Testamento sob a forca – Por Afranio Silva Jardim

Testamento sob a forca – Por Afranio Silva Jardim

Por Afranio Silva Jardim – 14/03/2017

“Si me caí, es porque estaba caminando
y caminar vale la pena aunque te caigas”

(Eduardo Galeano)

Esta é uma singela homenagem que faço a todos àqueles e àquelas que lutaram por uma sociedade mais justa e pela soberania de seus povos. Pessoas que morreram torturadas e mutiladas e outras que foram assassinadas covardemente pela repressão, praticada por forças estatais ilegítimas.

Recentemente, tive conhecimento de uma decisão judicial que, sem entrar no seu mérito jurídico, me trouxe uma certa melancolia e revolta, já que vivi estes momentos sombrios em nosso país. Vejam a sentença através do seguinte link: http://justificando.cartacapital.com.br/2017/03/08/juiz-rejeita-denuncia-do-mpf-contra-estupro-da-unica-sobrevivente-da-casa-da-morte

Não se fez justiça à memória da única presa política que saiu viva da chamada “Casa da Morte”, situada na cidade de Petrópolis, no E.R.J. Inês Etienne Romeu estará sempre presente em minha memória, bem como todos os torturados, mortos e desaparecidos mencionados no livro que acabo de ler, chamado “Um tempo para não esquecer”, escrito por Rubim Santos Leão de Aquino.

Nesse livro, encontro a relação, quase completa, dos torturadores e genocidas de jovens que se rebelaram contra a ditadura militar da época. A esses torturadores e assassinos, todo o meu desprezo e repugnância.

Abaixo, o emocionante texto do livro “Testamento sob a forca”:

“Só vos peço uma coisa: se sobreviverdes a esta época, não vos esqueçais! Não vos esqueçais nem dos bons, nem dos maus. Juntai com paciência os testemunhos daqueles que tombaram por eles e por vós.

Um belo dia, hoje será o passado, e falarão numa grande época e nos heróis anônimos que criaram a história.

Gostaria de que todo mundo soubesse que não há heróis anônimos. Eles eram pessoas, e tinham nomes, tinham rostos, desejos e esperanças, e a dor do último dentre os últimos não era menor do que a dor do primeiro cujo nome há de ficar.

Queria que todos esses vos fossem tão próximos como pessoas que tivésseis conhecido, como membro de vossa família, como vós mesmos.

Exterminaram famílias inteiras de heróis. Afeiçoai-vos ao menos por um dentre eles, como por um filho ou uma filha, e orgulhai-vos dele como de um grande homem que viveu para o futuro. Cada um daqueles que serviu fielmente ao futuro e que tombou pela sua beleza é uma figura esculpida em pedra”. (Júlio Fuchik, livro “Testamento sob a forca”, editora Revan, 2013. 2ª. edição, p.61).

JÚLIO FUCHIK, em abril de 1942, foi preso em Praga pela Gestapo, quando a antiga Tchecoslováquia foi invadida pelas tropas nazistas. Assim como sua esposa, de nome Gusta, foi barbaramente torturado, chegando a ficar em estado de coma por vários dias. Ficou com enormes sequelas.

Na prisão, em papéis de cigarro, redigiu as anotações e conseguiu que fossem levadas para fora da prisão, por um guarda menos raivoso. Elas resultaram nesse doloroso e lindo livro.

Júlio era um intelectual querido por todos, alegre e generoso. Era um renomado escritor, crítico literário e de teatro.

Em maio de 1943, foi enforcado em Berlim, por ter participado das forças de esquerda que resistiram à ocupação de seu país pelo exército do genocida Hitler.

Júlio pediu, neste “testamento”, que não nos esquecêssemos dos heróis que lutam por seus ideais e pelo bem comum e, neste momento, atendo ao seu desejo. Hoje, eu divulgo e louvo a coragem e dignidade destas pessoas. Ele me fez chorar com seus lindo escritos.

Júlio Fuchik entrou para a minha “galeria” de heróis que lutaram e morreram por justiça. Ele cantava na prisão para que sua esposa, em outro galpão, soubesse que ele ainda estava vivo. Um homem da maior integridade, que a tudo resistiu, sem jamais delatar seus companheiros de luta patriótica.

Algum dia nossos descendentes poderão dizer: “Júlio e Etienne, seus martírios não foram em vão”. Por ora, apenas posso dizer que, como eles, ainda tenho alguma esperança …


Afranio Silva Jardim

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Afranio Silva Jardim é professor associado de Direito Processual Penal da Uerj. Mestre e Livre-Docente de Direito Processual (Uerj). Procurador de Justiça (aposentado) do Ministério Público do E.R.J.

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Imagem Ilustrativa do Post: Ato pela Memória e Justiça dos mortos e desaparecidos da Ditadura! // Foto de: Casa Fora do Eixo Minas // Sem alterações

Disponível em: https://www.flickr.com/photos/casaforadoeixominas/7031109449

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