Tempo e velocidade: a advocacia criminal e a vida na sociedade do cansaço

10/02/2020

Esse texto é sobre saberes e sabores. É sobre o cheiro do tempo. Também fala de ver e sentir. Qual a ligação possível disso com a advocacia criminal é o que a leitura, talvez, mostre.

Rubem Alves, com seu livro “Variações sobre o prazer”[i], tem me ajudado muito a discutir a questão do abismo entre o ensino da prática da advocacia criminal e da teoria do direito. No início do capítulo 5, com o título “Dos saberes aos sabores”, o autor, já na primeira frase, decreta: “o ato de ver exige distância”. O objeto deve estar longe para poder ser apreciado, ou seja, deve haver uma separação entre o olho que vê e o objeto que é visto.

De qualquer forma, do objeto visto, apenas podemos ter o prazer do belo, não podemos ter a sensação do sabor. Ver e comer são duas operações diferentes. O eu conhece com os olhos, mas apenas o que o exterior dos objetos deixa saber. É possível ver a beleza dos morangos, mas para saber os morangos, será necessário comê-los. Entretanto, quando come, o eu não é capaz de dizer o sabor dos morangos, porque o sabor é um segredo, o sabor é incomunicável. Sapientia é conhecer a vida pela boca. Mas o sabor vive onde a visão morre. Os saberes do eu e os saberes do corpo estão sempre em choque.

Um enunciado científico é aquilo que diz um saber, cercado de uma linguagem científica capaz de selecionar todas as palavras necessárias para dizer o que precisa ser sabido. Não há segredos: “O eu é a casa onde moram as palavras que não têm segredos.”

Já o corpo vive o sabor do saboroso. Quando ele diz que algo é saboroso, o eu entende as palavras, sabe o que elas significam, mas, ainda assim, continua sem saber ou sem sabor. A ciência usa palavras para dizer um saber. A Sapientia não usa palavras. A ciência não pode dizer o sabor. A Sapientia seduz o eu a chupar o morango e saber o sabor. As palavras do eu não são capazes de dizer o sabor do saboroso. O sabor mora no silêncio, é inefável, não pode ser dito.

Muitos têm se dedicado a ensinar o saber. É chegada a hora de ensinar o sabor, o que deve ser feito sem palavras, com um distanciamento daquele que ensina, respeitando a experimentação do gozo do aprendiz, no contato existencial profundo com o sabor saboroso do objeto na própria boca. A partir daí, as palavras tornam-se desnecessárias.

Kant, na sua obra fundamental “Crítica da Razão Pura”[ii], diz que: “O que os objetos são, em si mesmos, fora da maneira como a nossa sensibilidade os recebe, permanece totalmente desconhecido para nós. Não conhecemos coisa alguma a não ser o nosso modo de perceber tais objetos – um modo que nos é peculiar e não necessariamente compartilhado por todos os seres...”.

Mas não é só gosto. Todos os sentidos nos permitem o contato, silencioso e enigmático, com aquilo que o objeto revela e esconde, quando se mostra.

Para ver é indispensável a distância, que separa o eu do objeto, e o tempo, que permite a contemplação.

Nietzsche chama a atenção para a necessidade de educadores capazes de ensinar a ver, pensar, falar e a escrever[iii]. Aprender a ver significa acostumar o olho à serenidade, à paciência, treinando o olho para uma atenção profunda, demorada, vagarosa, lenta. Para aprender a ver, deve-se evitar o impulso, a primeira reação, repentina, rápida, veloz. Para ver, devemos redescobrir a vida contemplativa, não como um estado de passividade, aceitação, inércia, mas como uma resistência à vida ativa acelerada, neurótica, apressada, inquieta, distraída, vazia.

Byung-Chul Han, no seu livro “A Sociedade do Cansaço”[iv], afirma que: “O animal laborans tardomoderno é dotado de um Ego tão grande que quase transborda (...). É hiperativo e hiperneurótico.” Diz, ainda, que: “A mudança de paradigma associada à transformação da sociedade disciplinar em sociedade de produção revela, a um determinado nível, uma certa continuidade. O sujeito sem consciência social para ser caracterizado pela sua vontade de maximizar a produção.” A sociedade disciplinar, como concebida por Foucault, foi substituída por uma sociedade da produção e os habitantes passaram de sujeitos de obediência para sujeitos de produção. O verbo agora é “poder”, num sentido positivo máximo, sem limites.

Uma sociedade da produção, hiperativa, apressada, que se esgota na própria falta de limites e chega a um estado absurdo de cansaço, letargia, depressão, tédio, diante dessa incessante busca pela produtividade, pela exposição do próprio corpo como produto, empresários de si mesmos, sujeitos desesperados por visibilidade e atenção. O sujeito da produção está cansado de tanta positividade.

O mesmo Byung-Chul Han, no seu “Aroma do Tempo”[v], traz uma passagem fundamental para a alegoria deste texto, quando afirma que o aroma está carregado de história, imagens e narrativas. Mas o aroma é lento. O aroma não pode acompanhar a velocidade da sociedade da produção. A época da pressa não tem aroma. O relógio de incenso, usado na China até finais do Século XIX (hsiang yin), também chamado de selo de aroma, passa a ideia de que o tempo possui um cheiro que marca o momento. O tempo que tem aroma não transcorre ou passa. O aroma enche o espaço, conferindo a aparência de uma duração. É uma sensação de duração.

Entender que ver e comer são operações diferentes. Ver para saber exige distância. As palavras da ciência dizem o saber. Mas o sabor do morango mora na sabedoria da Sapientia. Comer para saber o sabor.

Aprender a ver, privilegiando a vida contemplativa em tempos de vida ativa-produtiva. Negar o impulso para a hipervelocidade, fazendo uma resistência em favor da demora, da espera, da valorização do tempo destinado a permitir que o objeto seja visto. Tempo para contemplar.

Uma nova relação com o tempo, em busca do seu aroma, das imagens, sensações, memórias que marcam o instante. Serenidade para viver a passagem do tempo, sem antecipar ou atrasar, mas apenas preocupado em estar no tempo. Uma sensação de duração.

Ser para fazer. Um novo sujeito da serenidade e da contemplação, como agente da resistência ativa em busca de uma advocacia criminal artesanal como realização de vida e não apenas como um ofício ou trabalho. Sem o momento contemplativo (capacidade de autoconhecimento e de conhecimento do outro) a vida profissional fica reduzida a trabalho. A vida contemplativa sem ação é cega, por isso, contemplação é resistência. A vida ativa sem contemplação é cega, por ser egocêntrica e autocentrada.

Um novo sujeito há de surgir do cansaço para forjar um novo profissional da advocacia criminal, que tenha tempo para si mesmo e para a escuta ativa do outro. Em poucas profissões é tão importante o olhar atencioso, a escuta atenta e pacienciosa, o respeito ao tempo do outro, como na advocacia criminal. Um profissional que saiba respeitar o seu tempo, as fases, as faltas, que não procure ensinar antes de aprender, que seja humilde no início, no meio e no final da vida, e que não faça da profissão uma aventura, sendo irresponsável com o mandato outorgado, com a vida e com a liberdade do ser humano acusado.

Assimilar a diferença entre saber e sabor, ciência e Sapientia. Saber contemplar, como forma de resistência ativa ao impulso da velocidade, da produção, do cansaço. Saborear o tempo e seu aroma, enchendo o próprio eu de sentido para uma caminhada na advocacia entre as palavras da ciência e o sabor dos morangos.

Mais não digo.

 

Notas e Referências

[i] ALVES, Rubens. VARIAÇÕES SOBRE O PRAZER. São Paulo : Planeta, 2014, p. 57.

[ii] KANT, I. CRÍTICA DA RAZÃO PURA. Calouste Gulbekian, 1994, p. 54.

[iii] NIETZSCHE, F. CREPÚSCULO DOS ÍDOLOS. Rio de Janeiro : Relume Dumara, 2000.

[iv] HAN, Byung-Chul. A SOCIEDADE DO CANSAÇO. Lisboa : Relógio D`Água Ed., 2014.

[v] HAN, Byung-Chul. AROMA DO TEMPO. Lisboa : Relógio D`Água Ed., 2016.

 

Imagem Ilustrativa do Post: Lady Justice // Foto de: Dun.can // Sem alterações

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