O bem-estar animal do bípede implume – Por Samuel Mânica Radaelli

17/08/2017

Populus, meu cão…
O escravo, indiferente, que trabalha
e, por presente, tem migalhas sobre o chão.
Populus, meu cão.


(Populus, Belchior)


Diante de tantos discursos que afirmam o ódio e a exploração, surge uma indagação: será que toda a barbárie repelida pela história, não será retomada agora, forjada pela militância entusiasmada da minoria e pela apatia da maioria? Ou ainda, será a barbárie uma utopia deste tempo?


Escrevendo de uma região frigorífica, de onde ecoam propagandas do setor, nas quais são enfatizados os cuidados com o animal que marcha para converter-se em proteína embalada, também grita á consciência, o ensurdecedor silêncio a respeito dos animais racionais que por seu trabalho operam esta conversão, ou seja, a carne que corta carne. No senso comum dois discursos acerca dos direitos ganham força, embora em proporção menor, crescem os apelos por direitos aos animais, inclusive a prerrogativa de não serem abatidos, infinitamente maiores são os apelos para que os humanos não tenham direito algum. E assim os direitos humanos, que permanecem mais na retórica que na vida, dela também podem ser extirpados. Uma lógica perversa se firma de forma implícita: bem-estar para outros animais pode ser visto como Direito, bem-estar para humanos é privilégio para os fracos e preguiçosos.


No exemplo das carnes, os consumidores de produtos frigoríficos necessitam ser convencidos de que o animal que comem na forma de embutido foi bem tratado até seu processamento. Com relação à pessoa que realizou o trabalho, cuidando do animal e depois o industrializando, a preocupação é que ele, por este trabalho não cause grande abalo financeiro à empresa.


De outra banda, o mesmo sentimentalismo que remete á ternura com pets, não se manifesta no trato com o semelhante, nas relações entre as pessoas cada vez mais se percebe o medo absolvendo a perversidade para com o diferente, em razão do mal que ele pode causar, e que precisa ser contido antes que se consume. De modo que o ser humano passa a ser medido pela segurança que transmite. O preconceito visto como técnica de precaução contra a violência.


Nesta perspectiva, a diferença entre os humanos e os demais, é a classificação entre animais de carne e animais de carga. Em uma perspectiva pautada pela indiferença e pela perversidade, dissemina-se a ideia de que cada um pode construir saídas individuais para desgraças coletivas, pior ainda é crer que dessas desgraças possam surgir oportunidades individuais de lucro e sucesso.


Diante deste cenário, a afirmação da alteridade como critério de responsabilidade e proteção é pressuposto indispensável à construção de prerrogativas para aqueles que se encontram em situação de maior fragilidade social, sem isso, nada nos salvará da barbárie oriunda da luta desigual entre fortes e fracos. A irrupção do outro com seu apelo por vida, inscrito em seu rosto, é um critério de verdade que permite emergir das águas frias do cálculo egoísta, fortalecendo todas as formas de vida, dos vegetais e de todos os animais. Em síntese, a proteção dos animais, racionais ou não, se funda no mesmo apelo por vida, o qual desafia as formas de mercadorização e instrumentalização inerentes à lógica da acumulação, o enfrentamento desta racionalidade permite falar em bem-estar para todos os animais e toda vida.


 

O texto é de responsabilidade exclusiva do autor, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Empório do Direito.

Sugestões de leitura