Vinícius de Moraes e a (de)formação jurídica – Por Andrey Lucas Macedo...

Vinícius de Moraes e a (de)formação jurídica – Por Andrey Lucas Macedo Corrêa

Por Andrey Lucas Macedo Corrêa – 12/08/2015

Pode ser uma heresia escrever algo jurídico com a obra de Vinícius de Moraes, ainda mais sobre a formação jurídica no Brasil. No entanto, justamente pelo cenário em que nos encontramos, talvez seja necessária uma visão nesse sentido, “É preciso/ Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso[1]”. Talvez, pelo menos Vinícius, à época de estudante de direito, acharia interessante o presente texto. Além disso, de heresias vive a “Igreja da verdade real”, sempre com as pregações do colega Alexandre Morais da Rosa. Dessa forma, sinto-me um tanto quanto aliviado para continuar o texto.

A proposta é analisar a formação jurídica nos tempos atuais. Para tal “empreitada” utilizarei um conto do livro “Para viver um grande amor[2]de Vinícius de Moraes publicado em 1959. O conto chama-se “Os politécnicos[3]”, no qual o poetinha conta uma experiência de uma roda de conversa para o qual fora convidado para falar a futuros engenheiros. Mas o que o estereótipo clássico de engenheiro imaginado pelos juristas tem a ver com a formação jurídica atual? Tudo! Pois, infelizmente, esse estereótipo (um tanto quanto superficial) se aplica aos estudantes de direito “produzidos” pela academia jurídica de pindorama[4].

O poeta recebe o convite do grêmio estudantil com esse mesmo sentimento, de que a mente dos engenheiros seria muito diferente da mente de um poeta: “Quem sou eu, perguntei-me, não sem uma certa amargura, quem sou eu, que não sei sequer consertar uma tomada elétrica, para arrogar-me o direito de vir responder às perguntas destes jovens que amanhã estarão construindo obras concretas e positivas para auxiliar o desenvolvimento deste louco país?”. No entanto, o convite dos jovens tinha um objetivo completamente inesperado, “Têm eles que a carreira escolhida oferece o perigo de canalizar o pensamento para problemas puramente tecnológicos, em prejuízo de uma humanização mais vasta, tal como a que pode ser adquirida em contato com o homem em geral e as artes em particular”. Daí começa a reflexão, esse medo enfrentado pelos engenheiros da década de 50 é o mesmo que o enfrentado por vários alunos das faculdades de direito do Brasil, hoje!

Os futuros engenheiros emparedaram o poetinha com perguntas que nada diziam sobre o tecnicismo da academia, como um portal para outra dimensão de pensamento, completamente inexistente em seu ambiente universitário:

(…)puseram-se a bombardear-me de perguntas que, falar verdade, não dependiam em nada de cálculos, senão de experiência, bom-senso e um grão de poesia. Providenciaram mesmo uma bonita cantorazinha de nome Mariana, que estreava na boate Cave (de onde partiram para a fama Almir Ribeiro e Morgana) para cantar coisas minhas e de Antônio Carlos Jobim: o que era feito depois de eu responder se acreditava ou não em Deus, como explicava a existência de mulheres feias e o que pensava de João Gilberto.

Eis que se acende no poeta um sentimento estranho, como se estivesse operacionalizando o pensamento poético, como se os estudantes, tamanha era a formatação de suas mentes, estivessem seguindo suas respostas como instruções de um manual, como se fosse um “manual de direito e literatura”, um “manual de direito crítico”, estaria tudo perdido!?! Como sabê-lo[5]?

A homenagem foi simpática, mas no meio daquilo tudo comecei a ser tomado por uma sensação estranha. Aqueles rapazes todos que estavam ali, cada um com a sua personalidade própria – João gostando de romance Lolita, Pedro detestando; Luís preferindo mulatas, Carlos louras; Francisco acreditando em Karl Marx, Júlio em Jânio Quadros; Kimura preferindo filme de mocinho, Giovanni gostando mais de cinema francês – já não os tinha visto eu em outras circunstâncias, em outros tempos? Aquele painel de rostos desabrochando para a vida, aqueles olhos sequiosos ao mesmo tempo de amor e de conhecimento, não eram eles o primeiro plano de uma imagem que se ia perder no vórtice de uma perspectiva interminável, como num jogo de espelhos? Atrás de cada uma daquelas faces não havia o fotograma menor de outra face, como ela ávida de saber o porquê das coisas, e atrás dessa outra, e mais outra, e outra ainda? Vi-os, de repente, todos fardados me olhando, atentos às instruções de guerra que eu lhes dava em voz monótona: “Os três grupos decolarão em intervalos de cinco minutos, e deixarão cair sua carga de bombas nos objetivos A, B e c, tal como se vê no mapa. É favor acertarem os relógios…” Mariana cantava, um pouco tímida diante de tantos rapazes, a minha “Serenata do adeus”:

Ai, vontade de ficar mas tendo de ir embora[6]

O poetinha vê-se numa aflição, uma dimensão que não posso expressar se não em suas palavras[7]:

Tive vontade de gritar-lhes: “Não acreditem em mim! Eu também não sei nada! Só sei que diante de mim existe aberta uma grande porta escura, e além dela é o infinito – um infinito que não acaba nunca. Só sei que a vida é muito curta demais para viver e muito longa demais para morrer!”

Acredito que essa angústia permeia os defensores das correntes críticas nas academias. Como lecionar sem formatar, sem operacionalizar os pensamentos (em muitos casos já formatados dos estudantes, e, nesse caso, como desformatar?). Como abordar as perspectivas do direito e literatura, direito e cinema sem retirar-lhas o sentimento, “o sublime[8]”?

Como estudante de direito, vejo-me em dimensão semelhante. Como buscar essas dimensões “sublimes” do direito em faculdades que, regra geral, apresentam apenas professores ligados à dogmática jurídica. Como estimular professores que “ainda tem salvação” a abordarem essas outras dimensões?

Diante dessa angústia generalizada, Vininha[9] finaliza seu conto com uma “pequenina luz indecifrável /A que às vezes os poetas dão o nome de esperança[10]”. Essa esperança também se reflete em nossa angústia acadêmica, que motivou a escrita desse texto, que não deve ser entendido como um texto pessimista, mas sim um texto que renova a crença em um ensino jurídico novo no Brasil. Um ensino para além do tecnicismo intrínseco, para além da lógica dos tribunais, um ensino que reconecte o direito à sociedade, reconecte o jurista ao ser humano e sua realidade social que carrega desigualdades crônicas às quais o direito deve-se propor como parte da solução.

Mas ao olhar mais uma vez seus rostos pensativos diante da canção que lhes falava das dores de amar, meu coração subitamente se acendeu numa grande chama de amor por eles, como se eles fossem todos filhos meus. E eu me armei de todas as armas da minha esperança no destino do homem para defender minha progênie, e bebi do copo que eles me haviam oferecido, e porque estávamos todos um pouco emocionados, rimos juntos quando a canção terminou. E eu fiquei certo de que nenhum deles seria nunca um louco, um traidor ou um assassino porque eu os amava tanto, e o meu amor haveria de protegê-los contra os males de viver.


Notas e Referências: 

[1] Receita de mulher. Disponível em: http://www.viniciusdemoraes.com.br/pt-br/poesia/poesias-avulsas/receita-de-mulher

[2] MORAES, Vinicius de. PARA VIVER UM GRANDE AMOR. São Paulo : Círculo do Livro, 1980. p. 201.

[3] Disponível em: http://www.viniciusdemoraes.com.br/pt-br/prosa/os-politecnicos

[4] Com toda a licença ao mestre Lênio Streck.

[5] Era uma agonia tão grande quanto o expresso pelo “Poema enjoadinho”. Disponível em: http://www.releituras.com/viniciusm_enjoado.asp

[6] Até esse verso operacionalizado frente à rotina?!?!?!?

[7] Afinal de contas é um texto sobre sentimentos, acredito que estejamos um tanto quanto formatados na lógica acadêmica tradicional para expressar com a mesma sublimidade o sentimento que atingiu o poeta naquele instante.

[8] No sentido que o crítico Otto Lara Rezende apresentava às poesias da mocidade de Vinicius de Moraes, o classificando como o “inquilino do sublime”.

[9] Como chamado por Toquinho

[10] O haver. Disponível em: http://www.releituras.com/viniciusm_haver.asp


andrey

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Andrey Lucas Macedo Corrêa cursa graduação em Direito pela Universidade Federal de Uberlândia com período sanduíche na Universidade de Coimbra em Portugal. É estagiário do Tribunal Regional Federal da 1ª Região e pesquisador-fundador do Laboratório Americano de Estudos Constitucionais Comparados – LAECC/PPGD-UFU coordenado pelo Prof. Dr. Alexandre Walmott Borges.

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