Temer (e) o Machismo – Por Fernanda Mambrini Rudolfo

Temer (e) o Machismo – Por Fernanda Mambrini Rudolfo

Por Fernanda Mambrini Rudolfo – 12/03/2017

De poucas coisas tenho medo. Mas tenho medo do machismo. Porque o machismo não só faz piadas de mau gosto, interrompe falas e ocupa dois assentos. O machismo assedia, bate, estupra e mata.

E temos hoje um dos piores tipos de machista ocupando o mais alto cargo do governo brasileiro, com um nome que lhe é bem adequado: Temer. Nem mesmo quando o discurso é preparado com antecedência e dispondo da mais ampla assessoria nosso Presidente consegue proferir, sequer, palavras respeitosas. Não. Em pleno dia da mulher, conseguiu voltar no tempo e realizar um discurso compatível com a geração da minha bisavó. Aliás, talvez até ela se sentisse ofendida com a retórica barata da economia do supermercado.

Que fique bem claro que não tenho nada contra as belas, recatadas e do lar. Mas tenho contra o fato de quererem obrigar quem quer que seja a ser assim. Me imponho contra o ideal de mulher, em pleno ano 2017, ainda ser de mãe comportada, gestora da casa e acessório do marido.

Mas, acima de tudo, revolto-me contra o fato de termos um pretenso líder que sustente tais impropérios sem a menor vergonha.

Disse que seu nome lhe era apropriado: Temer. Não porque o temamos. Mas porque ele tenha muito a temer. Ele deve temer a força de todas as mulheres brasileiras, que não estão restritas às pias de suas casas nem têm ciência apenas da economia do lar, mas são muito mais capazes e inteligentes do que ele um dia sonhou ser. O poder das mulheres que ocuparam as ruas no último dia 8 de março é imensurável e todos os machistas só têm a temer.

E que fique bem claro que não há nenhuma contradição nesse texto. Comecei dizendo que tenho medo do machismo. Continuo tendo. O machismo, como instituição, é opressor e responsável por muita destruição. Mas não tenho medo do machista. Não… O machista é mesquinho, pequeno, restrito e limitado. Temer é machista e deve ter muito a temer.

Alguém que precisou de um golpe para ocupar um cargo que foi legitimamente alcançado por uma mulher deve se ressentir muito, de fato… Toda essa “masculinidade” precisa ser demonstrada menosprezando o gênero feminino, ainda que de modo absolutamente ignorante da realidade brasileira, da qual deveria ser exímio conhecedor.

As mulheres brasileiras, que vêm conquistando a duras penas cada vez mais espaço na sociedade, só têm a lamentar a postura presidencial. Mas a temer, não. Temer, só o Presidente.


Fernanda Mambrini Rudolfo.
Fernanda Mambrini Rudolfo é Defensora Pública do Estado de Santa Catarina. Doutoranda e Mestre em Direito pela UFSC. Especialista em Direito Penal e Processual Penal pela EPAMPSC. Diretora-Presidente da Escola Superior da Defensoria Pública de Santa Catarina.
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Imagem Ilustrativa do Post: 23-05-2014 Desembarque do vice-presidente Michel Temer em Joanesburgo // Foto de: Michel Temer // Sem alterações

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