Small is beautiful ou de como ser pequeno é ser grande: breves notas sobre pessoas, bens e produção – Por Rafael Silveira de Souza

04/09/2017

Na década de 70, o economista alemão Ernst Shumacher escreveu uma interessante obra intitulada “O negócio é ser pequeno (Small is beautiful): um estudo de economia que leva em conta as pessoas”, como forma de resposta às crises que o capitalismo passava a vivenciar naquele período. Neste livro, destaca-se aqui a Parte I – O mundo moderno, cuja análise está centrada no problema da produção. Para o autor, esta não fora resolvida em razão da perversidade humana e da atitude do homem em relação à natureza, ou seja, o capital maior seria aquele proveniente de extração natural. Como não há interesse na conservação de recursos e não há estudos de métodos alternativos, seria preciso construir um novo estilo de vida, dotado de novas metodologias de produção e de novos padrões de consumo: um estilo de vida planejado para ser permanente no tempo.


Outro ponto a destacar na obra de Shumacher diz respeito ao problema da paz e sua permanência, uma vez que o homem adquiriu os meios físicos de autodestruição e há necessidade de neutralizá-los. Por isso, embora ninguém trabalhe pela paz, o que o economista alemão sustenta, é a obrigação de pedirmos aos cientistas e técnicos a criação de métodos e equipamentos suficientemente baratos e acessíveis a todos, além de adequados à aplicação em pequena escala e compatíveis com a necessidade humana em ser criativa. Desse modo, o papel da economia é urgente, já que o estudo acerca dos bens passa ser fundamental, no sentido de superar o predomínio da lucratividade privada e a indiferença com o mundo natural, devendo o mercado ser desafiado, dado que ele é a institucionalização do individualismo e do princípio da não-responsabilidade.


Shumacher pugna pela atenção à economia budista, tendo em seu estudo sistemático um aspecto importante para pensar o alcance a determinados fins por intermédio de meios mínimos. A produção com recursos locais para necessidades locais é, talvez, o método mais racional de vida econômica, uma vez que a economia moderna e seus fundamentos atuais têm no consumo a satisfação máxima. Além disso, o gigantismo da economia é incapaz de resolver os problemas de hoje, razão pela qual, segundo o economista alemão, deve-se focar nas pessoas e não em bens, pois são elas passíveis de sofrimento com a pobreza, a frustração, a alienação, o desespero e com o crime.


O texto de Shumacher tem, desta maneira, uma conexão com o projeto anticapitalista, notadamente no que se refere aos ditames característicos da chamada economia solidária, fundada em empreendimentos econômicos de autogestão centrados no ser humano, e não na força ativa do capital tradicional. Convém trazer a lume, ademais, o projeto político do bem-viver, ancorado em um sistema que preza pela solidariedade, convivência, reciprocidade e qualidade de vida em que a comunidade e a natureza convivem de forma harmoniosa. Nesse sentido, ocorre a valorização da vida em comunidade e no reconhecimento da natureza como titular de direitos, e não meramente como um recurso apenas para gerar lucro, o que pode ser visto pela formação constitucional do Equador (2008) e da Bolívia (2009), ambas incorporadas ao chamado Novo Constitucionalismo Latino-americano.


Diante disso, cumpre afirmar que a articulação entre estes elementos discutidos por Shumacher e a aproximação às categorias da economia solidária e do bem-viver, constituem-se como estratégias de resistência, de alternativas e de lutas por uma nova organização societal, tornando o direito e a sociedade de consumo inseridos neste novo panorama de inadiáveis transformações para desafiar a ordem capitalista com suas estratégias de prevalência, de hegemonia política, social e cultural.


 

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