Coluna Direito e Arte / Coordenadora Taysa Matos
Outro dia a gente chora.
Hoje não é hora.
Coloca a máscara, escondido o pranto,
diz à mãe que hoje o filho não vem,
nem depois, nunca mais um filho, nunca mais,
– e daí –
Outra hora a gente reza.
Hoje não tem vez.
Também pudera,
a vida – assim – tropeçando em covas rasas...
Ajeita bem a fala, cuida das palavras,
diz ao filho que hoje a mãe não vai,
nem depois, nunca mais a mãe, nunca mais,
– e daí –
Noutro tempo a gente grita.
Hoje não é dia.
Goela abaixo toda a dor,
diz aos filhos – não tem mãe!
diz à mãe – filhos...mais ninguém!
nem depois, nunca mais, nunca mais,
– e daí –
Sejam impedidas todas as agonias!
Busca um sonho bem antigo
(há de ter mais um no baú dos teus guardados),
desembrulha cada uma das presenças,
esfrega bem cada uma das lembranças,
até que vejas
na transparente cortina das retinas,
do outro lado – bem acesa a saudade –
mascarada a utopia dos impossíveis...
Porque toda mãe sabe não chorar (chorando),
toda mãe é exímia bailarina das rotinas,
toda mãe entende bem de precipícios
(e de asas sempre atentas à beira)
– mães não são feitas para alcançar o fundo de nenhum mundo –
mães são rios de beber o mundo nos próprios olhos/enchentes d'água
porque só um rio/mundo sabe desaguar tristezas num coração de profundas águas.
Imagem Ilustrativa do Post: grayscale photography // Foto de: Caroline Hernandez // Sem alterações
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