O rock e os direitos civis: A conexão negra (1950 - )

16/06/2015

Por Germano Schwartz - 16/06/2015

Será mera coincidência o fato de que o rock retrata muito dos fundamentos dos direitos civis? Será apenas uma conjunção astral verificar que o surgimento do rock, nos anos cinquenta do século passado, dá-se no mesmo espaço temporal da eclosão dos discursos pelos direitos civis, em especial nos USA pós-segunda guerra? Não.

Cheryl Baer[1], em dissertação apresentada no Mestrado em Ciências Sociais da Humboldt State University, apresenta um argumento bastante sólido a refutar a tese da coincidência. Rock & roll e direitos civis foram influenciados pelos mesmos fatores: segunda Guerra Mundial, tecnologia, migração de trabalhadores para os grandes centros urbanos, prosperidade, ansiedade por mudanças sociais, entre outros.

De fato, não é segredo relembrar que a meninada americana, sentindo que fazia parte de uma grande e vencedora nação, vivia em um estado de suspensão, aguardando pelo seu big bang. O futuro estava logo ali. Era alcançável e era bonito. A diversão os esperava nos ballrooms, locais das periferias dos centros urbanos em que os negros dançavam sem parar ao som de Chuk Berry e Litlle Richards, para citar somente dois.

Havia pouco shake na vida dos WASP e/ou dos rednecks. Muita retidão. Um pouco de novidade viria bem a calhar. Uma garota Sue estava ali na esquina e ela poderia saber de tudo.

Note-se que a origem negra do rock é, também, um dos traços dos direitos civis, já que suas raízes se deitam na instituição da escravidão. Como se libertar dos grilhões impostos pelos brancos americanos? Música. Nos anos 50 esse ritmo libertador, transgressor e transformador era o rock. O rock que descendia dos blueseiros, dos menestréis, dos escravos.

Por isso, a Ku Klux Kan achava que essa era uma música do diabo (alguns ainda a consideram como tal nos dias de hoje!). Isso porque os devils blues eram negros e se apresentavam como uma ameaça ao status quo vigente à época. Diabo, negro, rock... Os preconceitos se perpetuam sempre com alguma base. Ignorância.

Mas nem tudo são trevas. Na medida em que o discurso dos direitos civis vai tomando corpo, a própria religião identifica-se com ele. Não é de se admirar que justamente nessa época o rock começa a incorporar elementos do gospel.

Essa dicotomia entre a provocação e a aceitação foi uma constante tanto para o rock quanto para os direitos civis. Os dois sacudiam o esqueleto de uma nação que, afinal, estava prestes a se tornar uma das duas grandes potências mundiais. Era muito ritmo e muito blues (R&B). A sociedade restava chocada, ainda mais quando se cantava a respeito das loucuras juvenis.

O curto período descrito até agora vai, mais ou menos, de 1950 a 1955, exatamente na época em que a segregação racial começa a declinar nos USA. Em maio de 1954, no caso Brown vc Board of Education of Topeka Kansas, a Suprema Corte americana declarou a inconstitucionalidade da separação de estudantes negros dos alunos brancos.

A decisão supracitada é um dos motivos do famoso boicote de  Montgomery Bus. Uma negra americana de nome Rosa Parks não pôde sentar nos bancos destinados aos brancos no transporte público de ônibus na cidade de Montgomery , Alabama. Dessa fato, e com a decisão retrorreferida, com o apoio de figuras como Martin Luther King Jr., declarou-se, também, ao final, a inconstitucionalidade daquela situação.

Adivinhem a música que embalava as vigílias e os protestos relativos ao boicote em tela? É, não foi a música clássica. Foi o rock, pairando que estava no ar como um instrumento de revolução, de mudança para um mundo diferente e promissor, construído sob novas premissas. Engraçado. É nessa fase que o rock embranquece (Carl Perkins, Elvis Presley, Buddy Holly etc) e se torna maistream. Mas isso é tema para outra coluna.

A gênese estava aí. O mundo nunca mais foi o mesmo depois do rock e dos direitos civis. É, eles tinham um sonho (Martin Luther King Jr.)!


Notas e Referências:

[1] BAER, Cheryl (2005). Concurrent Revolutions. Rock & Roll and Civil Rights Movements.  Acessado em http://humboldt-dspace.calstate.edu/bitstream/handle/2148/31/CBaer.pdf?sequence=1


GermanoGermano Schwartz é Diretor Executivo Acadêmico da Escola de Direito das FMU e Coordenador do Mestrado em Direito do Unilasalle. Bolsista Nível 2 em Produtividade e Pesquisa do CNPq. Secretário do Research Committee on Sociology of Law da International Sociological Association. Vice-Presidente da World Complexity Science Academy.      

Publica coluna semanal no Empório do Direito, às terças-feiras.                                                                                                                                                                                   


Imagem ilustrativa do post: Civil Rights // Foto de: Autor desconhecido // Sem alterações

Disponível em: http://www.rockhillelks.org/history/rights.htm


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