“Coisas de pai”

11/03/2018

Ganhou destaque esta semana notícia de que um médico teria “pedido” a um colega de profissão, que havia se classificado para a residência em determinado hospital, que não aceitasse a vaga, de modo que seu filho pudesse ocupá-la. Em tom claramente ameaçador, o médico afirma que a vinda da vítima para o hospital seria uma “situação insustentável”. Em uma mensagem de desculpas, em que assume o tom agressivo do texto anterior, esclarece se tratar de “coisas de pai”.


Embora este seja um caso que tenha vindo à tona e, por isso, causado uma onda de reprovação, infelizmente se sabe que essas “coisas de pai” são muito comuns. São também muito frequentes, aliás, “coisas de padrinho”. E a maioria das vítimas não tem coragem de denunciar, posto que costuma se tratar de pessoas com muito poder e influência.


Ainda mais grave é o fato de muitos que praticam esses ameaças e garantem preferências nem sequer perceberem a ilegalidade das suas atitudes. Vê-se como algo aceitável, legitimado pelos vínculos que existem entre protetor e protegido (“coisas de pai”...).


Veja-se, por exemplo, a quantidade significativa de nepotismo cruzado. Enquanto se tem conhecimento da impossibilidade de empregar parentes em cargos comissionados (que, em regra, já existem em número acima do constitucionalmente admitido) na instituição em que trabalha a autoridade, fazem-se trocas com integrantes de outras instituições, de modo a proteger mutuamente seus entes queridos. E continuam preterindo profissionais que, com frequência, se mostram muito mais competentes, o que deveria ser privilegiado na Administração Pública. Não que tal circunstância se restrinja ao âmbito estatal, mas se mostra muito mais arraigado nesse espaço.


Torçamos para que o caso da residência não seja isolado e que mais denúncias sejam realizadas, expondo as ilegalidades em processos seletivos e contratações, que certamente afetam a eficiência que se pretende nos serviços prestados à população.


 


Imagem Ilustrativa do Post: Estetoscopio // Foto de: Carolina Lopez // Sem alterações


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