A cultura da devastação - Por Wagner Carmo

13/11/2017

Introdução.


O Ser Humano, em regra, desde a idade pueril, vive submerso ou programado inconscientemente para buscar a prosperidade, para alcançar a riqueza e para acumular bens. Sem pretender incutir na questão uma perspectiva maniqueísta, julgando se a busca pela felicidade é um direito e que o gozo deste direito converge para a conquista do bem-estar econômico, patrimonial e financeiro; interessa-nos refletir os aspectos perversos que decorrem da miragem opulenta de viver o aqui e o agora, consumindo os recursos naturais sem regras ou padrões éticos e, ainda, sem contemporizar os riscos para a humanidade.


A cultura da devastação.


A cultura pespegada da prosperidade contorna o Ser Humano, fragmenta as relações e cria novas necessidades e novos projetos sedutores, cujos horizontes são infinitos e as exigências demandam a reinvenção dos valores morais de convivência social e a justificativa casual ou oportunista para relativizar a consciência intranqüila pela pratica cotidiana que vilipendia a ética das relações entre os homens e entre os homens e a natureza.  


Engolido pelo sistema hegemônico, o Ser Humano não percebe as contradições intrínsecas que nascem da busca pela prosperidade. O capitalismo não pode ser simultaneamente coerente e completo[1], pois, se é coerente com seus princípios, é incapaz de garantir a todos os seres viventes no planeta, os padrões mínimos de dignidade e de respeito e o crescimento econômico, social e ambiental sustentável. A manutenção da coerência do sistema capitalista exige que, necessariamente, culturas sejam dizimadas pela globalização, que novas fronteiras sejam subjugadas e conquistadas no plano da oferta de matéria prima (recursos naturais) e na abertura para o mercado de consumo. Trata-se da Lei de Rosa[2], o sistema não pode sobreviver sem as economias não capitalistas, pois, ele não é capaz de avançar, seguindo seus próprios princípios (a coerência), sem terras virgens, sem explorar, sem conquistar, sem subjugar e sem exaurir os recursos humanos, culturais e naturais.         


A cultura da devastação e os problemas globais.


O mundo é muito mais complexo, muito mais trágico, muito mais violento do que o senso comum é capaz de explicar ou de que os meios sociais sejam capazes de reproduzir e sensibilizar. Limitados pela forma de viver e de enxergar o mundo segundo o modelo de produção do sistema capitalista, geralmente, permanecemos dentro de casulos e os olhos alcançam apenas o ambiente do próprio umbigo ou da porta da cozinha. Os problemas globais são colocados a margem e tratados como um problema de responsabilidade alheia; desconsiderando que podem alcançar o universo pessoal, familiar, comunitário, local e regional, seja pela escassez de recursos naturais; seja pela falta de trabalho e renda; seja pela miséria humana e pela fome ou, ainda, seja pelas intempéries naturais.


Segundo Leonardo Boff[3] três são os problemas que suscitam urgência de uma ética mundial: a crise social, a crise do sistema de trabalho e a crise ecológica. A crise social nasce das mudanças envolvendo o universo da tecnologia. A introdução da robotização e da informatização aumentou o fosso entre ricos e pobres, pois, a produção, a manipulação dos recursos naturais e os lucros foram assimilados e apropriados pelas grandes empresas e fortunas, concentrando a matriz cientifica, técnica, econômica e política nos países centrais, enquanto o restante da humanidade permaneceu alijado, excluído do progresso técnico-científico e aguardando a ordem sistêmica do consumo inconsciente, porém, articulado milimetricamente pelo modelo capitalista de manutenção da ordem, da prosperidade, do crescimento econômico e da felicidade.   


A crise do sistema de trabalho conecta-se com a crise social em razão de guardar origem nos problemas relacionados à introdução da produção automatizada, dispensando a mão de obra humana. A busca implacável pela competitividade entre as empresas e os mercados, a redução dos custos de produção e a planificação produtiva têm gerado uma enorme massa de Seres Humanos excluídos - trabalhadores descartados.


Para Leonardo Boff, tal mudança na proposta do processo tecnológico demanda um novo padrão civilizatório. Haverá desenvolvimento sem trabalho. A grande questão não será o trabalho – esse no futuro poderá ser o luxo de alguns -, mas o ócio. Como passar de uma sociedade de pleno emprego para uma sociedade de plena atividade que garanta a subsistência individual? Como fazer com que o ócio seja criativo, realizador das virtudes humanas?


A terceira crise da humanidade é a crise ecológica. A crise ecológica, assim como a crise social e a crise do trabalho não se mostra desconhecida da comunidade mundial, muito menos dos detentores do capital e dos meios de produção. Alude-se ao princípio da autodestruição – é a devastação do planeta pela atividade humana (in)consciente que provoca o desequilíbrio ecológico, afetando o meio ambiente natural e o próprio  Ser Humano -, o homem torna-se o lobo do próprio homem.   


Os problemas da humanidade perpassam, portanto, resguardada as divergências pontuais, pelo modelo de organização da sociedade. Primeiro pela forma como a sociedade garante o acesso de todos os Seres Humanos aos bens materiais (produção e distribuição de renda e bens da natureza) e imateriais (a felicidade, a solidariedade). Segundo, pelo tipo de relação que os Seres Humanos estabelecem com o planeta terra e os recursos naturais.


Assim, não se trata de atacar de forma cega e irresponsável o desenvolvimento técnico, científico e econômico, mas de avaliar de que forma o desenvolvimento, a busca pela prosperidade e a acumulação afeta a sociedade e propaga da cultura da devastação.


Conclusão.


Evoluir faz parte da natureza humana e a questão categórica não é inibir o crescimento e o desenvolvimento da sociedade. A questão é alcançar um desenvolvimento que respeite o Ser Humano, que respeite o Planeta Terra e seus recursos naturais. Não é compreensível e muito menos admissível que o modelo de produção capitalista e de desenvolvimento econômico desconsidere a conservação e a preservação dos recursos naturais ou que não inclua o Ser Humano, tratando-o como um objeto, como uma máquina, como um bem descartável.


Neste diapasão, da mesma forma que o sistema capitalista inspira e infundi a prosperidade e acumulação individual, espera-se que a humanidade suscite e induza a cultura da solidariedade socioambiental, pois, a fotografia da realidade do mundo atual registra devastação da natureza e do homem.   


 


[1] Kurt Godel. Citado por Zygmunt Bauman, in capitalismo parasitário. Editora Zahar, 2016, pag. 07.


[2] LUXEMBURGO, Rosa. A acumulação de capital. Rio de Janeiro, Zahar


[3] BOFF, Leonardo. Ethos mundial: um consenso mínimo entre os humanos. Rio de Janeiro: Letraviva, 2000.


 


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