Extraordinárixs

07/01/2018

Muitas pessoas foram assistir ao filme “Extraordinário”. Aquelas que não foram aos cinemas ao menos viram alguma propaganda ou mesmo o trailer do longa-metragem. Outras já haviam lido ou leem o livro que deu origem ao filme. Fato é que não há quem não tenha ouvido falar da história de Auggie Pullman, um garotinho, de fato, extraordinário.


 Nas salas de cinema, o choro se ouve quase incessantemente e as caixas de lenço devem vender com maior facilidade até mesmo do que as pipocas. Mas por que é tão fácil que as pessoas sintam empatia com esse caso, que se sensibilizem com essa história, enquanto tantas outras semelhantes seguem relegadas a um segundo plano? Não se trata apenas da exposição obtida com um filme, mas do fato de ser apresentada uma linda família, branca e de classe média, seguindo o “modelo” norte-americano. 


Esquecemo-nos do Henrique, que, com a mesma idade de Auggie, padece de hanseníase, morando em uma comunidade carente, em que nem sequer há água encanada. Da Marcela, que nasceu com a mesma síndrome que Auggie e precisa caminhar quase dez quilômetros todo dia para ir à escola. Do Otávio, um doce bebê que nasceu com o lábio e o palato fendidos, mas o tratamento só é feito em uma cidade que fica a mais de 300 quilômetros da casa de sua família, que não tem condições de custear as viagens. Não é apenas porque esses casos não são tema central de um filme, mas porque não ocorrem com pessoas que despertem interesse. O que acontece com os pobres, pretos, homossexuais etc. não atrai a atenção como os males que afligem uma família Doriana. E não precisamos falar só de doenças, mas dos mais diversos flagelos impostos a essas pessoas não vistas, não mencionadas, muitas vezes indesejadas. 


Não estou aqui a pretender diminuir o sofrimento de alguém que se encontre em situação semelhante à do filme, muito menos a julgar quem se sensibilizou ao assistir à história de Auggie. Eu mesma adorei o livro, que havia lido há algum tempo, e o filme, a que assisti há algumas semanas. Pretendo apenas que abramos os olhos para outros casos extraordinários. Há tantxs extraordinárixs no Brasil e no mundo, mas nos negamos a enxergar seus rostos, a conhecer suas histórias, a sentir o mesmo que sentimos quando vemos o filme. É mais confortável nem mesmo tomar conhecimento das dores e das dificuldades alheias, mormente quando se trata de alguém que não se encaixa no perfil hollywoodiano. 


É essencial que essa realidade se transforme, dando espaço ao reconhecimento do “outro” e também das suas mazelas. É necessário que essas mazelas nos revirem o estômago e nos façam repensar nossas atitudes do mesmo modo que fez a história de Auggie. Nem todxs são protagonistas de um filme norte-americano, mas todxs são, de uma maneira ou de outra, extraordinárixs.


 


Imagem Ilustrativa do Post: Auggie // Foto de: cyclotourist // Sem alterações


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