A CORAGEM DE SER VULNERÁVEL

15/05/2019

Casandra Brené Brown é uma Assistente Social e Professora da Universidade de Houston, no Texas. Sua fama tomou proporções mundiais quando a pesquisa da sua vida, sobre vulnerabilidade, coragem, dignidade e vergonha do ser humano foi tema de uma palestra para o TEDx Houston. Com o título “O Poder da Vulnerabilidade”, a professora já alcançou a marca dos 20 milhões de espectadores.

Nas suas obras, especialmente “A Coragem de Ser Imperfeito”, a autora explica como utilizar a vulnerabilidade e imperfeição para conquistar mais conexões sociais e bons resultados na vida. Ao longo de sua pesquisa de mais de uma década, Brené foi em busca das raízes do sentimento de vergonha e demonstra que esse sentimento, que é um verdadeiro tabu na nossa sociedade, pode estar ganhando uma nova dimensão, desde quando as pessoas passam a considerar a demonstração de imensa coragem que há em assumir as próprias fraquezas e dificuldades. A autora propõe que é chegado o tempo de uma nova cultura: a da aceitação da vulnerabilidade.

Venho insistindo na questão do autoconhecimento como pressuposto fundamental para um desempenho de alta performance na advocacia criminal, especialmente quando trato do aspecto artesanal do trabalho defensivo. Não tenho dúvida que o profissional que atua na defesa de réus em procedimentos criminais deve buscar meios que o conduzam a uma autocrítica, a uma reflexão sobre sua existência, a uma possibilidade de leitura/enfrentamento/superação das grandes questões que estão na gênese do sentimento de fraqueza, vergonha e/ou vulnerabilidade.

Explico.

Desde 2017, venho trabalhando nisso em vários cursos e palestras na Escola de Criminalistas, onde trago o apelo socrático: Conhece-te a ti mesmo. Assim foi com as duas primeiras edições da Imersão (Caxias do Sul/RS, 2017 e 2018) e com as três turmas do Curso Regular em Advocacia Criminal Artesanal (Turma Braulio Marques/2016, Turma Amadeu Weinmann/2017 e Turma Kakay/2018). Assim está sendo com a turma do Curso Completo de Tribunal do Júri (em andamento).

É que o profissional da advocacia criminal enfrenta situações realmente muito difíceis e que são cotidianas, tanto no plano do drama vivido pelas famílias do acusado e da vítima, pela situação violenta de perda da vida e da liberdade. A atuação é, invariavelmente, cercada de muita pressão, havendo cobrança de parte do cliente e seus familiares, inicialmente, pela obtenção do direito de responder ao processo em liberdade e, posteriormente, pela declaração de absolvição no julgamento do mérito da ação penal. A isso tudo, some-se a questão da administração do escritório, das pessoas, do financeiro, da captação de novos clientes, da relação com os demais poderes e autoridades, do atendimento aos colegas, enfim, deverá a pessoa ainda ter tempo para ser pai ou mãe, marido ou esposa, estudante, amigo, parente.

No limite, o profissional que não busca o autoconhecimento acaba esbarrando nas próprias vulnerabilidades, escorregando nas suas fraquezas, sendo derrotado por seus medos e fobias e isso faz com que a pessoa que colocou a liberdade e a vida nas mãos daquele profissional acabe pagando um preço alto e indevido, quando acontece essa sobreposição das dificuldades pessoais do causídico sobre as dificuldades naturais da causa. Ora, não se vá querer ser um profissional da advocacia infalível ou perfeito. Não é isso. O que não pode acontecer, por outro lado, é o profissional deixar de atender com a máxima atenção, com a máxima dedicação, com a máxima eficiência aos interesses do cliente, justamente por estar ocupado demais com as suas próprias questões internas, enredado em si mesmo, carregando o peso da própria existência com muita dificuldade.

Ao contrário de parecer um gesto de fraqueza ou derrota, assumir e encarar as vulnerabilidades pode ser a chave para superação de bloqueios e dificuldades encontrados no exercício da advocacia criminal, pois, não resta dúvida, inclusive pelo que já se pesquisou a respeito, que há uma enorme demonstração de coragem na atitude de assumir a vontade de chorar, o fato de sentir vergonha, de sentir medo ou de enfrentar certas situações com alguma ansiedade. Na abertura para a vulnerabilidade, a demonstração clara de coragem e, quem sabe, a possibilidade de superação daquilo que, silenciosamente, causa tanto sofrimento.

Para carregar com alegria o peso da responsabilidade de advogar na área criminal e lutar pela absolvição dos nossos clientes, devemos nós, antes, decretar a nossa própria absolvição, porque, se chegamos até aqui, e não foram poucas as dificuldades e desafios, é porque fizemos as melhores escolhas possíveis.

Mais não digo.

 

Imagem Ilustrativa do Post: O Espelho // Foto de: Ana Patícia Almeida // Sem alterações

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