Garotas do ABC e três temas - Por Roberto Victor Pereira Ribeiro

11/10/2017

A região do ABC paulista é conhecida nacionalmente por ser um polo industrial e de onde partiram as grandes revoluções proletárias, culminando, inclusive, com a ascensão de um metalúrgico à presidência do Brasil.


ABC são três letras que fazem alusão a três cidades do Estado de São Paulo: Santo André, São Bernardo e São Caetano. O pano de fundo do filme também sintomaticamente traz o cabalístico número 3. São três os temas que abordaremos na coluna desse mês. O enredo envolve marcantes assuntos para serem discutidos na ordem do dia: exploração laboral, drogas e xenofobia contra nordestinos.


O longa-metragem costura enredo trazendo questões que merecem ser discutidas nos dias hodiernos. O elenco é formado, em grande parte, por atores iniciantes ou desconhecidos do grande público. A trama é desenhada por mulheres que trabalham em uma fábrica de tecelagem. Entre as protagonistas encontramos Aurélia, jovem e negra, de família conservadora e que namora um simpatizante do nazismo e de tez branca. Seu namorado é responsável por vários insultos contra negros e atentados criminosos contra nordestinos.


A xenofobia, vocábulo originado no grego, que quer dizer aversão aos estranhos, aos estrangeiros, é escancarada durante a película. O grupo de Fábio, namorado de Aurélia, sai quando entardece para caçar os nordestinos, povo que eles se ardem de ódio por verem capacidade e competência para “tirar” os empregos dos conterrâneos. Em uma cena do filme dois nordestinos chamados de “baianados” são cruelmente espancados pela turma de neonazistas. Xenofobia é crime tipificado na Lei Federal nº. 9.459/1997 com pena de reclusão de 1 a 3 anos.


A outra protagonista Paula Nélson é a líder das meninas que laboram na fábrica de tecidos.


Gozando de ótima relação com o proprietário da empresa, Paula é a conexão entre a empresa e o chefe do sindicato da região. Ela sempre é chamada para negociar ou acalmar os ânimos do sindicato que ameaça, a todo instante, impedir a fábrica de funcionar. Dentre as funcionárias, uma chama a atenção. Suzana, jovem e casta, que padece de algomania, pois busca sempre se acidentar nas máquinas da empresa para deixar seu corpo marcado e para chamar a atenção do dono. Visivelmente se percebe a exploração da mão de obra humana. A fábrica é insalubre e as máquinas são verdadeiras guilhotinas aguardando apenas o deslize de umas das operadoras. O sindicato sempre reage a essa situação, mas Paula, diplomata da empresa, sempre busca um jeito de driblar a atuação do presidente do sindicato.


Por fim, a personagem masculina principal é Salesiano de Carvalho, advogado, líder dos neonazistas e cocainômano inveterado. Sob sua tutela e incentivo Salesiano difunde a droga e concentra vários degradados sob seu comando. Juntos e drogados eles tocam fogo em estabelecimentos de nordestinos ou frequentados por estes, além de mutilarem os que encontram sozinhos à noite. Sua trupe é formada por Alemão, Italiano, Fábio e Nicanor, um contador frustrado que esconde uma arma na cueca, só para dizer que anda “maquinado”.


Garotas do ABC retrata uma realidade cristalina perceptível, seja por conta da exploração do trabalho, seja pela difusão das drogas entre os jovens, ou ainda pela perseguição insana aos brasileiros do nordeste, que em muitas ocasiões parte em diáspora em busca de melhores condições de existência. Filme que merece ser visto pela capacidade que o diretor teve de misturar os três temas e revelar desatinos da sociedade contemporânea. 


Garotas do ABC Direção: Carlos Reichenbach. Elenco: Michelle Vale, Vanessa Alves, Natália Lorda, Luciele di Camargo, Vanessa Goulart, Selton Melo et al.. BRA, 2004, Drama, DVD, 130 min.


 


 


Imagem Ilustrativa do Post: End of an era // Foto de: Nic McPhee // Sem alterações


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