Precisamos falar sobre feminismo

12/01/2016

Por Fernanda Pacheco Amorim - 12/01/2016

Debates feministas estiveram em alta no ano de 2015. Muito se ouviu falar sobre patriarcado, aborto, estupro, opressão, empoderamento, etc.; houve manifestações nas ruas, movimentos nas redes sociais (#primeiroassédio e #meuamigosecreto), redação do ENEM, matérias em revistas, programas de televisão e de rádio, vídeos no youtube, postagens em blogs, objetivando debater as questões de gênero.

Em razão desta “primavera feminista” e dos gritos ensurdecedores das mulheres, muitos afirmaram que o tema ficou saturado: falou-se muito sobre tudo isto no ano de 2015, se tornou cansativo! Afinal, o que mais querem as mulheres? Já participam do mercado de trabalho, podem dirigir, podem se envolver na política e são até consideradas absolutamente capazes (pelo menos no Brasil)!!

Em meio às afirmações de que o debate firmado estava ultrapassado noticiou-se que na noite de 31 de dezembro de 2015, véspera de ano novo, mais de mil homens assediaram e roubaram diversas mulheres (a polícia recebeu em torno de 90 denúncias e espera receber ainda mais) na cidade de Colônia na Alemanha.

Acredita-se que os agressores se dividiram em grupos de aproximadamente 5 integrantes para intimidar as vítimas. Uma delas, em entrevista à BBC declarou: "Eles tentavam nos abraçar, nos beijar. Um deles roubou a bolsa da minha amiga. Outro tentou nos colocar em um 'táxi privado'. Já estive em situações assustadoras e perigosas, mas nunca tinha vivido algo assim” [1].

A objetificação - palavra que por ironia é um substantivo feminino – do corpo da mulher é uma realidade, nosso corpo não nos pertence desde há muito tempo e muitas vezes somos vistas como um pedaço de carne destinado à alimentação masculina.

No livro Feminismo e Política, Luis Felipe Miguel e Flávia Biroli[2] escreveram:

Há, assim, indícios de que essas formas de violência[3] são, em algum grau, toleradas socialmente, mantendo-se como uma “possibilidade constante no horizonte da imaginação social vigente”. A violência contra a mulher pode ser entendida como uma prática social, e não individual, “sistêmica porque dirigida a membros de um grupo simplesmente porque eles são membro daquele grupo”. O estupro seria “nada mais, nada menos que um processo consciente de intimidação mantêm todas as mulheres em um estado de medo”. É parte da experiência compartilhada do grupo, no sentido de que a vulnerabilidade dos indivíduos à violência se deve a seu pertencimento de grupo.

A violência[4] cotidiana sofrida por nós mulheres – pelo simples fato de sermos mulheres - ainda é socialmente aceitada, muitas vítimas se calam, pois a sociedade tende a culpabilizá-las: questiona-se que tipo de roupa vestia, qual o horário que aconteceu (mulher “honesta” não sai tarde e ainda mais sozinha), se ela de alguma forma não se insinuou, etc.

Mas estas perguntas são absolutamente irrelevantes! Nem a roupa, nem o horário, nem qualquer outra variável que possa ser levantada dão direito ao homem de violentar uma mulher. Só o CONSENTIMENTO outorgado voluntariamente por alguém pode diferenciar um ato sexual de uma violência.

E quais as perguntas possíveis num caso deplorável como este da cidade de Colônia? Todas as vítimas estavam vestindo roupas inapropriadas? Elas não deveriam ter saído para comemorar a virada do ano, pois o horário é inadequado para mulheres? Todas elas se insinuaram e indiretamente se ofereceram aos agressores?

Esta situação apenas confirma que este tipo de crime (os crimes sexuais) acontece independentemente destas variáveis, uma mulher vestida com uma burca pode ser estuprada tanto quanto uma mulher que veste uma minissaia.

Vivemos numa sociedade calcada na cultura patriarcal, onde masculinidade é sinônimo de potência sexual e ela DEVE ser exercida. Segundo Carole Pateman[5]:

No patriarcado moderno, a masculinidade é o paradigma da sexualidade; e masculinidade significa domínio sexual. O “indivíduo” é um homem que faz uso do corpo de uma mulher (propriedade sexual); o contrário é muito mais difícil de imaginar.

Podemos perceber que o nosso corpo (o corpo das mulheres) ainda é visto como de fácil acesso, pois é para isto que sempre servimos: satisfazer as necessidades do homem, sejam elas sexuais ou não. E um homem só pode ser considerado “macho” se exerce a sua potência sexual.

Muitas pessoas tentando justificar a ocorrência de crimes sexuais afirmam que “estupradores” possuem algum tipo de “doença mental”, mas causa muita estranheza imaginar que aproximadamente mil pessoas, com o mesmo tipo de “doença”, se reuniram numa noite de ano novo para atacar mulheres.

Existe sim uma doença: uma doença social. Ensinamos nossos meninos, desde o berço, a ser homem: homem não chora; vai “brincar de médico”; já tem namoradinha? Esquecemos de ensiná-los lições de respeito, principalmente de respeito às mulheres. Esquecemos de ensinar que o significado da palavra NÃO dita por uma mulher é o mesmo daquele quando dita por um homem. Esquecemos de ensinar que quem manda no corpo da mulher é a própria mulher.

E por isto que precisamos, carecemos, devemos falar de feminismo. Falar cada vez mais, debater, discutir, levantar a bandeira, criar hashtags, ir para as ruas em manifestações e nunca mais nos calarmos. Mantiveram nossas vozes aprisionadas por muito tempo e aquelas que tentaram se insurgir contra isto tiveram seus gritos abafados. Chegamos num ponto em que retroceder não é uma opção.

Chimamanda Ngozi Adichie[6] num livro chamado Sejamos todos feministas, originado de um discurso feito por ela, afirmou:

Não é fácil conversar sobre a questão de gênero. As pessoas se sentem desconfortáveis, às vezes até irritadas. Nem homens nem mulheres gostam de falar sobre o assunto, contornam rapidamente o problema. Porque a ideia de mudar o status quo é sempre penosa.

Mudar uma cultura, vigente há tanto tempo, não é algo simples, muitas vezes o discurso pode parecer cansativo, saturado e até ultrapassado. Obtivemos muitos avanços depois de todos esses anos de luta, mas a tão necessária equidade entre os gêneros ainda não é uma realidade.

Chimamanda[7] disse: “A questão de gênero é importante em qualquer canto do mundo. É importante que comecemos a planejar e sonhar um mundo diferente. Um mundo mais justo”.

E por tudo isto, por todas as mulheres de Colônia e do mundo, que vai ter feminismo em 2016, mais ainda do que teve em 2015!


Notas e Referências:

[1] Veja a notícia completa em: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160105_abuso_sexual_ano_novo_alemanha_rb

[2] MIGUEL, Luis Felipe; BIROLI, Flávia. Feminismo e política: uma introdução. São Paulo: Boitempo, 2014, p. 113.

[3] Neste trecho originalmente os autores tratam especificamente da violência cometida em relacionamentos amorosos, mas cabe perfeitamente às outras formas de violência sexual tratadas neste artigo.

[4] E aqui não me refiro apenas à violência física.

[5] PATEMAN, Carole. O contrato sexual; tradução Marta Avancini. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993, p. 272.

[6] ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Sejamos todos feministas. Tradução de Christina Baum. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 42.

[7] Ibidem, p. 48.


Fernanda Pacheco Amorim

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Fernanda Pacheco Amorim é formada em Direito, feminista e professora em construção. . .


Imagem Ilustrativa do Post: Woman reaching out // Foto de: Helmuts Guigo // Sem alterações

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O texto é de responsabilidade exclusiva do autor, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Empório do Direito.


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