inconsistências e debilidades de distinta índole em sua tese. De fato, esta tem alguns pontos vulneráveis[2] e parece não ter em conta que a violência é multiforme e que muitas de suas manifestações têm uma natureza que as pode fazer passar desapercebidas.[3]


Também é conhecida a postura de John Gray, quem sustenta que, apesar de seu uso de gráficos e estatísticas, os argumentos de Pinker carecem de um bom sustento científico e se reduzem à defesa de uma visão muito particular do mundo: a riqueza vai em aumento, a democracia se expande cada vez mais, e isto se deve a que somos herdeiros do humanismo ilustrado e seu ideal de progresso. Gray – da mesma forma que Noah Harari - é conhecido por seu férreo rechaço à noção  de “progresso”, quando este se entende, tal como o faz o próprio Pinker, como a crença em que o crescimento econômico e tecnológico favorece o desenvolvimento social e democrático. O erro essencial nesse “planteamiento – de acordo com Gray - es que sus partidarios olvidan que entre las consecuencias del progreso ilustrado también se cuentan usos abominables de violencia política —por ejemplo en el leninismo—, que han justificado aniquilaciones masivas.”


Ademais, o comportamento agressivo é geral. Não se inventou em um lugar e se estendeu. Forma parte da história e a pré-história de nossa espécie e de sua linhagem ancestral. O cérebro humano conservou os circuitos agonísticos e de predomínio nos mamíferos, tendo ao menos dois aspectos importantes a considerar: por um lado, procura rendimentos ou recursos em geral (alimentários, territoriais, econômicos ou sexuais); por outro, a agressividade é algo prazenteiro em distintos graus dependendo das pessoas ou das circunstâncias. Os dispositivos neurais da agressão ofensiva se enlaçam com os da recompensa fisiológica. Tudo isso recordando que está demonstrado que a variação das tendências violentas nos indivíduos é consideravelmente hereditária.


Por certo que o avanço da cultura e do pensamento crítico alterou as sensibilidades modernas à base de potenciar esses componentes da mente humana que Abraham Lincoln chamou “los ángeles buenos de nuestra naturaleza”. Mas não há que baixar a guarda e dar estas conquistas por estabelecidas. Há que ter sempre presente que não somos uma tabula rasa. A domesticação da agressividade humana parece possível sempre e quando não restemos importância aos sistemas que contemplam as leis para a prevenção da violência, seu controle e o subsequente castigo.


Por quê? Porque isso a que chamamos “cultura”, que em realidade é apenas desencadeante ou moduladora de fatores biológicos subjacentes, influi sem dúvida na agressão humana. São instituições e normas (legais ou morais) que variam entre culturas as encarregadas de assinalar os limites da violência, reforçar ou inibir os motivos (morais) para superar qualquer aversão à violência, humanizar ou desumanizar ao próximo, moralizar, castigar e/ou proporcionar os mecanismos para controlá-la, etc...etc. Dito de outro modo, a violência só se mantém se há uma boa razão “para hacerlo y la moral es la mejor de las razones para poder hacerlo con la conciencia tranquila. La moral –nuestro sentido del bien y del mal- es un arma de doble filo porque es la causa de todo lo bueno que hay en nosotros, pero también de todo lo malo. Lo mejor y lo peor de nosotros proviene de ver a los demás como humanos” (P. Malo). Ademais, a violência humana também possui um profundo substrato biológico que arraiga em nossa evolução paralela com outras espécies de primatas.


Quiçá a conclusão principal seja que ao sapiens não se pode caracterizar unanimemente como “rousseauniano” ou como “hobbesiano”. Ambas visões não são excludentes. Somos sumamente sensíveis a nosso entorno e o processo de converter-nos em quem somos, quem cremos ser e como atuamos “se define por la supresión de las posibilidades existentes: el entorno en que vivimos refina nuestro cerebro, y de entre la maraña de posibilidades lo modela (modela nuestra personalidad) para que responda al que está expuesto” (D. Eagleman). Também é importante reter a ideia de que nem todas as violências nasceram iguais na evolução humana. Existiriam, pelo contrário, significativas diferenças entre distintos tipos de violência, assim como também são variados os mecanismos capazes de desencadeá-la ou as formas de apaziguá-la. 


 


[1] Também autores como L. H. Keeley, Margo Wilson e Martin Daly ou Napoleon Chagnon já demonstraram em seu dia a falsidade do mito do bom selvagem e a evidência do declive da violência. Em palavras de Richard Wrangham, da “domesticação” do ser humano.


[2] O principal problema com a tese de Pinker é sua definição mesma do conceito de “violência”. Pinker admite que delimitou a que se refere quando fala de violência, restringindo o conceito ao de The American Heritage Dictionary: “o comportamento ou trato onde se exerce força física com o propósito de ocasionar dano ou injúria”. Pinker aclara também que enfoca a violência em contra de seres sencientes: homicídio, ultraje, violação, roubo e sequestro, que foram cometidos por indivíduos, grupos ou instituições (neste último caso, guerras, genocídio, castigo corporal e capital...). Sem esta delimitação, com efeito, seu estudio pareceria inabarcável.


[3] As estatísticas às que recorre, para citar apenas uma das críticas, não podem ser um indicador absoluto para obter conclusões tão contundentes, posto que operam sobre cifras registradas oficialmente e estas, como se sabe, nunca retratam a totalidade dos delitos cometidos. (N. N. Taleb)


 


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