Thomas Mann, Prêmio Nobel de Literatura – 1929 – Por Luiz Ferri...

Thomas Mann, Prêmio Nobel de Literatura – 1929 – Por Luiz Ferri de Barros

Por Luiz Ferri de Barros – 21/03/2017

Um dos maiores romancistas do século 20, o escritor alemão Thomas Mann combateu o nazismo com sua arte e consagrou-se com o primeiro livro que escreveu, Os Buddenbrucks, em que descreve a saga e a decadência de uma família burguesa 

Passando ao largo da enfadonha polêmica suscitada pela recente outorga do Nobel de Literatura a um cantor e compositor, a partir do que hoje se discute se música pop é literatura, sim ou não, – é claro que não é –, voltemos a falar de um grande escritor, de seus livros inesquecíveis e da alta literatura.

Thomas Mann (1875-1955) recebeu o Nobel de Literatura em 1929 pelo primeiro livro que publicou, quando tinha apenas 25 anos, em 1901: Os Buddenbrooks. Nesse romance, que é considerado um dos mais importantes do século passado, e que tem como subtítulo “A decadência de uma família”, o autor narra a história de ricos comerciantes do norte da Alemanha, ao longo de quatro gerações.

Trata-se de um minucioso retrato da alta burguesia alemã do século 19, seu modo de vida e seus costumes, e dos dramas e conflitos de uma próspera família, retratada na ascensão de seu poder econômico e político, e depois, com o passar das gerações, em seu declínio financeiro e moral. Perdas financeiras pontuam o declínio, porém a decadência dessa família burguesa é retratada pela ótica da substituição da austera ética do trabalho por uma ingênua joie de vivre. O escritor inspirou-se em suas próprias origens.

Seu pai fora um senador e comerciante que descendia de uma linhagem de 100 anos no comércio de cereais e que, ao falecer, quando o escritor tinha 15 anos, não teve sucessores, sendo sua firma liquidada. Na ocasião, o irmão mais velho de Thomas Mann já se tornara um escritor e ele tampouco demonstrava inclinação para os negócios.

No discurso com que o autor foi homenageado na Academia Sueca, Os Buddenbrooks foi considerado como obra inaugural do realismo na literatura alemã, sem que faltasse menção à sua natureza filosófica. Como na maioria de seus escritos, a amplitude da narrativa de Thomas Mann abrange aspectos históricos, sociológicos e de fina análise psicológica dos personagens.

Por ocasião de sua premiação com o Nobel, Thomas Mann já havia publicado vários outros livros.  O destaque que a Academia Sueca deu a Os Buddenbrucks era natural, porque o livro tornara-se muito conhecido, com mais de 1 milhão de exemplares vendidos, um marco extraordinário para a época, adquirindo o status de um “clássico da literatura contemporânea”.  Mas outras de suas obras contribuíram para o prêmio, em especial A Montanha Mágica, que, com o tempo, também veio a ser considerado um dos principais romances do século 20.

Em A Montanha Mágica (1924), ao narrar a história de um jovem engenheiro que vai visitar um primo num sanatório em Davos, na Suíça, e acaba por igualmente tornar-se enfermo, ficando internado lá durante sete anos, o escritor discute as tendências de pensamento que predominavam na Europa nos anos precedentes à Primeira Guerra Mundial, principalmente por meio de diálogos entre os personagens.  O livro é entendido como a representação de uma Europa enferma, que busca uma unidade e que, por não encontrá-la, caminha para a guerra.

Pode-se dizer que esses dois livros sintetizam aspectos primordiais da história europeia na passagem do século 19 para o século 20, ao retratar o declínio da burguesia comercial e o caldeirão ideológico de tendências políticas, filosóficas, religiosas e sociais em choque.

Ao quebrar a tradição comercial de sua família, Thomas Mann deu início a uma linhagem literária: três de seus seis filhos tornaram-se escritores também famosos na Alemanha, tanto como seu irmão mais velho. Parte dessa vocação artística é atribuída à influência da mãe do escritor, uma brasileira nascida no Rio de Janeiro.

Entre suas primeiras obras, talvez uma das mais conhecidas seja Morte em Veneza (1912), que foi levada ao cinema pelo diretor italiano Luchino Visconti, numa produção ítalo-francesa vencedora do Festival de Cannes em 1971. O livro trata do enamoramento de um compositor por um menino de beleza incomparável – e também teria sido inspirado em suas vivências pessoais.

A Montanha Mágica, em 1982, e Os Buddenbrucks, em 2008, também foram levados ao cinema, em produções alemãs que não tiveram a mesma repercussão do filme de Visconti.

Ao casar-se com uma judia, em 1905, o escritor colocou-se em rota de colisão com o antissemitismo que viria a dominar a Alemanha. Reformulou certas posturas filosóficas e políticas e, após ativa militância antinazista, em 1933, ano em que Hitler tomou o poder, o escritor auto-exilou-se com a família, primeiro na Suíça e depois nos Estados Unidos, tendo ali recebido a cidadania americana. O auto-exílio foi a antecipação de um destino inevitável e já selado: ele estava nas listas de deportação do Estado alemão.

Neste mesmo ano da ascensão de Hitler, Thomas Mann inicia a publicação de sua obra mais grandiosa, José e Seus Irmãos, na qual já vinha trabalhando há vários anos. Em quatro volumes – As Histórias de Jacó (1933), O Jovem José (1934), José no Egito (1936) e José, o Provedor (1943) – o escritor alemão reconstrói a saga bíblica dos patriarcas hebreus relatada no livro do Gênesis, ao tempo em que a Alemanha passa a perseguir e exterminar os judeus.

É necessário aqui parar um instante a leitura para melhor apreender os fatos e refletir: enquanto Hitler, que Thomas Mann chamava de “o pequeno Adolfo”, dizimava os judeus na Europa, o escritor, que era protestante, nos Estados Unidos homenageava-os com o mais portentoso de seus romances históricos. Em José e Seus Irmãos não apenas a cultura hebraica é reconstituída por ele em forma de romance, como toda a antiga civilização egípcia.

Mas sua luta não foi apenas simbólica e literária. Durante os anos da Segunda Guerra, de 1940 a 1945, ele gravou na Califórnia, onde morava, um programa de rádio em alemão, apelando seus compatriotas à razão, que era transmitido mensalmente pela BBC de Londres. Suas exortações ao povo alemão não passaram despercebidas ao próprio Führer que, em seus discursos inflamados, chegou a atacar pessoalmente as falas do escritor.

Thomas Mann não tem pressa ao escrever. É meticuloso na caracterização dos personagens e nas suas narrativas interpõe descrições detalhadas. De forma análoga a que vamos encontrar em Machado de Assis, o narrador com frequência se manifesta ao meio das histórias, ou em preâmbulos que as antecedem, pontuando observações, acentuando as análises psicológicas dos personagens e, inclusive, dando conta de sua dificuldade de narrar tal história que vem contando. Em suas histórias, Thomas Mann domina exemplarmente o desenrolar do tempo. O tempo, para ele, adquire as feições de um personagem – às vezes sendo o principal personagem.

Sua extensa obra inclui romances, contos, novelas e ensaios, além de palestras e conferências. Por seus escritos Thomas Mann alçou-se à dimensão de grande humanista. Ao realismo de seu primeiro livro, Os Broddenbrooks, múltiplas outras formas literárias foram se agregando, incluindo dimensões simbólicas e míticas. Sempre reflexivos, seus escritos também são filosóficos e a ironia é um recurso de que amiúde lança mão.

Dentre suas novelas – contos estendidos ou pequenos romances –, destaca-se As Cabeças Trocadas (1940). Publicado durante os mesmos anos da reconstrução épica que o escritor fazia dos povos do Oriente Médio, na tetralogia José e Seus Irmãos, o livro remete-nos à Índia antiga. Com o subtítulo “Uma lenda indiana”, a obras narra a história de um triângulo amoroso em que no centro situa-se uma linda mulher que ama dois amigos inseparáveis, um deles o seu marido, de invejável intelecto e corpo franzino, e o outro, por quem ela anseia em suas fantasias eróticas, um homem rude, porém dotado de um corpo avantajado e voluptuoso.

Numa história peculiar e delicada – apenas pelo tempo mitológico da narrativa, que disfarça os seus aspectos brutais –, esses dois homens, em profundo sofrimento amoroso, decepam cada qual a própria cabeça num templo, em imolação à deusa do local. A mulher, desesperada, recebe da deusa a dádiva de fazê-los reviver, no entanto ao recolocar as cabeças nos corpos, coloca a cabeça de um no corpo do outro.

Trocadas as cabeças, ela ficou com o homem ideal, um marido de intelecto avantajado e o corpo robusto. Mas será? A troca foi acidental ou de propósito? E quais foram as consequências do ato desta mulher? Para saber, só lendo.

O livro está esgotado, mas pode ser encontrado à venda nos sebos. Nesta história quase singela, posto que lendária, não são simples as questões que se colocam. Trata-se, como já se aponta nas orelhas da edição de 1987 da Nova Fronteira, de contradições da pessoa humana, das relações entre a beleza física e a riqueza espiritual, da cisão entre a atração sexual e a admiração amorosa, do conflito entre o desejo e a proibição, do choque entre o sagrado e o profano, da dicotomia entre o corpo e a mente, para não dizer da alma.

Thomas Mann jamais trata de coisas simples e triviais.


Originalmente publicado na Revista da OAB/CAASP. Nº 26. São Paulo, dezembro/2016.


Luiz Ferri de Barros é Mestre e Doutor em Filosofia da Educação pela USP, Administrador de Empresas pela FGV, escritor e jornalista.

Publica coluna semanal no Empório do Direito às terças-feiras.

E-mail para contato: barros@velhosguerreiros.com.br.


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