O CONSUMO E A OBRA “A ARTE DE SER INFELIZ”

28/08/2020

Coluna O Direito e a Sociedade de Consumo / Coordenador Marcos Catalan

Nascemos e, junto a nós, nascem as comparações. Somos comparados quanto ao procedimento utilizado no momento do parto, idade em que começamos a dar os primeiros passos, em que começamos a falar as primeiras palavras. As lembranças para aqueles que nos visitam na maternidade devem ser personalizadas e as mais vistosas – afinal de contas, precisamos impressionar os outros desde a nossa chegada. O carrinho de bebê deve conter apenas três rodas e ser acolchoado em tons de marrom pois, apesar de ser mais caro, é mais pomposo.

Já na infância, deixamos de ser comparados apenas por terceiros e passamos a assumir, igualmente, o papel de críticos da nossa imagem. Passamos a ambicionar a mochila de rodinha, último lançamento, o tênis com rodinhas ou luzes chamativas e os brinquedos lançados pela marca x ou y. Passamos a desejar bonecas e carrinhos semelhantes – ou até melhores – que os dos colegas e amigos. Da mesma forma, passamos a comparar os desenhos que fazemos com os das demais crianças com quem convivemos.

Visto isso, tem-se a formação de uma bola de neve de insegurança, insatisfação, frustração, falsa percepção de felicidade e sucesso por meio do consumo, dentre outros sentimentos que nos são introduzidos desde o nascimento – ou até mesmo antes desse. O resultado desse efeito somático que nos assombra é o alvo do livro “A arte de ser infeliz” escrita pelo Psiquiatra Nelio Tombini.

Em dado momento da obra, o autor narra sobre a infância:

Imaginem uma criança com dificuldades de relacionamento com seus pares na escola. Volta para casa chorando porque os colegas não lhe dão atenção e não a convidam para brincar. Em vez de sentarem-se com o pequeno, ouvi-lo, escutá-lo, apresentar-lhe alternativas e tentar deixar que aprenda na prática a relacionar-se, alguns pais são capazes de ligar para os pais das outras crianças, para que estas mudem a atitude em relação a seu filho.

Percebe-se que todos os problemas têm suas importâncias reduzidas, uma vez que são igualados às nossas ambições consumeristas – as quais, por mais fúteis que sejam, se de difícil concretização, também se tornam vicissitudes para nós. Estamos infelizes? Vamos ao shopping. Estamos com problemas na prestação de um serviço? Ligamos para o SAC. Nossos filhos estão com problemas de relacionamento na escola? Não buscamos o diálogo em casa, ligamos para os pais dos colegas – uma espécie de SAC. Estamos sempre – ou na maioria das vezes – buscando uma solução rápida para reduzir o desconforto das crianças, ou até mesmo os nossos, dos adultos ou adolescentes.

Mais tarde, aqueles que, quando crianças, não tiveram o aferido diálogo em casa com os pais, irão deparar-se com uma nova leva de colegas: os colegas de trabalho, de faculdade, de curso técnico, de apartamento. As dificuldades de relacionamento que haviam sido “solucionadas pelos pais” retornam com mais força, mas, dessa vez, não há o recurso do SAC.

Diante disso, nos frustramos, passamos a comparar-nos com os colegas diante da dificuldade de resolver nossos problemas, pois essa arte nunca nos foi ensinada. Procuramos soluções rápidas e prazeres imediatos, sentimentos que apenas o consumo pode nos fornecer. Estamos com dificuldade de emagrecer? Compramos cintas de emagrecimento. Estamos com ansiedade e fome em excesso? Compramos remédios que diminuem o apetite. Estamos enclausurados em casa – como é o caso da quarentena? Compramos produtos, compulsivamente, pela internet e, dessa forma, temos uma falsa e breve sensação de felicidade e satisfação. Porém, em se tratando de amor e amizade – digo a verdadeira acepção dos temos – não há de se falar em compra, e é então que a “arte de ser infeliz” nos assombra novamente. 

Nesse momento passamos a tentar impressionar aqueles ao nosso redor – frustrando-nos ainda mais – por meio da criação de avatares nas redes sociais. Compramos uma roupa e necessitamos divulgar tal ato. Vamos a um restaurante e, antes de provarmos o prato pedido, tiramos foto deste para mostrar aos colegas de rede social o que estamos comendo. Viajamos e criamos a imagem de que foi perfeito, que não tivemos saudade de casa, que não enfrentamos desafios, que não houve “perrengues”, que comemos apenas em locais caros, que compramos roupas caras, que o hotel era 5 estrelas.

Mas do que se trata tudo isso? Do que se trata “A arte de ser infeliz”? De consumo. Daquilo que a indústria nos vende. Da família margarina, das viagens feitas e postadas por digital influencers, da vida de novela com a qual nos comparamos. Pensamos que pessoas como a Sandra Bullock não têm problemas, afinal de contas ela possui dinheiro, fama e beleza. Confundimos vida real com filme e, aos poucos, as relações e os sentimentos vão sendo substituídos por sensações rasas, como a satisfação ao consumir.

 

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