A ESCOLA COMO ESPAÇO DETERMINANTE PARA A UTILIZAÇÃO DO DIÁLOGO: CRIANDO VALORES PARA A CONVIVÊNCIA

21/03/2019

 

“... a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. Ver é coisa complicada, não é função natural. Precisa ser aprendida.” Rubem Alves

1 INTRODUÇÃO

            Neste texto, trilhamos um caminho teórico que justifique a importância de um espaço reservado para ensinar o diálogo como valor de convivência na escola. Explicitando de forma reflexiva a inclusão deste tema em sala de aula uma vez que sem diálogo não conseguimos resolver os problemas e as situações que nos são impostas.

            Por que devemos ensinar o diálogo como valor de convivência atrelado à educação ou a educação atrelada ao diálogo? Nussbaum dá-nos a seguinte resposta: “Devemos aceitar o fato que temos de dividir o mundo com outros e direcionar nossas ações para o bem dos outros” (NUSSBAUM, 2012, p. XIII). Com certeza, esse é um motivo forte e coerente. Ainda, encontramos outros motivos na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) que se refere ao ensino de valores da seguinte forma:

Art. 27. Os conteúdos curriculares da educação básica observarão ainda, as seguintes diretrizes: I – a difusão de valores fundamentais ao interesse social, aos direitos e deveres dos cidadãos, de respeito ao bem comum e à ordem democrática.

            Referindo- se diretamente ao Ensino Fundamental, que acredito ser a base da educação, encontramos na LDBEN:

Art. 32. O ensino fundamental [...] terá por objetivo a formação básica do cidadão, mediante:

[...]

II – a compreensão [...] dos valores em que se fundamenta a sociedade;

III – [...] a formação de atitudes e valores;

IV – o fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social.

 

            Ao tratar do Ensino Médio, muda a palavra valor para ética:

Art. 35. O ensino médio [...] terá como finalidades:

[...]

II – a preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando [...].

III – o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico [...].

A escola exerce um papel fundamental na construção de valores dos estudantes, é nessa fase da educação básica que estes vão sendo consolidados e problematizados.

Refletir e entender o diálogo como valor de convivência não significa ensinar aos estudantes a serem apáticos com as situações que surgem, pelo contrário significa ensiná-los a expor suas opiniões, defender suas ideias e conceitos sobre os problemas que enfrentam.

Pensar o diálogo é pensar sobre as ações humanas que interferem na vida do estudante e da comunidade que está ao seu redor, assim, é refletir sobre as consequências de ações coletivas sobre a vida de cada estudante.

Faz-se necessário contextualizar e mostrar aos estudantes que o diálogo além de importante em todos os âmbitos da vida é fundamental para a convivência. Elaboramos nossos conceitos a partir de pressupostos sem nos preocuparmos em fundamentar e defender nossas convicções. Porém, quando nos deparamos e somos questionados sobre conceitos que julgávamos verdadeiros, não sabemos como defender e fundamentar nossa opinião e acabamos por apenas repetir o que já é de conhecimento de todos. Nesse sentido, ter um momento para entender e aprender a dialogar, a construir um pensamento e saber usá-lo é fundamental na formação dos estudantes enquanto cidadãos.

            É na escola que o diálogo como valor de convivência se apresenta como tema fundamental, porque está permeado na reflexão sobre a prática e o agir do ser humano. Tudo o que há nesse espaço ou na sociedade é resultado direto do agir humano. É função dos estudantes optar pela melhor maneira de conviver, bem como aprender e saber explicitar por que essa escolha é a melhor.

O presente artigo visa fazer com que os educadores reflitam e acrescentem um espaço específico para o ensino e valorização do diálogo como valor de convivência. Pois, para Carvalho (2007, p. 183) “O ser humano é um animal que cria uma cultura para tornar possível uma convivência mais ou menos pacífica”. Além disso, o ser humano é um ser de desejo e suas ações, muitas vezes, são motivadas por estes desejos. Ao desejar, faz escolhas ou seleciona. Segundo Viana (2007. p. 1): “Valor é um elemento de um sistema simbólico que serve de critério ou padrão para seleção entre alternativas”. Com certeza, é difícil chegar a um conceito de valor e mais difícil ainda determinar quais os valores são fundamentais para se viver em sociedade, mas o diálogo é inerente a isto, pois a partir dele podemos delimitar e nomear todos os outros chegando a um consenso.

De acordo com isto, Carvalho (2007, p.182) defende:

Como não temos o direito de exigir que nossas convicções pessoais sejam admitidas por todos, as negociações para uma moral social precisam ser baseadas em princípios universalmente reconhecidos.

[...] Considerando as inúmeras possibilidades contempladas pelos juízos de valor, o mais prudente é que moral social seja de natureza consensual. Ao levarmos em conta os valores como resultado de um consenso, valorizamos a discussão acontecida a partir da sociedade. Em todo caso, vale salientar que os valores não são eternos. O movimento histórico e a mudança cultural fazem com que alguns valores sejam repensados, e outros sejam acrescentados. Se isso não ocorresse, poderíamos correr o risco de produzir uma sociedade engessada, com valores imutáveis e rígidos. “É a convivência que propicia uma reflexão sobre a vida em sociedade, revelando a necessidade da criação de uma moral social laica e consensual” (CARVALHO, 2007, p. 182).

            Assim, ensinar o diálogo como valor de convivência serve como um momento de direcionar o pensamento e tornar a convivência mais pacífica e humanizada. Para Delors (1998), entre os pilares necessários para a educação se encontra a necessidade de conviver com os outros. Compreender o outro e desenvolver a percepção da interdependência, da administração de conflitos através do diálogo e da troca entre os envolvidos no processo de ensino e aprendizagem.

            Nesse momento específico, estaremos possibilitando não só o aprendizado do diálogo como valor de convivência, mas a troca de experiência entre os estudantes que poderá gerar mudança de concepções e a efetiva propagação de conceitos novos ou reestruturados possibilitando a todos os envolvidos rever suas crenças e ampliar seus conhecimentos.

 

2 O PAPEL DA ESCOLA NA FORMAÇÃO DO CIDADÃO

            A escola por ser um local de ensino e aprendizagem entre diferentes pessoas absorve as mudanças advindas do contexto social, e isso acaba refletindo na postura dos estudantes e na prática dos professores para administrar as novas situações que aparecem a cada dia. Logo, é o espaço adequado para que os valores sociais e éticos sejam objetos de reflexão por constituir-se como um espaço marcado pelo encontro de diferentes culturas, crenças e valores o que torna este espaço rico em troca de conhecimento entre os sujeitos envolvidos.

            Temos que ter em mente, como educadores, que é impossível separar a educação dos valores, principalmente do diálogo como valor de convivência. Os sistemas educacionais ao organizar as informações que serão ensinadas dentro dos conteúdos programáticos já fazem essa seleção, baseando-se em pressupostos valorativos. Ensinar valores é preparar o educando para viver em sociedade, em particular o diálogo por ser aquele que rege o convívio e a relação entre as pessoas.

            O diálogo é uma maneira de fazer circular sentidos e significados, ou seja, as palavras circulam entre os estudantes sem necessariamente serem concordadas, discordadas, analisadas ou julgadas, elas apenas apresentam a experiência imediata dos envolvidos.

            Este é o principal valor de convivência existente, pois ele se torna fundamental para que todos os outros valores sejam tratados, ensinados e desenvolvidos no decorrer do processo de ensino e aprendizagem na escola.

            Os documentos relacionados à educação básica entendem que a escola exerce um papel fundamental na construção de valores ao afirmar:

Entendemos, com isso, que a escola pode e deve ter um papel fundamental na construção de valores de ética e de cidadania que auxiliem os membros que ali convivem a pautarem sua vida pessoal e coletiva no respeito às diferenças provocadoras de exclusão. (BRASIL, 2007, p. 84).

Por se tratar de uma condição fundamental na interação entre as pessoas, o diálogo deve ter um espaço reservado para ser ensinado e explicitado com o seu devido valor e importância. Aqui entra a escola como o local onde o que é importante é ensinado e, mesmo, reforçado quando esse conhecimento já faz parte da educação trazida de casa. Nesse espaço, os estudantes têm a liberdade de promover suas ideias pessoais, explicitar suas opiniões sem seguir um roteiro pré-determinado, o diálogo, aqui, passa a ser uma atividade reflexiva e de negociação.

O diálogo é essencial para possibilitar a comunicação seja ela escrita ou falada, pois é ele que promove a interação para que os alunos entendam que não pensam da mesma forma. Conforme Santos (2005): “A relação dialógica, comunicação e intercomunicação entre os sujeitos é fundamental a qualquer prática educativa. É no respeito às diferenças entre os seres na coerência entre o que se fala e o que se faz que devemos nos encontrar no outro”. Em consonância com a citação, é através do diálogo que conseguimos chegar a um consenso e resolver as situações que aparecem, além de ser um momento de liberdade.

Esse momento de dialogar com o outro se faz necessário para que os estudantes passem a pensar, a encontrar respostas, a entender, aceitar e respeitar a opinião alheia. A razão para termos um espaço na escola para o ensino do diálogo como valor de convivência deve estar presente no projeto político pedagógico, pois é nele que vem discriminado a verdadeira importância da escola na vida dos estudantes que é a de possibilitar o crescimento a partir dos conteúdos do ensino, que são conteúdos proporcionados para a vida.    

 

2.1 O ESPAÇO RESERVADO PARA O DIÁLOGO

O conhecimento é constituído pelo processo interativo entre os sujeitos que são mediados, principalmente, pelo diálogo. O mesmo envolve-se ativamente na produção do conhecimento e o amplia quando discute com o outro. Assim, a sala de aula precisa ser encarada como um espaço de humanização, de formação onde o afeto, o respeito mútuo e o diálogo devem prevalecer para o desenvolvimento humano. Na escola, os professores são preparados para ensinar seus estudantes a ler, escrever e falar corretamente. Porém, esses ensinamentos devem estar alicerçados em valores, pois é através deste enfoque que formaremos efetivamente nossos estudantes para viverem em sociedade.

O diálogo é o valor fundamental para essa convivência adequada e direcionada para o respeito, a tolerância, a confiança e a participação ativa e democrática dos envolvidos. No processo dialógico somos levados a pensar e compreender, não existe ideias prontas, os estudantes são instigados a refletir e formar uma opinião, afinal, estes, são também portadores de um saber adquirido com suas experiências próprias.

Neste contexto, a escola deve ser a disseminadora deste ensinamento, pois é nela que os estudantes dão os primeiros passos em sua formação como cidadãos críticos e reflexivos, além de ser um componente relevante para uma aprendizagem significativa.

Com um espaço para o ensino do diálogo, os estudantes terão a oportunidade de aprender por meio da reflexão e da discussão. Desenvolvendo a compreensão, a capacidade de pensar, de questionar aos outros e a si mesmo, a tornar-se um ser crítico, pensante.

Nesse espaço torna-se essencial aprender a ouvir o outro sem interrompê-lo seja para concordar ou discordar. O silêncio faz parte do processo, pois no momento que o outro fala, conseguimos observá-lo e nos auto-observarmos. Isso nos possibilita prestar atenção ao que ocorre, aos fenômenos que são apresentados na escola.  Permite aos estudantes um relacionamento para a reflexão, para aceitar o posicionamento do outro e suas diferenças. Dialogar não é apenas falar. Os gestos, as expressões corporais e, mesmo, o silêncio fazem parte da comunicação, assim há o desenvolvimento de uma educação emocional, pois temos que aprender a lidar com nossas emoções e respeitar ao próximo.

 Segundo Paulo Freire (1967): “[...] o diálogo é uma relação horizontal. Nutre-se de amor, humildade, esperança, fé e confiança”. Nessa colocação é possível perceber que o diálogo está ligado ao fator afetivo que é a virtude primordial neste processo.

A educação para o diálogo deve ter sempre consciência da importância e do enriquecimento através da troca de experiências e da descoberta de novos valores, além da importância de se aprender coletivamente. É dialogando que os estudantes amadurecem, descobrem novas ideias e sentimentos tornando possível a transformação tanto no comportamento quanto em suas crenças.

A sala de aula é o espaço mais relevante e abrangente para o desenvolvimento da capacidade dialógica. O professor serve de mediador e deve observar a troca de experiências, as emoções aflorarem no diálogo entre os estudantes. Além de direcionar este diálogo estimulando o pensamento através de perguntas e ações. Dialogar é o principal exercício do ser humano e isso implica a honestidade e a possibilidade de intervir em um clima de confiança.

 

2.2 O DIÁLOGO COMO VALOR SOCIAL

Para que a aprendizagem aconteça é necessário que o professor reconheça seu papel diante da interação que manterá com seus estudantes. O professor deve estar atento e saber apresentar condições favoráveis à apropriação, por parte dos estudantes, de conhecimentos acumulados e socialmente tidos como relevantes. São estes conhecimentos que servirão de instrumento para seu agir no mundo, para o pensar sobre si, sobre as coisas da sua vida para depois formarem opiniões concretas.

Dialogar é libertar, possibilitar, oportunizar ao estudante um momento para ele ser o disseminador de um ponto de vista. É fazer com que o mesmo seja o protagonista de sua vida, pois é neste momento que ele estará argumentando e defendendo suas ideias. De acordo com Palmer:

O crescimento de qualquer ofício depende de uma prática compartilhada e de um diálogo honesto entre as pessoas que o praticam. Crescemos por meio de privações privada e erro, com certeza. Mas nossa disposição em tentar e fracassar como indivíduos é intensamente limitada quando não somos apoiados por uma comunidade que encoraje tais riscos.” (PALMER, 2012, p. 16)

Assim, essa prática deve estar alicerçada para que o diálogo não seja fracassado. Os recursos, os educadores devem se preparar para este momento efetivamente, pois desta forma os alunos conseguirão de fato conviver e utilizar essa ferramenta para aprofundar os conhecimentos.

Para ocorrer uma maior eficácia nas perspectivas que o professor estabelece em relação aos seus estudantes, torna-se necessário que se proporcione a ele uma modificação da sua representação prévia. Para um melhor resultado nas mudanças de representação e de expectativas é necessário que o professor modifique seu comportamento educativo e que aceite e entenda as ideias que se formarão no decorrer das aulas sobre a importância do diálogo como valor de convivência. 

Frente à relação entre estudantes e professores o primeiro passo está relacionado à importância que o estudante atribui à opinião que o professor tem sobre ele, quanto maior essa importância e dedicação, maior será a probabilidade de que lhe afete de forma construtiva ou destrutiva os conteúdos transmitidos. O segundo fator, refere-se ao seu autoconhecimento, ao conceito que o próprio estudante tem de si mesmo e de sua capacidade.

            Assim, no decorrer das aulas, a intenção é que o professor e os estudantes multipliquem sua interação e com isso as expectativas iniciais vão sendo transformadas podendo ser modificadas ou reforçadas. Os professores agem como mediadores, mas com consciência que não são os únicos detentores do conhecimento, possibilitando, assim, a troca.

            Também devemos observar as diferenças que ocorrerão no decorrer do tempo. Essas diferenças têm relação direta com as atividades desenvolvidas e oferecidas nas oportunidades que são dadas para aprender e mesmo na dificuldade que os estudantes encontrarão para estarem centrados na proposta de trabalhar com o diálogo. Os estudantes reagirão aos diferentes tratamentos educativos recebidos mediante uma maior ou menor atenção, participação, persistência, cooperação e esforço no desenvolvimento das atividades de ensino e aprendizagem voltadas para o diálogo como valor de convivência, de tal maneira que não se conformarão com as expectativas dos professores e farão todo o possível para superar o proposto.

Segundo Gelpi (1992, p. 28): “A vida como valor é o ponto de partida de toda “pedagogia de valores””. Em consonância, Hans Küng (1999, p. 49) nos diz que: “Hoje há concordância no fato de que sem um mínimo de consenso fundamental no que tange a valores, normas e posturas não é possível a existência de uma comunhão maior nem uma convivência humana digna”. Assim, nessa educação compreendemos a importância do diálogo como valor de convivência para a escola. Nesse sentido, o professor pode e deve fazer com que os estudantes reflitam sobre a importância de contextualizar a cultura singular de cada um no coletivo, e possibilitar a construção de um saber cabível de discussão.

A escola é um local de aprendizagem, de ensinamentos. Ensinar não compete só ao professor, mas neste ambiente é ele que possui este dom, sempre respeitando o conhecimento prévio de seu estudante. Reservar um espaço para o ensino de valores é investir na educação. Não basta ensinar em todos os momentos, um pouco em cada disciplina, é necessário um momento reservado e explícito, uma aula específica para que o conceito do diálogo como valor de convivência seja ensinado, explicado como qualquer outro conteúdo, trabalhado de forma interdisciplinar para colaborar no desenvolvimento das outras disciplinas e conteúdos. 

Com esse momento na escola, em sala de aula, há a reflexão junto aos estudantes e para aqueles que se sentem diferentes ou indiferentes, a possibilidade de um momento para que possam se expressar ou se reconhecer na fala do outro.  Aqui, é dada a liberdade aos estudantes da livre expressão e, em consequência, é tecido um saber com o grupo. O professor sempre como mediador, contribuindo na preparação para a vida e, ensinando com a intenção de desenvolver a aprendizagem e expandir o saber. Sem diálogo não há convivência pacífica, por isso a importância de se ter um momento consolidado para esse fim.

 

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

            O ensino do diálogo como valor de convivência está direcionado às relações interativas decorrentes do processo de ensino e de aprendizagem. Estas relações devem ser trabalhadas para que os estudantes aprendam a utilizar esse valor não só no momento presente em sala de aula, mas no decorrer da trajetória de vida.

Temos, como professores, o papel de envolver nossos estudantes, eles precisam entender e compreender a verdadeira importância daquilo que ensinamos para crescerem como pessoas conscientes de sua atuação perante a sociedade e a comunidade que estão inseridos. Rubem Alves em uma de suas obras diz: “Se não descobrirmos um jeito de envolver a emoção, não haverá a experiência da transformação”. Precisamos transformar nossos estudantes, mas antes disso precisamos doutrinar os professores, enquanto gestores, para que a escola se adapte às mudanças necessárias para o ensino de valores.

No espaço escolar há a necessidade de agir coletivamente para garantir o bem-estar pessoal, o bem-estar dos estudantes enquanto turma e a promoção e difusão da convivência. Através dessa convivência atrelada ao diálogo, aprende-se mais, fazem-se acordos e chegamos ao consenso. Os estudantes tem a capacidade de aperfeiçoamento, de ultrapassar parâmetros, de construir e refazer maneiras de conviver com os que os cercam tanto na sala de aula quanto fora da mesma.

A escola ou o professor sozinho não podem ser responsabilizados pela reflexão ou pelo diálogo como valor de convivência, mas tem o papel e o dever de direcionar e colaborar para que isto seja desenvolvido efetivamente. Isso é uma ação que cabe a sociedade de modo geral, mas a escola como responsável pela educação deve organizar um espaço estratégico para que isso seja valorizado e difundido. O ensino do diálogo é resultado da construção social e, assim, objeto de aprendizagem. Martinelli (1999, p.21) nos diz que:

Os valores não devem ser encarados como algo abstrato ou estanque, nem como um código de conduta imposto de fora para dentro. A educação em valores na família e na escola deverá incrementar a capacidade de discernimento dos alunos e conscientizá-los da importância das suas escolhas. Assim, a educação consolida os valores e virtudes já existentes nos alunos e incentiva a superação de erros e defeitos. (MARTINELLI, 1999, p.21)

Dialogar está relacionado com a arte de negociar, de interagir, trocar informação e é na escola que esse valor deve começar a ser trabalhado em um momento específico, pois ajudará no desenvolvimento dos estudantes enquanto seres humanos refazendo e repensando suas ações. Talvez não seja a coisa mais fácil ter um momento específico para ensinar o diálogo como valor de convivência, porém é possível ensinar a refletir sobre as consequências das ações e a respeitar o próximo em meio a este diálogo.

Nessa possibilidade é que passamos a entender que o ser humano pode e deve refletir a respeito de suas ações individuais e coletivas, das consequências que essas ações têm na sua vida particular e o quanto isso afeta o grupo escolar. Quando decidimos agir, tomar uma decisão ou outra, fazer uma escolha, não podemos pensar somente nas nossas atitudes, mas devemos relacioná-la com quem está ao nosso redor.

            Logo, faz-se necessário criar este espaço para que as interações aconteçam e para que a troca de ideias entre professor/estudante e estudante/estudante contribua para uma aprendizagem significativa e de qualidade. Debater sobre o diálogo é função da escola mediada pelo professor. É por meio dessas ações reflexivas que a escola poderá promover e ampliar o respeito à diversidade e, aos poucos, conscientemente combater as ações que levam à intolerância e à exclusão.

 

Notas e Referências

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ALVES, Rubem; ANTUNES, Celso. O aluno, o professor, a escola: Uma conversa sobre educação. 2º ed. Campinas, SP: Papirus 7 Mares, 2011.

ALVES, Rubem. A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir. 13º ed. Campinas, SP: Papirus, 2011.

CARVALHO, J. M. O homem e a filosofia. Pequenas meditações sobre existência e cultura. Porto Alegre: Edipucrs, 2007.

CORBO, Daniel J.;COSSIO, Anna María; SILVEIRA, Pablo da; FASSOLA, Zulma; MARTÍNEZ LARRECHEA, Enrique; PATRITTI TARRECH, Fabrizio. La educación como ética de la libertad: Construcción autónoma de la personalidade moral y de la ciudadanía democrática. Montevideo: Konrad/Fundación Ciudad de Montevideo, 2007.

DELORS, Jacques. Educação: um tesouro a descobrir. São Paulo, Cortez, 1998.

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1967.

GELPI, E. Los valores y la educacion: Uma perspectiva desde la UNESCO. In: Educacion y valores en Espanha: actas del seminários (Cadis 26 – 28) de noviembre de 1991, número 76. Colección: investigation. Madrid: Centro de publicacion del Ministério de Educacion e Ciência, CIDE, 1992.

KÜNG, H. Uma moral ecumênica em vista da sobrevivência humana. São Paulo: Paulinas, 1999.

__________. Teologia a Caminho: Fundamentação para o Diálogo Ecumênico. São Paulo: Paulinas, 1999.

MARTINELLI, M. Conversando sobre educação em valores humanos. 3 ed. São Paulo: Peirópolis, 1999.

NUSSBAUM, M. C. The new religious intolerance: overcoming the politics of fear in an anxious age. Cambridge, MA, USA, Belknap Press of Harvard University Press, 2012.

PALMER, Parker J. A coragem de ensinar: explorando a paisagem interior da vida de um professor. São Paulo: Editora Da Boa Prosa, 2012.

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VIANA, N. Os valores na sociedade moderna. Brasília: Thesaurus, 2007.

 

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