Cuidado, «direito de ser» e desigualdade (Parte 2)

02/02/2018

«¿Qué es lo que fue? Aquello que será. Nada hay nuevo bajo el sol, y nadie puede decir "mira, esto es nuevo", puesto que ciertamente ha ocurrido en las generaciones que fueron antes de nosotros». Ecclesiastés, 1:9-10


Não deixa de ser perturbador perceber que o mundo lúdico e por vezes embusteiro que se constrói (e se construiu) ad absurdum et ad nauseam arredor da desigualdade, dividido em uma constelação de ideias contraditórias e diferentes crenças entre castas acadêmicas opostas, já não pareça sequer estranho[1]. Com nossa natural disposição a deixar-nos convencer com qualquer coisa, aceitamos tão complacentemente as incoerentes versões da “verdade” e da “realidade” que nos exibem que já não sabemos se as coisas funcionam de um modo determinado devido a que existe uma teoria ou se a teoria é formulada porque as coisas funcionam de um determinado modo.


A opinião mais estrambótica ou qualquer laboriosa insensatez minimamente coerente parece estar colmada de justificativa e/ou que se trata de algo admirável. O negativo de tudo isso é que com a perda do sentido do estranho deixamos de perceber que as ideias estúpidas não somente têm consequências estúpidas, senão desagradáveis e, de quando em quando, terríveis. E não cremos que exageramos se dizemos que a maioria das teorias sobre a desigualdade, como a moda, são cosméticas, episódicos pactos de significado compartidos sujeitos à revisão constante e/ou caprichosa. 


Claro que é fácil e barato (divertido, inclusive) jogar com essas especulações. Mas as coisas são mais complexas do que parece e ter uma percepção e compreensão acertada da realidade não é tão fácil como nos indica nosso sentido comum. Aos filósofos, economistas e juristas de plantão lhes encanta oferecer seus serviços e fazer prestos diagnósticos sem que ninguém lhes peça. Nada obstante, como a gente culta compreende, não só uma teoria errônea não é exatamente o mesmo que uma teoria limitada (de fato, todas as teorias são limitadas, já que qualquer modelo que desenvolvemos são apenas aproximações seletivas da realidade), senão que qualquer teoria ou argumento em contra da realidade é incompatível com o fato de que todos somos capazes de reconhecer as desigualdades, sobretudo em suas formas mais manifestas e mais ainda se nos afetam em primeira pessoa.


«Não é justo!» ou «É injusto!» são expressões que todos empregamos alguma vez, ainda que entendamos mal as coisas mil vezes. Por quê? Porque todos temos essa experiência mais mundana da desigualdade, essa percepção de que não é uma mera ideia, algo que seja cabalmente sugerido na linguagem natural com a expressão «o sentido da justiça». A desigualdade existe como existe a coragem, a dor, o medo e o sofrimento. Podemos queixar-nos ante Deus (que tudo vê e tudo sabe) por haver criado um mundo tão desigual, mas, lamentavelmente, as desigualdades não são invenções que (somente) existem na fértil imaginação dos sapiens. A realidade, para o bem ou para o mal, nos vem dada, ainda que a interpretemos a nossa maneira.


Em todo caso, como ocorre na maioria situações cruciais, parece haver muito pouca afeição a reflexionar sobre a desigualdade quando dita reflexão implica algo mais que o meneio de tópicos frívolos e descaradamente banais, ou, melhor dito, quando a falta de igualdade leva ao fracasso o cuidado do outro e o próprio direito de ser. Tampouco existe um entusiasmo notável para tratar de grandes questões do presente, porque resulta mais fácil dedicar-se apenas a exercer de forenses das ideias de outros autores, à prosaica e sossegada tarefa de glosar, explicar e traduzir repetidamente textos, discursos e teorias normativamente «corretas» em que os anelos de unanimidade acadêmica (e/ou de lealdade disciplinar) superam toda motivação para apreciar com realismo maneiras de pensar e atuar alternativas. Sobretudo, há os que fogem como da peste de toda inquietude teórica que pressuponha o conhecimento um pouco minucioso de qualquer coisa que ocorra mais além do jogo mental de ideias, das especulações e generalizações. Referimo-nos à nossa tendência a fazer filosofia não como um instrumento ao serviço da vida dos seres humanos (Epicuro), senão do dito por alguém importante (“la clave es la autoridad, y no la realidad”).


O verdadeiro perigo surge quando, ao centrar-nos em nosso próprio mundo subjetivo – na pequena fração de todos os mundos perceptíveis ou na insignificante parte da realidade objetiva que somos capazes de detectar e conhecer (Umwelt[2]) –,  ao não frenar a própria suspensão da incredulidade ou a credulidade tonta que provocam as especulações não baseadas em provas ou critérios objetivos e/ou ao fixar-nos nos aspectos meramente teóricos ou metafísicos do problema ao que nos enfrentamos, deixamos de perceber que a extrema desigualdade, de mãos dada com a verborréia meritocrática (cujos valores não somente não se satisfazem, senão que de fato reproduzem mecanismos que permitem aos mais afortunados assegurar e reproduzir seus privilégios), está fazendo desse nosso mundo um lugar instável, reprovável, deprimente e feio - o que, dito seja incidentalmente e de passagem, resulta muito menos elegante (e desde logo mais difícil de justificar) na única espécie de primata que presume de moral e conhecimento, chegando com toda humildade a chamar-se a si mesma como sapiens (quer dizer, nada menos que sábios).


 


[1] Este texto, dividido em quatro partes, corresponde a um fragmento, ligeiramente modificado, do artigo elaborado pelos autores (Cuidado e «direito de ser»: O que fazer com a desigualdade?) para o livro "CUIDADO E O DIREITO DE SER: RESPEITO E COMPROMISSO” - Projeto Brasil/Portugal 2017-2018; Coordenação: Tânia da Silva Pereira (UERJ), Guilherme de Oliveira (Univ. Coimbra/Portugal) e  Antônio Carlos Mathias Coltro (TJSP), Editora GZ, 2017.


[2] Para que nos entendamos: No filme titulado O show de Truman, o protagonista, que é o próprio Truman, vive em um mundo que um ousado produtor de televisão construiu completamente ao seu arredor. Em um determinado momento do filme, um jornalista pergunta ao produtor: “Como é que Truman nunca chegou a suspeitar sequer qual era a verdadeira natureza do mundo em que vivia?”. Ao que o produtor responde: “Porque tendemos a aceitar a realidade do mundo que se apresenta a nossos olhos”. Quer dizer: aceitamos nosso próprio Umwelt (nosso «mundo circundante», a realidade tal e como se nos aparece, e que dita o que necessitamos saber) e não nos fazemos mais perguntas.


 


Imagem Ilustrativa do Post: desigualdade // Foto de: lauro.campos // Sem alterações


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