Por Patricia Cordeiro - 16/05/2015
Raramente os leitores/expectadores se questionam acerca de como são feitas as notícias que recebem, as condições de produção, se a opinião e posição ideológica do jornalista e da empresa onde trabalha influi. O jornalismo no imaginário comum ainda é bastante sacralizado e purificado, no sentindo de haver a crença de que ele é o reflexo puro da realidade.
No entanto, as teorias da comunicação e a própria práxis demonstram justamente o inverso. Não é este um campo neutro, um mosteiro dos “sábios”, ao qual devemos “engolir” toda e qualquer informação sem questionar, encarando como verdade suprema.
Mas qual é o papel do jornalista? O papel do jornalista é a divulgação de informações, que deve(ria) ser pautado no Direito fundamental à informação, consagrado na Constituição Federal brasileira art. 5º, XIV, que dispõe: “é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional”. Previsão que consta igualmente no Código de Ética dos Jornalistas, art. 1º: “O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros tem como base o direito fundamental do cidadão à informação, que abrange direito de informar, de ser informado e de ter acesso à informação”.
O Código de Ética faz um apontamento de como deve ser a conduta do jornalista, elenca o compromisso com a verdade, a correta divulgação dos fatos. E, inclusive, define como premissa essencial, o combate ao arbítrio, autoritarismo, opressão, delineando que o profissional deve agir de acordo com os princípios contidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Entre seus deveres estão: divulgar informações de interesse público; combater formas de corrupção, principalmente as que visam controlar a informação; defender os princípios constitucionais e lutar pela liberdade de expressão e pensamento.
E ainda: “ouvir sempre, antes da divulgação dos fatos, o maior número de pessoas e instituições envolvidas em uma cobertura jornalística, principalmente aquelas que são objeto de acusações não suficientemente demonstradas ou verificadas” (Art.12, I). Quando a publicação for de sua autoria, ou que tenha sido o responsável, precisa promover o direito de resposta às partes envolvidas/mencionadas na matéria.
Contudo, o jornalismo busca a novidade, o inusitado, o diferente, algo que sobressaia o cotidiano, visando impactar e conquistar seu público. Porém, é comum nas redações ler o material do concorrente, sabendo o que o outro publica, a priori reduz-se o risco de se produzir “mais do mesmo”. Mas jornalismo ocorre o oposto.
Para Bourdieu, nesse ramo ocorre precisamente a homogeneização das notícias, pelo fato dos profissionais estarem imersos a um tipo de visão e raciocínio, acabam por produzir matérias com pequenas diferenças.
Desconstruindo a ideia de que a concorrência diversifica, pois os jornalistas estão submetidos as mesmas pressões e restrições, então ao comparar notícias vemos que elas apenas mudam de lugar dentro do jornal. As perspectivas exploradas são basicamente as mesmas.
“Essa espécie de jogo de espelhos refletindo-se mutuamente produz um formidável efeito de barreira, de fechamento mental” (Bourdieu).
Ao basear seu trabalho no outro e vice e versa, o jornalista passa a ser a cópia da cópia, gasta seu tempo em círculos da informação, ao invés de buscar e apostar em novas fontes de construção do jornalismo. Os veículos de informação passam a ser uma sombra, não há originalidade, diversidade.
Outra problemática na produção de conteúdo jornalístico, é a parcialidade de suas escolhas, como explica Bourdieu, há sempre um caderninho de telefones de profissionais, para servirem de fontes em entrevistas - sempre os mesmos, com a mesma ideologia, ponto de vista. Logo, a interpretação sobre os fatos pouco difere. A própria escolha do material a ser veiculado revela. Raramente se verá notícias contrárias a um patrocinador. Há vários fatores que determinam quais serão as informações mostradas e como serão, dentre elas o fator econômico, político, mas também a detenção da propriedade.
No entanto, Pierre alerta que se víssemos apenas os nomes dos donos dos veículos de comunicação e a lista de patrocinadores, pouco saberíamos, pois há outros donos por detrás desses meios, e cita que o Canal ABC é de propriedade da Disney, por exemplo.
As escolhas não são neutras, como os jornalistas forçam parecer, elas são baseadas em vivências, educação, e vida como um todo. E refletem no que é noticiado, bem como na forma em que é noticiado. Há muito o jornalismo veem demonstrando que está imerso no conhecimento sensível, no teto hermenêutico.
Lendo um jornal ou assistindo a programação televisiva, é possível conhecer mais do jornalista e o veiculo a qual pertence do que propriamente informar-se dos fatos. A mídia e seu poder de fazer crer encarcera a si e aos outros, os sentenciando a um conhecimento reducionista e cínico. Para a teoria do agendamento, a mídia tem poder de decisão, sobre o que se pensa e como se pensa e com que termos se discute.
Os jornalistas procuram o extraordinário para noticiar, e quando não o encontram transformam o ordinário em extraordinário, por isso usam uma linguagem mais pesada, que tende a dramatização, ao sensacionalismo, e com essas palavras não percebem (?) o estrago que podem causar, pois iram medos, fantasias fobias ou representação falsas. Essa busca pelo diferente que todos perseguem, acaba resultando na uniformização e na banalização.
Pierre revela que ao tecer alguma análise sociológica sobre a formação ou fabricação da programação, não raro confunde-se a uma crítica ao próprio jornalista, como se o trabalho de (des)velamento dos mecanismos de produção, fosse um ataque dirigido a uma pessoa, de forma pessoal. Cristalizando que o manipulador a priori, no caso o jornalista, passa a ser manipulado, ainda que de forma inconsciente. A televisão pratica um ocultar mostrando, no sentido de criar a falsa noção de estar informando, trazendo um sentido que não corresponde à realidade, promovendo assim um retrocesso.
Não é possível que arbitrariedades só sejam vistas quando o outro realiza, reconhecer que onde estamos inseridos não constitui em mosteiro, santo, livre de arbitrariedades já é um grande passo, que pelo visto ainda não alcançado. Essa produção em circulo fechado da informação tem grande força, porque é uma espécie de censura invisível. A verificação se dá quando percebemos que uma noticia de um assunto diferente não passa pelo próprio crivo da mídia, e não é noticiada, salvo se for assinada por algum nome importante.
Entender a razão das notícias serem como são, é fundamental para romper a alienação, a partir da compreensão do processo é possível pensar em modificá-lo e buscar a construção de um conteúdo jornalístico baseado em escolhas mais racionais.
A concorrência e a urgência em transmitir, acabam gerando os pensamentos rápidos, essas pessoas que pensam com tamanha agilidade, podem na verdade não estar pensando, mas apenas proferindo discursos que já conhecemos e já são aceitos por nós, ou seja, pensam com ideias feitas. Não há problema na recepção da informação. Ao contrário do que aconteceria se apresentassem um genuíno pensamento, que é por natureza subversivo, e começa por desmoronar ideias prontas, e na sequência deve demonstrar sua lógica, porém, leva tempo para ser construído.
Explica Bourdieu, que a televisão prefere os pensamentos rápidos, o que está pré-pensado. Até mesmo na ora da procurar fontes, o mais comum é ter pessoas pré- estabelecidas que falem sobre determinados assuntos. Procurar alguém “desconhecido”, mas que talvez tivesse algo mais interessante para dizer daria trabalho, levaria tempo, é mais fácil ter uma caderneta que nomes e telefones que pouco se altera.
Para constar-se a veracidade, basta ligar-se a televisão em programas sensacionalistas, que trabalham basicamente em cima de ideias pré-dadas. Como quando, por exemplo, falam que direitos humanos só defendem bandidos, que as leis precisam ser mais rígidas, há uma ideia pré-estabelecida na cabeça de grande parte dos cidadãos que não buscam informação, que é isso mesmo.
Ao preferir tal sentença, não é preciso refletir, pois há um “consenso” sobre a questão. Esse tipo de jornalista constrói sua carreira com base em não-pensamentos, mas repetições, papagaiadas, que, no entanto faz crescer a audiência. Pois o verdadeiro pensar, gera inquietação, mas o lugar comum não, e logo gera conforto nos ouvidos dos telespectadores/leitores que anseiam justamente por isso, um “senhor” que lhe professe “verdades”, note que não há novidade.
A interpretação não é possível ser feita em partes isoladas, ela dá-se no todo, na soma de processos, e não na exclusão de um, em privilégio do outro, mas na junção, que deve considerar o maior número de elementos e perspectivas possíveis, promovendo assim um choque de horizontes, para de fato termos a noção do real.
Humberto Werneck (2011), em sua obra “Esse inferno vai acabar”, descreve o amigo Jornalista Guilherme Cunha, como um sujeito que não aceitava as simplificações grosseiras do jornalismo, que não raro usa a desculpa dos horários e espaços curtos, para sair em busca de ajustar os fatos a uma pauta. Guilherme Cunha ia sem pé atrás e ideias prontas, se permitia surpreender-se, olhava o mundo com curiosidade e jamais pendurava seus entrevistados no pau de arara do jornalismo inquisitorial.
O jornalismo é um teatro perigoso, pois ao contrário da peça teatral propriamente em que as pessoas sabem que não é real, no jornalismo nem mesmo os “atores” tem essa percepção, quem dirá o público que aceita quase tudo como puro.
A informação fast food, é fruto do teto hermenêutico dos jornalistas, que por sua vez origina-se no desrespeito ao Código de Ética do Jornalista e a própria Constituição Federal, que preveem a liberdade de expressão, pensamento e o direito à informação. Essa deturpação do real, cria outra realidade, em que não há espaço para o respeito a esses direitos.
O jornalismo deixa de ser o instrumento de mudança, para ser cópia dos outros jornais, que são fundados na ideologia de seus donos.
O principal desafio ainda demonstra ser a dificuldade de dar voz aos envolvidos na notícia, pois são tratados como se não tivessem o direito constitucional de manifestar-se.
Um dos conhecimentos mais básicos do jornalismo é o Lead (guia), que são as perguntas básicas que uma matéria deve responder, dentre elas estão: O que? Quando? Onde? Quem? Por quê? Nota-se claramente que o “por que” há muito os jornais e programas televisivos não respondem, desrespeitando claramente o direito à informação.
Como no caso da discussão sobre a legalização das drogas, muitos são os jornais e programas que mostram os argumentos a favor ou contra, mas raríssimos mostram a origem, de por que é proibida, se assim fosse veríamos deveras uma discussão séria, e não um ocultar mostrando, que produz efeitos devastadores na sociedade.
Assim é o teto hermenêutico, preso a realidade sensível, o jornalista não consegue ver além, e quando alguém vê logo é massacrado, estigmatizado, reduzido. É um bloqueio, uma barreira, que não é quebrada por pré-conceitos, pré-definições, não aprenderam ver o mundo de outra forma. E como alertou Bourdieu, os jornalistas leem uns aos outros, logo isso constrói um tipo de campo de significações, e com o passar do tempo suas pré- significações vão ficando mais fortes e fechadas, e é muito difícil arriscar algo novo, mas é possível.
Talvez em algum mundinho encantado, a imprensa não manipule a opinião que ela chama de pública, jornalistas não sejam especialistas em ocultar. E sequer ousarei dizer que neste mundo moram o Papai Noel e o coelhinho da páscoa, porque esses são mais reais do que a mídia que você compra.
Notas e Referências:
BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão: a influência do jornalismo e os jogos olímpicos. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.
WERNECK, Humberto. Esse inverno vai acabar. Arquipélago Editorial LTDA, 2011.
Patrícia Cordeiro é Anarquista e Abolicionista. E contra toda e qualquer prisão, inclusive de amor. Graduanda em Direito e Comunicação Social – Jornalismo, pela Faculdade Univel, Cascavel – PR. Integrante do Projeto de Pesquisa vinculado ao CNPq: O Direito Humano Fundamental à Cultura, sua diversidade e efetivação. E membro da página Mulheres Abolicionistas.
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