Nossos ódios, a não formação de consensos: não há política sem política - Por Léo Rosa de Andrade

06/12/2017

Pesquisas de opinião pública nos trazem “fotografias” da nossa mentalidade, ou seja, de nós mesmos. Ainda que nos sintamos um caso à parte, somos estatística. Nossas concepções da vida pública são capturáveis e quantificáveis.


Dados sempre podem ser manipulados, e não faltam manipulações escandalosas já denunciadas. De toda sorte, quem acompanha a opinião geral que se formou sobre a política brasileira sabe que há dados que se vêm confirmando.


Cresce descrença na política tradicional - Ideia Big Data, (https://goo.gl/X9wy7k). “Gostariam de ver cidadãos comuns como candidatos em 2018: 79%; meu voto é na pessoa e não me importo com partido político: 77% (no Nordeste, 90%)”.


A população considera, parece, que o político tem um vício de origem, como se adviesse de um lugar social à parte, como se não fosse eleito. Também, o povo valoriza a relação personalizada, desprezando a organização partidária.


“Na minha vida cotidiana, não me importa que uma política pública seja de direita ou de esquerda, o importante é que torne a minha vida melhor: 72%”. Na organização da Sociedade, desimporta o conceitual. Vale a solução do “meu” problema.


Permanecemos com a mais marcante das nossas heranças políticas: o coronelismo. Não se discutem ideias ou formas de organização pública; vale a relação com a personalidade que me atende; eu quero resolver as minhas questões.


Jürgen Habermas, Teoria da Ação Comunicativa: a Sociedade deve criar pactos de interesse geral por consensos, os quais são formados a partir da possibilidade de igual participação argumentativa de todos os interessados.


A formação de consensos é a base da Democracia. A eleição de representantes de uma maioria não basta, mas uma legitimação geral de políticas públicas que resultem minimamente consensuais, ou sejam aceitas como de interesse geral.


O caminho é a persuasão. O político forma consensos com recursos persuasivos. Habermas diz racionalização: de forma pública, apresentação de ideias e sustentação de proposições com o intuito de legitimar por formação de consensos.


Ora, dificilmente se formarão concepções de interesse público geral em torno de políticos “comuns”, de personalismos, de interesses particulares. É improvável que se organize a administração pública à parte de meios institucionais.


Sem a construção coletiva de conceitos assumidos e articulados por siglas partidárias institucionalizadas não há consensos. Então, se governar é consubstanciar conceitos e realizar propostas anuídas, ideias e instituições são necessárias.


Democracia pede sujeito democrático, sujeito disposto à participação nos recursos inventados para se viver em democracia, quer dizer, nos partidos. Participação é mais do que crítica ressentida, do que discurso para o outro.


Participação é um discurso que me interpela a mim mesmo sobre o inscrever-me nas instâncias transformadoras de ideias em atos. Não há discurso “pra minha turma” que transporte uma ideia à legitimação coletiva. Não há política sem política.


A busca da concordância cívica não advirá só dos partidos políticos, evidentemente. Os tantos meios de interlocução, todavia, não são licença para indivíduos sem apetência política pensarem que se fazem substitutos do político.


As redes sociais são talvez o sistema de comunicação jamais imaginado por Habermas. São a contribuição mais eficiente que as modernas tecnologias de relações pessoais poderiam trazer para o fomento do diálogo nacional.


Sua ocupação, contudo, não é dialógica. As falas não contêm interlocução. As redes sociais foram tomadas por discursos rancorosos que não contemplam interesses gerais. Sobre elas, se Habermas as conhecesse, talvez pensasse:


“São lugar de transcendência, nela falantes e ouvintes se encontram; é onde podem levantar, uns em relação aos outros, a pretensão de que suas exteriorizações condizem com o mundo objetivo, social ou subjetivo”.


Seria onde poderiam “criticar ou afirmar pretensões de validade, resolver dissenso e obter consenso” (editado de Habermas, Jüngen, Teoria do agir comunicativo: Sobre a crítica da razão funcionalista, Martins Fontes).


Redes sociais, enfim, são meio de fazer política, não substituem a política. Ainda bem, seus atores, de tanto ódio que destilam, não ocupam o lugar dos políticos. Mesmo que os políticos prestem pouco, são menos odientos que os internautas.


As pesquisas nos informam sobre nós: políticos não nos importam. Não se trata de substituir os imprestáveis. A política mesma não nos interessa. Cultivamos rancores, desprezamos ideias. Não conceituamos, cuidamos de nos insultar.


O coronelismo é mesmo a nossa matriz política não vencida: somos “nós contra eles”, danem-se os partidos, votamos em pessoas, valem interesses pessoais. Argumento, formação de consenso, essas coisas não habitam a nossa imaginação.


 


Imagem Ilustrativa do Post: Congresso // Foto de: Antonio Correa // Sem alterações


Disponível em: https://www.flickr.com/photos/24900086@N02/6675962853


Licença de uso: http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/legalcode

O texto é de responsabilidade exclusiva do autor, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Empório do Direito.

Sugestões de leitura