O que aprendi com o tempo: um diálogo sobre ler, escrever e defender

03/02/2020

“Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, eles serão incapazes de escrever – inclusive sua própria história”. Bill Gates

Quando escuto pessoas do meu tempo a dizer que a juventude atual está perdida, em razão do tempo em frente ao computador e smartphones, lembro dessa frase do Bill Gates. O tempo gasto diante das máquinas, realmente, não me parece ser um problema dessa juventude, caso seja dela exigida a contrapartida indispensável, tanto em termos de atenção às relações humanas, quanto em termos de assimilação das diversas formas de aprendizado e seus instrumentos.

Mas, certamente, não é apenas a juventude, com seus computadores e celulares, que está afastada dos livros. De um modo geral, as pessoas estão “sem tempo” para a leitura. Essa impressão, eu recolho, especialmente, do contato com profissionais e estudantes ligados ao direito, o que é, realmente, muito grave e triste.

Pensando nisso, quero propor uma lista de livros urgentes, como se fossem obrigatórios: Medida por Medida (Shakespeare), Ensaio sobre a cegueira (Saramago), O processo (Franz Kafka), O livro dos abraços (Galeano), Memórias do Cárcere (Graciliano Ramos), O Mercador de Veneza (Shakespeare), O Estrangeiro (Albert Camus) e Justiça (Luiz Eduardo Soares). Uma vez por mês, vamos reunir os interessados para discussão da obra, em evento organizado pela Escola de Criminalistas (A Hora da Escola).

Ler muda o mundo. Aprendi, depois de algum tempo, que devemos praticar a leitura todos os dias. É um exercício e, como tal, requer disciplina, organização, perseverança. A leitura de bons livros é uma forma indispensável de aprendizado e de desenvolvimento de inúmeras habilidades correlatas, tais como a escrita, a fala, o raciocínio, dentre outras capacidades que são muito importantes para o desempenho da advocacia criminal.

Pela leitura de bons livros, ficamos nos sentindo mais capazes, mais entusiasmados, mais eficientes, mais abertos, mais criativos. Seja qual for o gênero de sua preferência, o certo é que, logo depois de um bom livro, aparecem importantes reflexões e relações do conteúdo lido com questões da vida, trabalho etc.

Leia. Leia disciplinadamente. Leia compulsivamente. Descubra o prazer de uma boa leitura e sinta os maravilhosos efeitos sobre sua vida pessoal e profissional. Depois de um tempo, entendi que não há advocacia criminal de excelência, sem leitura.

Escrever é comprometer-se.

Como já foi dito, a leitura aprimora a escrita, mas para escrever, além da ilustração e da técnica, é importante ter coragem, porque o texto desnuda o autor, expõe o que está aparente, o que está guardado, o que está velado, aquilo que ainda não foi percebido. Escrever é estar aberto ao julgamento alheio e, como ato de coragem, representa um pacto íntimo de liberdade, uma resolução pessoal de não se deixar constranger pela opinião dos outros, de não se deixar abater pelo que pensam os leitores e, principalmente, de não querer agradar a todos.

Na advocacia criminal, a boa escrita é apenas essencial ao bom desempenho profissional. Um criminalista completo fala e escreve com técnica, fluidez e espontaneidade. E, ao contrário do que muitos dizem por aí, a habilidade da escrita, como qualquer outra, pode e deve ser desenvolvida. O tempo vai melhorando o escritor, polindo a escrita, melhorando as construções das frases, gerando mais capacidade de síntese e, o que é fundamental, vai dando maior liberdade para a ousadia e criatividade.

Minha sugestão, depois de ¼ de século na advocacia criminal, mais o tempo de casa (eu nasci dentro de um escritório criminal), é que o profissional pratique a escrita e que faça isso da única forma possível: escrevendo. Solte o verbo, amigo. Lápis e papel, computador, celular, pouco importa, desde que seja uma entrega, um salto, um ato de libertação. Escreva e leia o que foi escrito. Se surgem várias reflexões das leituras de textos escritos por outras pessoas, imagine o que pode acontecer quando você se tornar leitor de si mesmo, crítico da própria produção, um investigador dos propósitos, dos insights, das causas, dos motivos. De novo, não importa o gênero. Vá de prosa, de poesia, de crônica, de conto, enfim, solte o verbo. Coragem para ter liberdade.

Os profissionais do direito, não raro, são treinados para uma escrita padronizada, pasteurizada, pré-fabricada, incentivada por uma cultura jurídica onde impera o comércio dos modelos, das peças prontas. Não há como escapar da “dor da criação”. Para nascer um escritor, é inevitável que haja uma gestação, com todas as sensações, maravilhas, angústias e todo o crescimento até a hora do parto. Onde havia apenas um jurista, agora há um escritor. E esse nascimento, perdão pelo trocadilho, é para toda a vida.

Finalmente, o que o tempo me ensinou sobre defender.

Tenho estado bastante pensativo sobre esse momento em que chego a quase 25 anos desde a formatura e início do exercício da advocacia criminal. A reflexão resulta do fato de eu não me considerar, ainda, um advogado experiente, mas, ao mesmo tempo, já perceber que tenho alguma estrada e alguma vivência por esses caminhos. Nessa altura da vida profissional, já não temos tantas dúvidas que nos assolam no início da carreira e, peço licença para vos dizer, agora mesmo, que as dúvidas do início da profissão passam. Outras dúvidas, novas, diferentes, tomam o lugar daquelas. Na minha idade, é normal agir com mais segurança, mas a pressão pelo resultado é infinitamente maior, portanto, não se pode errar, em nenhuma circunstância.

Enfim, se posso dizer algo, sem pretensão de ensinar ou dar conselhos, é que o exercício diuturno da advocacia criminal nesses anos ao lado de pessoas realmente sensíveis, humanas, generosas, acabou por me oferecer um modelo de valores e princípios tão importante, que me vejo no dever de fazer com que isso seja passado adiante, ou seja, que as lições de humanidade e ética sejam visíveis nas minhas ações, pensamentos e manifestações para que eu tenha legitimidade e possa fazer isso ser sentido pelos que caminham comigo.

Nessa fase de amadurecimento em que me encontro, recolhi nos meus tropeços e na convivência com mestres que tanto me inspiram, muitos deles em outras dimensões, alguns conselhos que fizeram sentido para a minha caminhada e que deixo aqui para o exercício da reflexão de cada um, sem qualquer outra pretensão.

Dez conselhos para serem vividos:

1) Seja educado: entendi há algum tempo, quando recebi elogios ao comportamento do meu pai em relação a pessoas mais humildes, o valor de comportamentos básicos como dar bom dia, boa tarde e boa noite, agradecer, pedir “por favor”, desculpar-se, esperar as pessoas terminarem de falar e não gritar, ainda que o Outro não tenha a mesma educação.

2) Seja autêntico: aprendi com minha mãe e aprimorei a postura de agir sempre com autenticidade, sem querer agradar as pessoas com falsidades. Não tente agradar, sendo falso, independente do contexto e da situação. Sinceridade e honestidade sempre.

3) Seja humilde: grandes professores (por todos, Alberto Rufino Rodrigues), mostraram que, quanto mais estudo, mais aumenta o tamanho da minha ignorância e, por consequência, a necessidade de ser humilde. A humildade é indispensável em duas situações: para revelar quando não sabemos algo e, mais ainda, para revelar que sabemos algo. Em qualquer caso, devemos estar abertos a aprender alguma coisa nova.

4) Faça boas escolhas: com o tempo, fui aprendendo a me afastar de situações pelas quais não quero e não preciso passar, tais como constrangimentos, desentendimentos, brigas, más companhias. E só vejo uma forma de evitar esses problemas desnecessários: dizer a verdade. Sim é sim e não é não. Simples.  

5) Reflita antes de (re)agir: meu pai dizia que era bom dormir com o problema, caso fosse sério. Aprendi a ir para cama com alguns problemas, antes de fazer qualquer coisa com a cabeça quente ou confusa. Uma noite de sono, ajuda a esfriar a raiva ou a fazer algumas conexões necessárias antes de dar alguma resposta em situações críticas.

6) Saiba escutar: aprendi com Marshall Rosenberg que o primeiro passo para uma comunicação não-violenta é escutar. Todos os dias, devemos nos aprimorar na arte de escutar com cuidado e respeito a fala do Outro, acolhendo suas emoções e procurado entender suas necessidades.  

7) Seja honesto: quando estagiário de direito, ainda na época da faculdade, trabalhei com um rapaz humilde que, por razões religiosas, nunca mentia. Numa situação limite de desconfiança, percebi que aquele comportamento salvou a pele do jovem, fortalecendo sua imagem de pessoa séria e honesta. Daí para frente, decidi que passaria por maus bocados, que seria considerado rude, deselegante, mas, sempre, por estar dizendo a verdade. Se não queres saber minha opinião, então não pergunte.

8) Seja coerente: com meus pais, especialmente, aprendi que a fala, o pensamento e a atitude devem estar alinhados, porque isso demonstra a coerência, pressuposto para sermos respeitados por nossas posições. É muito triste ver como as pessoas falam coisas que não pensam ou agem de modo completamente diverso do que falam. Sem coerência, dificilmente a pessoa será respeitada.

9) Saiba acolher sem julgamento: cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, ou seja, ninguém tem o direito de julgar o modo de ser no mundo do Outro. Por isso, abra os braços e abrace a diferença. Como diz Saramago: “Você é sempre o outro do Outro”.

10) Mude o mundo, mudando a si mesmo: A verdadeira mudança é aquela que acontece dentro da gente. Continuo acreditando que posso mudar o mundo, enquanto acreditar na possibilidade da minha mudança. Ninguém muda o outro, sem mudar a si mesmo. Mas basta a refundação de si, para que o outro seja levado a mudar. Mude o mundo: mude-se.

Mais não digo.

 

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