O Capital do Homem Cordial: uma reflexão sobre costumes (fonte mediata do Direito) e escolhas políticas a partir da resenha do livro

13/07/2017

Por Mayra Matuck Sarak – 13/07/2017


“Você pode fazer a Constituição que quiser. Por mais liberal, por mais igualitária que ela seja, sempre haverá pessoas que arranjarão maneiras de serem escravas das outras” 


Millôr


Brasileiros ainda possuem o costume de colocar santos de castigo até ter um desejo realizado. Basta um político vir com condutas amistosas para que um cidadão comum já entregue seus sonhos mais profundos. Participar pouco da vida pública e política para posteriormente reclamar com indignação quando o absurdo acontece é hábito nacional. Ser brasileiro é ser um povo acostumado com uma mentalidade falha, cuja política, economia e sociedade são instáveis. Assim é construído e reforçado o meio e reflete o inconsciente coletivo da nossa nação.


O conceito de inconsciente coletivo foi trazido pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875 – 1961), discípulo de Freud e pai da psicologia analítica, trouxe (dentre outras), uma abordagem de duas personalidades compelindo dentro de uma mesma psiquê: a que é moldada pela cultura na qual estamos inseridos (família e sociedade) e a que temos como parte de nossa natureza individual. Para ele, o significado surge na fusão entre bom-senso e absurdo. Ao falar sobre inconsciente coletivo, Jung ressaltou que há um grau de humanidade único que media as nossas atitudes tanto individuais quanto coletivas.


“Uma mudança na atitude do indivíduo pode provocar uma renovação no espírito das nações” Carl Gustav Jung


Falar do passado é falar de uma certa ordem de interesses e visões de mundo para entender o presente. Então, sendo assim, um belo dia Portugal desprendeu-se da Europa e uma ponte de metrópole veio para as bandas de cá fazer parte das nossas terras férteis e da nossa forma de construir o senso comum.


Portugueses vieram complementar suas riquezas com as nossas riquezas e preferiam a vida aventureira mais do que o trabalho agrícola, conforme ressalta o autor Sérgio Buarque de Holanda em seu livro “Raízes do Brasil”. O indígena, por sua vez, não se adaptou ao processo de escravidão e o Continente Africano forneceu escravos para o Brasil. Assim supria-se o que faltava na Europa.


O engenho era uma micro-sociedade focada em autoridades disformes, portanto, as vontades dos senhores eram leis! Um tipo de “patrimônio histórico” que pode explicar o limite político de uma sociedade que, para existir, organizou-se para os domínios agrários e a vida econômica apoiada no trabalho servil, conforme estudo do autor.


Na recém-nascida economia brasileira, só se fazia o que era lucrativo. A violência colonial e escravista nesse contexto, negava outras virtudes sociais. O Brasil não tinha a menor estrutura econômica, política e social para desenvolver o comércio e nesse cenário surgiu a competição, junto com uma moral fundamentada no trabalho, porém, com a assimilação de que qualquer tipo de trabalho manual igualava-se ao trabalho escravo. O trabalho em si, era visto somente como uma forma de acumulações. Hoje, em pleno século XXI, ainda (embora com sintomas de mudança) temos um Congresso Nacional que aprecia o ócio e organiza-se para suprir necessidades de partidos dominantes apoiados na serventia passiva do povo, o que não deixa de ser um DNA de raízes, ou apenas uma ilusão de ótica que coloca a sociedade a partir do segundo plano, mesmo que mutável. Qualquer semelhança não é mera coincidência, pode ser também, dentre outras, uma fonte mediata do Direito denominada costume. Além disso, “é característica de uma Constituição Simbólica o adiamento para a solução de problemas reais no intuito de atender anseios da sociedade através de compromissos dilatórios”. [Kinderman, NEVES, p.34].


Em seu livro “Raízes do Brasil”, de 1934, Sérgio Buarque de Holanda apresentou dois tipos de homens dentro do estudo que desenvolveu sobre a formação da sociedade brasileira: o aventureiro e o trabalhador, mas eles se diluem dentro de uma mesma pessoa. Ambos não distinguem o que é público e o que é privado. Nesse vasto terreno, veio um homem que simbolizou uma identidade nacional: o homem cordial. O homem cordial é uma personalidade coletiva com um imenso desejo de prestígio sem esforço. O elemento que o liberta dessa origem é a intensificação de atitudes afetuosas e simpáticas. Mas vale reforçar que essas características são uma qualidade social e não uma honestidade pessoal emancipadora, tampouco racional e fundamental. Há particularismos em detrimento de questões gerais que envolvem o bem comum para o aprimoramento da vida em sociedade. O não uso (e a não compreensão) de sua racionalidade (ou ausência dela) faz com que seja inadaptado à vida prática. E, está cada vez mais evidente a necessidade da separação do indivíduo de sua comunidade doméstica para tentar a adaptação prática: oposta de “horizontes da paisagem doméstica”, como disse o próprio autor.


“Entre família e Estado existe uma oposição de particularidades que resultam em prejuízos românticos, como o predomínio do particular sobre o geral, do abstrato sobre o corpóreo”. Cap. 5 – Raízes do Brasil.


Sérgio Buarque deixa claro que o homem cordial é de “aparência afetiva”, e não exatamente alguém de bom carácter e tampouco, ético. Em decorrência disso, temos membros associados uns aos outros para trocas de vantagens. Responsabilidade, deveres, obrigações, gestão competente e ideais são mera utopia, ou até mesmo um tipo de radicalismo.


“Uma cultura só absolve traços de uma outra cultura quando encontra a possibilidade de ajuste em seus quadros de vida.” Cap. 5 – Raízes do Brasil. 


O livro “Raízes do Brasil”, desmembra o contexto da história do Brasil, evidenciando seus pontos mais centrais. O autor faz uso de uma metodologia de contrários com uma análise sociológica latino-americana e testemunha suas frustrações. Revela injustiças e apresenta elementos que abrem os olhos para o avanço. Declara também que a contribuição do brasileiro para a humanidade será a de cordialidade, ou a “técnica da bondade”. A organização diante da sociedade é de defesa, como uma espécie de libertação do pavor de viver consigo mesmo, na própria limitação.


Um povo inserido em uma cultura que “apoia a si próprio em todas as circunstâncias da existência” e deixa deficiente a sua interação com os outros. Mesmo que o levantamento de todo esse contexto da nossa história como nação seja uma alavanca de renovação intelectual, política e psicológica, o verde e amarelo carece (muito) de uma melhor noção de consciência prática e participação em questões políticas.


“Todo futuro, toda a história do mundo, é em última instância uma gigantesca síntese dessas fontes ocultas nos indivíduos. Em nossa vida privada e subjetiva não somos apenas testemunhas passivas de nossa época e suas vítimas, mas também seus criadores. Nós construímos nossa época”. The meaning of psychology for modern man, p. 149.




Notas e Referências:


Livro:  Raízes do Brasil Autor: Sérgio Buarque de Holanda Editara Planeta




Mayra Matuck. . Mayra Matuck Sarak é estudante do 8º semestre do curso de Direito da FMU. . . .




Imagem Ilustrativa do Post: Torcedor (Arena Pantanal, Cuiabá, MT, Brasil) // Foto de: paulisson miura // Sem alterações


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O texto é de responsabilidade exclusiva do autor, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Empório do Direito.




 

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