ENTRE A MILITÂNCIA E A SOBREVIVÊNCIA: AS DIFICULDADES À ESQUERDA NA FORMAÇÃO DE AGENTES CRÍTICOS NA SOCIEDADE DO CONSUMO

09/02/2018

Coordenador: Marcos Catalan


O início


Passaram-se 2 (dois) meses desde de a aquisição do primeiro título acadêmico. Olhando para trás, a angústia encarnada pela forma de recepção da escrita ofensiva colocada a cada página da monografia havia dado espaço à satisfação. Trabalho igual aquele não teve. Louvável, muito bem recebido, crítico às posturas ortodoxas apresentadas pelo Direito. Mas, como já disse, passaram-se 2 (dois) meses. Agora, era a satisfação quem cedia lugar à angústia. Esta última, encarregava-se de trazer com intermitência a seguinte mensagem: e agora?


Sobre Deus e a militância


Prédio suntuoso, como nunca o notei? Há anos caminho nesta rua – pensou Ele. Para acessar a entrada do edifício era necessário escalar um lance de escadas com não menos que 50 (cinquenta) degraus, os quais, a exemplo da distância que separa os suplicantes dos Santos nas Capelas ou os Juízes das “partes” nos Tribunais, constituíam o hall de entrada do escritório de Deus, advogado militante que sangra na defesa dos direitos de seus filhos: os trabalhadores.


Lá está Ele, na presença de Deus. Conversam durante horas. Falam do universalismo eurocêntrico e de como a razão Moderna fez/faz com que o Direito nem sequer considere enquanto problemas a divisão do trabalho, a mais-valia e a história – de violência e negação a que foram submetidos determinados grupos sociais – na formação de seu corpo normativo e aplicação de suas regras.


Deus não cobra consultas ou qualquer quantia para representar seus filhos. Além disso, permite com que cada um de seus trabalhadores realize – no máximo – carga de trabalho de 4 (quatro) horas diárias. Deus, sem dúvida alguma, é um sujeito bacana.


Sobre o Diabo e a sobrevivência


A exemplo de Deus, o Diabo é um brilhante advogado. Equívoco: o Diabo, neste quesito, há muito superou Deus. Ambos dividem os mesmos filhos, isto é, os trabalhadores. No entanto, para o Diabo, tudo são números. Aliás, aqui há uma diferença abissal: enquanto Deus trabalha 4 (quatro) horas por dia, o Diabo, como se tivesse amaldiçoado a si, não dorme, não para, não descansa. Trabalha 24 (vinte e quatro) horas por dia, dedicando-se a busca da maior quantidade de filhos a defender nos tribunais.


Sobre os processos de inclusão e exclusão na sociedade do consumo                             


Para o Diabo não faz diferença. Ambiente de trabalho insalubre ou assédio sexual não são encarados como ofensas às garantias fundamentais constituídas no ordenamento jurídico. Em tais ações, não há crises éticas ou morais. Direitos, para Ele, não são mais que uma ferramenta de capitalização. O sistemático desrespeito do ordenamento jurídico-trabalhista promove sua inclusão na sociedade do consumo. Antes, quando apenas o chamei de Ele, recém saído da graduação em Direito e temente a Deus, esqueci de mencionar que o Diabo, embora fosse uma espécie de Santo, não gozava de grande prestígio. Portanto, embora apresentasse as características críticas necessárias para o trabalho militante, ao Diabo restou a sobrevivência. Sobreviver, nestes termos, significou trabalho obstinado, aquiescência plena às convenções sociais estabelecidas e, acima de tudo, a supressão de muitos traços de sensibilidade. Por esta razão, o Diabo, a exemplo do homem neoliberal, não crê em coletivos horizontais instituídos em lógicas que transcendem o capital, mas, sim, na superação através da concorrência. Ele, ao tornar-se Diabo, entendeu que a inclusão no capitalismo de consumo custará mais a um que a outros.


E Deus? Como antes mencionei, Deus é inclusão. Para este Senhor nada é proibido, nem mesmo utilizar mecanismos de manutenção da divisão do trabalho como ato de resistência e progresso voltado à superação do trabalho na concepção capitalista. No entanto, nem Deus nem o Diabo, enquanto simples intérpretes da linguagem jurídico-estatal, possuem as chaves para extinção das demandas trazidas por seus filhos, os trabalhadores. Daí, surgem duas perguntas: i) por que a esquerda, através de Deus, teima em atribuir desdém ao Diabo, se ambos são reprodutores do fetiche que o Direito traz à sociedade? ii) não será demasiado cobrar do Diabo uma postura crítica quando o social nem mesmo lhe entrega condições de inclusão e sobrevivência?


Tenho que sim. Ao desconsiderar os obstáculos colocados à inclusão dos grupos sociais subalternizados, a postura crítico-progressista aparece – em regra – como um benefício de raça, classe e gênero, transformando aqueles que são obrigados a subjetivar plenamente o etos neoliberal – consumir a si – para alcançar diferentes níveis de inclusão social em Diabos, ou seja, seres vis e irreflexivos que nada fazem para superação das violências sociais que sofrem.     


A dissolução da tese, Deus, e da antítese, Diabo, para criação da síntese, o incerto


Deus e Diabo, verso e anverso da mesma questão. Às sofisticadas críticas divinas faltam as experiências, os saberes e a participação dos muitos Diabos. Aos Diabos, por sua vez, falta visibilidade, legitimidade e condições de pertencimento social básicas para promoção de críticas dentro do ponto cego concedido pela esquerda a Deus. Trata-se de ação conjunta. A negação da potência criativa do Diabo – garantida por sua necessidade de inserção na sociedade do consumo – o impede de contribuir com a produção do pensamento crítico e com a construção das ferramentas de superação do capital. Neste cenário, a estruturação de políticas públicas voltadas ao resgaste e a reparação dos grupos sociais vilipendiados passa a ser medida indispensável ao alcance de novos e desconhecidos modelos de sociabilidade, uma vez que a quebra da reprodução neoliberal capitalista parece estar condicionada à construção comum do por vir.


 


Imagem Ilustrativa do Post: Escadaria // Foto de: Mario Howat // Sem alterações


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