O «acaso» nosso de cada dia: o largo braço da fortuna (Parte 1)

29/12/2017

«Si quieres hacer reír a Dios, cuéntale tus planes.» Amores Perros


 


Perguntar sobre a verdadeira influência da sorte em nossas vidas implica reconhecer, in primo loco, que se trata de um terreno propício para a distorção intrínseca de toda observação humana. Mas, convenhamos: a sorte é um fator do qual nossa cultura não quer nem ouvir falar. Nos dias que correm, iluminados pelo «pensamento mágico» de que somos os únicos responsáveis pela autoria de nossa vida, nos deixamos guiar pela crédula e arrogante ideia de que somos donos exclusivos de nosso destino e da possibilidade de melhorar nossa existência.[1]


Nada obstante, desde os estóicos sabemos que as situações com as que nos enfrentamos (ou que simplesmente presenciamos) em nossa vida podem classificar-se em função de se permitem ou não a possibilidade de ser influenciadas ou controladas pela vontade. Evidentemente, há as que a vontade ou a habilidade dos atores tem algum papel, mas, na grande maioria das vezes, nossa vida está replena de situações nas que não existe qualquer controle do resultado por parte do indivíduo; isto é, situações nas que não temos nem voz nem voto em nada do que ocorra. Apesar disso, nos resistimos a aceitar que a sorte possa dominar uma parte importante de nossa existência. Assumir esta realidade representaria um ataque em toda regra a nossa autoestima (à proteção de nossa autoestima ante um mundo repleto de situações dominadas pelo azar e no qual nos encontraríamos vulneráveis e desprotegidos), pois nos obrigaria a ver-nos como o que somos amiúde: bonecos movendo-se de um lado a outro à mercê de um mar de ondas aleatórias que golpeiam desde mil direções.[2]


Preferimos mais a imagem de um universo ordenado onde tudo o que ocorre tem uma razão e/ou uma explicação lógica e simples; pensar o contrário nos faz sofrer. A própria ideia de felicidade deixou de ser a sorte que se cruza em nosso caminho, um momento fasto ganhado à monotonia dos dias; agora é nossa responsabilidade, um novo imperativo moral que devemos unicamente a nós mesmos tanto como nos a devem os demais. Em consequência, para evitar o sofrimento, burlar a vulnerabilidade e fazer da felicidade nossa condição e nossa incumbência, aludimos a todas as explicações possíveis (inclusive, e principalmente, de intervenções divina) como um intento desesperado para justificar tudo quanto nos ocorre (e, assim, poder antecipar o futuro) contanto que nos sintamos mais seguros e aliviados, alimentando sem cessar a ilusão de poder tratar as situações incontroláveis como se fossem situações que pudéramos controlar («ilusão de controle», E. J. Langer, 1975). Nada supera a mente consciente à hora de convercer-se de que está ao mando da situação. (D. Eagleman, 2017)


Não é uma ideia surpreendente o fato de que o azar exerce uma influência dramática sobre nossas vidas e com um poder de gerar situações e vicissitudes radicalmente diferentes das que imaginamos, e que uma eficiente preparação diante de um esperado ou provável acontecimento é, com toda segurança, o que melhor se corresponde com a sentença de Voltaire de que a sorte “é o que sucede quando a preparação e a oportunidade se encontram e fusionam”.


Para o bem ou para o mal, todos reconhecemos que a sorte está presente em nossas vidas de modos muito diversos, até o ponto de que resulta difícil imaginar um mundo sem ela. E isto é certo tanto no tocante do que simplesmente acontece no mundo como do que ocorre com nossas experiências vitais, do que podemos fazer, de como somos ou de quem cremos ser. O que nos define como “individŭus” (os talentos, as capacidades, os logros intelectuais, estéticos ou atléticos que admiramos ou consideramos admiráveis) depende em grande parte dos genes, do ambiente, das experiências privadas do mundo, das oportunidades, etc...etc., com que cada qual se depara. De fato, que a sorte é importante em determinados aspectos de nossas vidas e que não podemos controlar estritamente o resultado de todos os nossos atos é algo que damos por assentado.


O que é francamente surpreendente é a difundida má compreensão ou ignorância, deliberada ou não, do fato de que o futuro é imprevisível, do poder da aleatoriedade, de que a prática totalidade das coisas foge completamente de nosso controle, de que a vida é caprichosa e tem seus próprios planos e expectativas...; enfim, de que vivemos em um mundo governado radicalmente pela fortuna. Parece que em nossa estrutura mental há algo que se rebela contra a ideia do azar, da casualidade e da incerteza. Não somente somos demasiados bons identificando e estabelecendo associações (tão bons que não podemos deixar de vê-las ainda que não existam), senão que nosso cérebro se rebela ante a simples ideia de contingência. Nossos cérebros, diz David DiSalvo, “son máquinas de predicción y modelos de percepción que desean estabilidad, claridad y consistencia. Lo impredecible, lo incierto y lo inestable no le gusta nada.”


Como seres “racionais” nos repele o casual, o fortuito, o acaso; queremos ter uma espécie de controle absoluto para encontrar sentido ao caos do mundo, descobrir o verdadeiro significado dos acontecimentos em lugar de admitir que, como seres humanos que somos, gozamos de uma peculiar habilidade para interpretar as coisas a partir do nada, para inventar as histórias mais críveis desde os escassos dados disponíveis por pura associação com algo que não se relaciona mais que superficialmente com o experimentado ou observado e/ou para buscar padrões na natureza que nos enganam para que formemos correlações entre o inesperado, o ridículo e o absurdo.


Dito do modo mais simples possível: dado que a ideia de um mundo arbitrário, contingente, indeterminado e completamente indiferente (que não tem nem a mais ligeira obrigação de ser amigável ou reconfortante com nossas ideias, vontades, desejos, preferências e identidades) é dura de suportar, necessitamos uma história coerente acerca de causas e acontecimentos. Quando algo completamente inesperado interrompe nosso equilíbrio pessoal ou social buscamos ansiosamente uma razão para que as coisas sucedam: demandamos uma justificação a algo místico ou transcendente, nos convencemos de que tem que existir um motivo que explique o sucedido ou, o que é pior, outorgamos a nós mesmos e/ou a outros o balsâmico e ilusório papel de agentes culpados de uma situação que, na maioria das vezes, não tem nenhum responsável.[3]


E já que estamos: desdenhar ou negligenciar a evidência de que a fortuna, o azar, acarreiam um enorme poder sobre a vida humana é abrir mão da obrigação de nossa madurez e o único acicate para atuar com prudência. O que somos, o que nos ocorre e o pouco que alcançamos a realizar dependem da interação de multíplices causas completamente imprevisíveis e em cuja realidade apenas intervimos.


 


 


[1] É  a fábula do «can do», do «podes fazê-lo», que não põe barreiras à vontade e capacidades do indivíduo, à necessidade de eleger e suas (visíveis ou invisíveis) limitações. A dificuldade é que o ideal de vida elegida não se corresponde com o modo em que vivemos. Não somos os autores plenipotenciários de nossas vidas; não somos sequer artífices parciais dos fatos que nos marcam mais profundamente. Não elegemos quase nada do que tem maior importância em nossa existência: nosso próprio nome, o momento e o lugar em que nascemos, nossos pais e irmãos, a primeira língua que falamos ou a religião que professamos, e um longo etcétera, são resultado da casualidade, não da eleição pessoal. Em quase todos os aspectos de nossa vida, a vontade não decide nada: não podemos nem recordar nem olvidar tudo o que desejamos, nem evocar nem desterrar nossos pensamentos somente porque assim o decidamos, nossas motivações mais profundas são preservadas da análise consciente, quase toda nossa vida mental nos é desconhecida e nossos atos são pontos finais em uma larga sequência de respostas inconscientes. Em síntese, a vida de cada um de nós é um capítulo de acidentes e sabemos que nada pode fazer-nos invulneráveis à fatalidade e à casualidade. A plena autonomia pessoal, o «poder fazer» sem restições - recorda John Gray - é fruto de nossa imaginação (não do modo em que vivemos) e o culto à onipotente liberdade de eleição é um mero reflexo da necessidade que temos de improvisar nossas vidas. E sem entrar nos pormenores próprios do âmbito da filosofia da mente, o livro de Rodolfo Llinás (El cerebro y el mito del yo, 2003) sim que dá motivos de sobra desde a perspectiva da neurociência para constatar o muito que de ilusão construída tem nossa identidade, a qual, com  efeito, é produto em grande medida “azaroso de una serie de ingredientes heterogéneos”.


[2] Nota bene: Sobre o mito da autoestima: Baumeister, R.F. et al. Exploding the self-esteem myth. Scientific American, 292 (No. 1), 2005; acerca do chamado fenômeno da sorte moral (que tem lugar quando um aspecto significativo do que alguém faz depende de fatores que escapam a seu controle e continuamos tratando-lhe a este respeito como objeto de juízo moral): Williams, B. & Nagel, T. La suerte moral, 2013.


[3] “El azar, lo aleatorio, está presente en la política, en los negocios, en la medicina, en los deportes, en el ocio, en toda la vida diaria. De hecho, cuando en la vida diaria tomamos una decisión, no tenemos conciencia de lo mucho que el azar interviene en esa determinación modificando sus efectos. Los procesos aleatorios son fundamentales en la naturaleza y el acierto o el error muchas veces no proceden de un gran conocimiento o de una gran incompetencia, sino de circunstancias fortuitas y erráticas: nos es imposible como individuos particulares predecir nuestro futuro y debemos al azar más de lo que muchos creemos. Pero la mente humana funciona de tal modo que necesita identificar una causa concreta para una acción determinada” (L. Mlodinow, 2008).


 


Imagem Ilustrativa do Post: Folhas de trevo da sorte BH MG Wl1125 // Foto de: Wilson leonel // Sem alterações


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