Tardes quentes – Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira

Tardes quentes – Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira

Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira – 27/05/2016

“Diz uma coisa, D.J.” (…) “o que a gente sente quando vê uma mulher azul?” (…) “A gente fica como se uma lua tivesse entrado dentro da gente. Mas é preciso estar em estado de graça para ver uma ‘femme bleue’…”

O filme “La via d’Adèle” que chega ao Brasil como “Azul é a cor mais quente”, realmente é um filme que traz elementos infinitos. Não poder-se-ia dizer apenas, aliás, como sói acontecer, que o filme revela um romance entre duas mulheres e o universo que isso se nos dá na contemporaneidade. Não! O azul é mais profundo.

A narrativa inspirada em  quadrinhos adultos de Julie Maroh, que tem título homônimo à tradução do filme no Brasil, se enrosca a várias de nossas vicissitudes: o existencialismo sartreano, por vezes encenado durante a trama, a questão da arte como pano de fundo e ao mesmo tempo palco do existir, as discussões entre estruturas familiares, o problema de uma estrutura de sociedade ainda arraigada em uma heterossexualidade normativa, a discriminação, as adequações sociais, as diferenças não aceitas, os eclipses das primaveras que vivemos, e ainda, a tragédia do limiar que espreita o humano – todos estes são, de fato, elementos do filme, que unidos à uma beleza crua das personagens, Adèle (Adèle Exarchopoulos) e Emma (Léa Seydoux) com a demora da lente, exatamente naquilo que não se vê, torna o filme do diretor Abdellatif Kechiche, maior que ele, o torna, azul.

Temos que os elementos descritos acima povoam o imaginário do filme, um jovem casal de meninas descobrindo o mundo e o sexo, as trocas, as carícias, o sol, o céu, o parque e os beijos. Imaginário que decora o que a nós interessa mais nessa narrativa: o olhar, o caminho do olhar, e o que nos enche ou o que nos falta após um olhar.

Em uma das aulas de literatura, o professor de Adèle pergunta: “…quando você esbarra com alguém interessante pela rua e segue caminhando, como se nada tivesse acontecido, seria um ganho ou uma perda diante do encontro/desencontro?”. O poetinha teria de pronto essa resposta. D.J. deu a sua. Adèle buscou também. Em verdade, parece que não haveria que se discutir de ganho ou perda. A pergunta do professor reduz as possibildades infinitas do humano, do azul que é o humano. Esse infinito que se vê naquilo que D.J. chamou de “estado de graça”, e ao mesmo tempo, o que Badiou diz sobre estar enamorado que constitui o próprio filosofar.

Assim, quando os olhares de Adèle se entrecruzam com Emma, ocorre aquilo que se chama por ai tragédia. De novo, tragicamente, não há propriamente escolhas – o azul do cabelo de Emma que atravessa todo o filme, acaba por guiar os sentidos de Adèle. Seria essa inevitabilidade que D.J. chama de “estado de graça”? Seria esse encontro, em meio a tantos desencontros, a que se referia Vinícius? Enamorar-se é o que confere sentido ao existir? Olhar assim é sentir? Quando há esse encontro, não há, portanto, que dizer de ganhar ou perder. Dentro da esfera do amor, cheia de sentidos, de carne, de espírito e do que vem, não há vencedor, nem vencido. O inevitável que toma o olhar é ele mesmo quem agora dá as cartas. E se ainda quisermos pensar com Sartre, o olhar apaixonado de alguma forma aprisiona/quer aprisionar o ser amado. Estaria ai o problema do amor: querer pra si aquilo que é infinitamente outro? O outro?

No olhar de Adèle restou inscrito o azul de Emma. Nasceu, portanto, uma nova dimensão. Uma nova Emma. Dimensão que nos permite ver mulheres azuis. Diz-se aqui mulheres apenas e talvez por percebermos que a mulheridade nos assola com uma pluralidade que a singularidade, por vezes cinza, dos homens, não alcança. Não fala-se nesse filme sobre problemas de gênero, ou algo que esteja nesse patamar de discussão. Fala-se de olhar. Do nascimento dele. Do olhar cálido e quente, que cria a fantasia e se enamora por ela, transa ela. Que não quer viver sem ela simplesmente porquê o azul é sempre mais quente que as cores que existiam antes dele nascer. Em uma esquina, na rua, na criança, adolescente, adulta, no cabelo, na mulher, no homem ou na poesia da existência de uma tarde sem fim, azul. Os olhos de Emma eram azuis…


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Bernardo Gomes Barbosa Nogueira é Doutorando em Teoria do Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais; Mestre em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Especialização em Filosofia pela Universidade Federal de Ouro Preto. Professor da Escola de Direito do Centro Universitário Newton Paiva.
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Imagem Ilustrativa do Post: Divulgação // Sem alterações

Disponível em: http://cinemascope.com.br/criticas/azul-e-a-cor-mais-quente


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