Tempo tempo, amor amor…. – Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira

Tempo tempo, amor amor…. – Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira

Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira – 01/04/2016

O filme “Antes da meia noite” de Richard Linklater é um filme sobre o tempo. O tempo que amoldou o encontro de um jovem casal em um trem. Tornou a fazê-lo em “Antes do pôr-do-sol” quando se reencontram em Paris. Agora em férias de verão na Grécia, revisitam suas criações. O solo grego, nascedouro de um tanto da filosofia ocidental, seria agora o palco pra que Celine e Jesse encenassem novos atos para a peça que estão a escrever desde “Antes do amanhecer” pelas ruas de Veneza.

É interessante ver na trilogia a questão da idade. Aparecem como jovens a sonhar com idéias, com todo o tempo para inventar, pra dormir e transar no parque. Depois, já entretecidos pelas escolhas, que são sempre tragédia, há já uma prisão maior – a imaginação resta um pouco prejudicada. Na terceira parte do romance as respostas às escolhas se mostram. Iniciamos um romance a perspectivar o que vem. Passamos pelos momentos das escolhas, das ações, das idas e das vindas. Depois que a plantação já frutificara, dai agora resta o existir e na medida em que se vive nela, saboreia-se todo o passado. O presente é um vinho antigo formado de todos os anos que passaram.

Resta evidente que há uma relação com a própria forma com que dividimos o tempo. Passado, presente e futuro. Antes, agora e depois. A juventude e a maturidade. O casal nasce em Viena, passa por Paris e chega à Grécia. Não há mais a novidade e o Kairós do primeiro momento. Mas há agora tudo isso junto. A medida do filme “Antes da meia-noite” é ambivalente. Evidente que seja, pois é humana. Assim, o casal enfrenta os problemas advindos das escolhas, filhos e uma vida a dois. Não poderia ser diferente. Mas ao mesmo tempo, é muito interessante perceber que ainda em alguns momentos há pegadas daquilo que se inventou ao início. Os olhares mostram isso. A prosa infinita quando estão a sós. Os olhares infinitos para o sol que agora iria se por. Talvez seja isso amor, se infinitar no outro.

A paisagem de nossa vida esta desenhada em nós mesmos. Aquele jovem casal perdera alguma coisa de sonhos. Isso parece ser o grande desafio proposto na película. Pois em ao institucionalizar a existência com uma relação formal que requer responsabilidades, corre-se o risco de perder em liberdade. Baumann nos adverte que os valores segurança e liberdade são componentes necessários há uma existência feliz. E daqui caminha-se para nossa reflexão final: Há uma medida para o amor?

Ao amanhecer da vida sonhamos. Ao entardecer vivemos os sonhos ou a falta deles. À noite refletimos sobre as conseqüências dos sonhos. Com o amor talvez não haja previsão, por isso vivê-lo seja tão arriscado e humano. Pois viver é arriscado sempre, senão não é vida. Nesse sentido, como conciliar segurança e liberdade? Se formos livres a segurança nos cobra. Se formos seguros morremos de inanição imagética. “A medida de amar é amar sem medidas”, esse verso de Gessinger talvez possa ajudar a clarear nossa questão: Mas de que medida fala o cantor?

Oscilamos humanamente entre o sagrado e o profano. Entre o ontem e o amanhã. Isso nos traz, como dito, todo o peso do que passou pra que façamos dele o que pudermos. Sartre diria que o homem está condenado a ser livre. Essa frase existencialista nos traz a responsabilidade do coexistir. Jesse e Celine, por certo, estão ali a refletir essa liberdade e também as conseqüências pelas suas ações. Contudo, ao fim da reflexão sobre essa trilogia sobre o tempo, vê-se que somos menos livres do que cremos e menos aprisionados do que imaginamos. Nosso existir esta entretecido com o outro, e por ele nos libertamos e nos amarramos. Isso fica bem nítido nas discussões do casal pelo filme afora. Falou-se de tempo e amor. Esse dois deuses que ora se encontram, ora não se dão. Medir é impossível tanto para um quanto para o outro. Parece que essa trilogia tratou da tragédia mesma de existir. Não se pode ver o tempo, nem tampouco o amor. Mas pode-se ver entre o amor e entre o tempo. Jesse e Celine e viram assim, no tempo e no amor. Não escolheram nem um nem outro. Não há tempo e nem amor. Só há o que inventaram de tempo e de amor. Livres e presos, felizes e tristes, à noite e no dia, ontem e hoje, misturadamente misteriosos.


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Bernardo Gomes Barbosa Nogueira é Doutorando em Teoria do Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais; Mestre em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Especialização em Filosofia pela Universidade Federal de Ouro Preto. Professor da Escola de Direito do Centro Universitário Newton Paiva.
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Imagem Ilustrativa do Post: Divulgação // Sem alterações

Disponível em: https://lazulis.wordpress.com/2013/07/07/antes-de-antes-da-meia-noite


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