Sobre botos e andarilhos – Por Esther Maria de Magalhães Arantes e...

Sobre botos e andarilhos – Por Esther Maria de Magalhães Arantes e Ruth Batista

Por Esther Maria de Magalhães Arantes e Ruth Batista – 28/03/2017

Resenha do livro: Rodrigues, Heliana de Barros Conde (2016). Ensaios sobre Michel Foucault no Brasil. Presença, efeitos, ressonânciasRio de Janeiro: FAPERJ, Lamparina, 171 páginas.

Iniciando a leitura do livro de Heliana Conde, Ensaios sobre Michel Foucault no Brasil. Presença, efeitos, ressonâncias, nos deparamos com o Prefácio de Ernani Chaves, que traz a figura do boto:

[…] esse animal que habita rios e baias amazônicas, e que, conta uma lenda, nas noites de lua cheia, travestido em um belo rapaz, todo de branco e com um chapéu escondendo seu furo no meio da cabeça, chegava a uma festa ribeirinha. E ali, pondo à prova seus atrativos, seduz a mais bela moça, tira-a para dançar, arrastando-a, definitivamente, ao final, para o fundo das águas (Chaves, 2016, p. 7-8).

Qual esse boto, Foucault não se cansou de arrastar para o fundo das águas as mais belas ideias construídas pelo pensamento ocidental: as ideias de “homem”, de “ciência do homem”, da “verdade da loucura como doença mental”, além de problematizar as prisões, escolas, hospitais e fábricas como “instituições disciplinares, expressões dos processos de normalização próprios do capitalismo” (Chaves, 2016, p. 8).

Conta Chaves (2016) que em sua visita ao Pará, Foucault, por três noites, mostrou à plateia as suas qualidades de boto, não havendo, no entanto, registro das conferências, uma vez que as fitas gravadas foram furtadas juntamente com o gravador do carro onde estavam enquanto o grupo acompanhava Foucault a um jantar, após a última conferência.

Durante algumas viagens de barco ou navio na Ilha de Marajó, relata Chaves:

[…] muitas vezes somos acompanhados por botos, que saltam na superfície. Solitários ou em bandos, eles formam um espetáculo à parte, compondo uma coreografia de esguichos e grunhidos quase inaudíveis. De vez em quando, muito raramente, aparece uma espécie desse animal que tem a pele rosa, o boto-cor-de-rosa. Quando consigo vê-lo, não posso deixar de pensar: “Eis Foucault, ele… o boto!” (Chaves, 2016, p. 14).

Não é demais lembrar que o próprio Foucault, por algumas vezes, comparou o seu modo de trabalho ao “aparecer e desaparecer de um animal aquático, um ‘cachelot’”:

Na Microfísica, o “cachelot” se torna um “boto”: “Eu agia como um boto que salta na superfície da água deixando só um vestígio provisório de espuma e que deixa que acreditem, faz acreditar, quer acreditar ou acredita efetivamente que lá em baixo, onde não é percebido ou controlado por ninguém, segue uma trajetória profunda, coerente e refletida (Foucault, 1979)” (Chaves, 2016, p. 7).

Tais imagens nos permitem compor a figura de Foucault como “boto solitário” e “boto na companhia de amigos”. No livro Foucault como o imagino, um dos mais belos textos dedicados a Foucault, Maurice Blanchot o define, às vezes, como “um homem em perigo”, ou

Em todo caso um homem a caminho, solitário, secreto e que, por isso, desconfia dos prestígios da interioridade, recusa as armadilhas da subjetividade, procurando onde e como é possível um discurso da superfície, cintilante, mas sem miragens, não alheio, como se julgou, à busca da verdade, mas dado a ver (depois de muitos outros) os perigos dessa demanda, bem como as relações ambíguas desta com os diversos dispositivos do poder (Blanchot, 1987, p. 24).

Blanchot nos dirá, ainda, que em seus últimos textos Foucault “será tentado a pedir aos Antigos a revalorização das práticas da amizade, as quais, sem se perderem, não voltaram a encontrar, senão em alguns de entre nós, a sua alta virtude” (Blanchot, 1987, p. 72).

Mas não é apenas dos povos das águas que se trata aqui, mas dos povos andarilhos, sendo Foucault um deles, se deslocando com frequência. E são essas andanças pelo Brasil, ao todo cinco, que Heliana nos conta com rara beleza e graça, incluindo os aspectos impagáveis, anedóticos, dramáticos e inesperados dessas visitas.

Assim… Foucault: não apenas um boto-cor-de-rosa arrastando as belas verdades universais para o fundo das águas, mas Foucault andarilho, andando pelas terras, ficcionando mundos outros.

Segundo Jean-François Bert, as andanças de Foucault no exterior foram constantemente evocadas por ele em suas entrevistas, tendo declarado se sentir sempre um estrangeiro, “no limite externo das relações entre saber e poder” (Bert, 2013, p. 31).

Foi o acaso que me levou em 1955 para a Suécia, em um momento no qual eu mantinha a firme intenção de passar o resto de minha vida entre duas malas, viajando pelo mundo e, mais especialmente, de nem pegar numa caneta. […] Foi na Suécia, durante a longa noite sueca, que peguei a mania e o mau costume de escrever de cinco a seis horas por dia… (Foucault, citado por Bert, 2013, p. 32).

No entanto, segundo ainda Bert, a obtenção de um posto de professor na Universidade de Clermont-Ferrand não extinguirá em Foucault o desejo de exílio, sendo que sua nomeação posterior para o Collège de France, “permitiu-lhe multiplicar suas estadas no estrangeiro” (Bert, 2013, p. 32).

Nomear Foucault desse ou de outro modo não é uma esquisitice ou singularidade nossa. Também Paul Veyne (2011) se viu tentado a fazê-lo. Segundo ele, Foucault foi, “em seu próprio testemunho, um pensador cético” – esclarecendo, quanto ao cético, que “trata-se de um ser duplo”: um peixe-vermelho e um samurai (Veyne, 2011, p. 9).

Enquanto pensa, mantém-se fora do aquário e observa os peixes que ali ficam girando. Mas como é preciso viver, ele se vê novamente no aquário, peixe ele também, para decidir que candidato terá sua voz nas próximas eleições (sem por isto dar valor de verdade à sua decisão). O cético é a um só tempo um observador, fora do aquário que ele põe em dúvida, e um dos peixes-vermelhos. Duplicação que nada tem de trágico.

No presente caso, o observador que é o herói deste pequeno livro tinha por nome Michel Foucault, aquele personagem magro, elegante e incisivo que nada nem ninguém fazia recuar e cuja esgrima intelectual manejava a pena como se fosse um sabre. É por isso que eu poderia ter intitulado o livro que se vai ler O samurai e o peixe-vermelho (Veyne, 2011, p.11).

Foucault nos deixou cedo e somos tentados a ver em suas palavras de encerramento do curso A coragem da verdade, em 28 de março de 1984, no Collège de France, uma espécie de despedida: “Bom, olhem, eu tinha algumas coisas a dizer no âmbito geral dessas análises. Mas já está tarde demais. Então, obrigado” (Foucault, 2011, p. 297).

Mas deixou registrado nos manuscritos sobre o curso, de acordo com a cuidadosa edição de Frédéric Gross:

[…] Foucault pode assim escrever estas palavras, que não terá tempo de pronunciar, mas que são as últimas que eles rabiscou na última página do manuscrito do seu último curso: “Mas aquilo em que gostaria de insistir para terminar é o seguinte: não há instauração da verdade sem uma posição essencial da alteridade; a verdade nunca é a mesma; só pode haver verdade na forma do outro mundo e da vida outra” (Gross, 2011, p. 316).

Quanto ao livro aqui em resenha, é principalmente do Foucault andarilho que nos fala Heliana nos primeiros textos, que correspondem à presença de Foucault entre nós: o “Foucault-corpo”, aquele que esteve no Brasil nos anos de 1965, 1973, 1974,1975 e 1976 – anos de ditadura civil-militar, não sem efeitos para essa presença.

Ao passo que Deleuze, dele tão próximo em outros aspectos, não via com bons olhos as viagens – “Não viajo. Por que não? Porque… as viagens dos intelectuais são uma palhaçada” (citado por Gondra e Kohan, 2006, p. 9) –, Foucault foi incansável andarilho. Aparentemente, para ele as viagens constituíam experiências desestabilizadoras, passíveis de contribuir para que forjasse novas problemáticas, conceitos e diagramas (Rodrigues, 2016, p. 20).

Assim é que Heliana recolhe os ditos de Foucault pronunciados nessas viagens, o que disseram os jornais, além do burburinho e reboliço que causou em alguns grupos, incluindo o Serviço de Informações da Ditadura:

Presença de Michel Foucault, presença de Michel Foucault no Brasil ditatorial: que geografia é essa, que ocasião e que rituais terá comportado ou mesmo exigido? Será essa a nossa visada, ou seja, a busca do que “ali e então” se deu (Rodrigues, 2016, p. 21).

Sem entrar nos detalhes dos textos, ressaltamos apenas que o Foucault andarilho não deixa de ser também boto, desta vez arrastando para o fundo das águas as verdades tão cuidadosamente acalentadas pela esquerda e movimentos sociais pós-maio de 1968, recusando-se a pensar dentro da polarização “repressão-liberação”, “ideologia-verdade”. Nesse sentido, é um primor o texto de Heliana sobre as palestras de Foucault na UERJ, no Instituto de Medicina Social, quando desconstrói certa ingenuidade nossa em opor uma medicina que seria “individual, capitalista, defendida pelos profissionais alienados versus medicina social, adversária do capitalismo, bandeira dos progressistas” – mostrando que “a medicina moderna é uma medicina social que tem como background uma certa tecnologia do corpo social” (Rodrigues, 2016, p. 81).

Ao final do livro, as análises de Heliana se deslocam para o tema da amizade, onde dedica belas palavras à Verve, já ensaiando outra pesquisa: não mais sobre o Foucault-corpo, mas sobre os Efeitos e ressonâncias do pensamento de Michel Foucault no Brasil – Modulações interdisciplinares (Rodrigues, 2016, p. 145).

E porque Verve? pergunta Heliana. “Porque essa revista universitária, em seus 13 anos de existência, jamais deixou de problematizar os usos quer de Foucault, quer do anarquismo, quer da articulação entre ambos (Rodrigues, 2016, p.145)”.

Mas Heliana não procura facilidades. Assim:

Não é fácil estabelecer relações entre Foucault e o anarquismo – se Foucault é múltiplo e jamais pretendeu ter um rosto, também são inúmeros os anarquismos e os anarquistas, bem como fadadas ao fracasso as tentativas de identificá-los (ismos e istas) em gêneros e espécies. Neste sentido optamos por dois caminhos: um estudo histórico-analítico da revista Verve, com destaque para a presença de Foucault em suas páginas; e uma breve exploração de autores contemporâneos que estabeleceram correlações entre Foucault e os “anarquistas históricos” (Rodrigues, 2016, p. 145).

Para ela, existem certos ditos e escritos de Michel Foucault privilegiados em Verve, os quais divide em três grupos e em relação com as problemáticas abordadas pela revista:

Em um primeiro grupo figuram Vigiar e punir e os pequenos textos e entrevistas que lhe estão associados, incluindo o “Manifesto do Grupo de Informação sobre as prisões (GIP)”, invariavelmente utilizados nos trabalhos de cunho abolicionista. Em um segundo grupo destacam-se os cursos Em defesa da sociedade, Segurança, território, população e Nascimento da biopolítica […]. O terceiro grupo, por sua vez, inclui os cursos Hermenêutica do sujeito, Do governo dos vivos, O governo de si e dos outros, A coragem da verdade […] (Rodrigues, 2016, p. 151).

Analisando tais ditos e escritos de Michel Foucault privilegiados em Verve, Heliana nos faz ver que entre utopias e heterotopias não há exatamente antagonismo, mas agonismo (Rodrigues, 2016, p. 154). Lembra artigos de Edson Passetti (2002, 2003) nos quais as práticas anarquistas são afirmadas “como heterotopias jamais imunes ao risco da utopização”.

Segundo Passetti,

Não há futuro, só presente, com heterotopias que reviram pelo avesso os consolos utópicos dos lugares irreais para acontecer nestes e naqueles lugares da atualidade, e por este percurso, caminho do andarilho, surpreender os itinerários dos viajantes (Passetti, 2003, p. 54, citado por Rodrigues, 2016, p. 155).

Uma andarilha… também ela! É como Passetti, que escreve o posfácio do livro, lembra as andanças de Heliana por Verve. Uma andarilha que, já na apresentação, compara seu livro a um “pequeno paralelepípedo”, ou seja, uma pedra composta de vários fragmentos do tempo histórico que os possibilitou, bem como sua escritura:

Não há como apresentar este “pequeno paralelepípedo” sem agradecer, pois, se não fossem os amigos (que por sinal também mantêm relações de amizade com Foucault), ele certamente não viria à cena: a interminável preparação da grande obra – fantasma que assombra os pesquisadores, mesmo os que se sabem selvagens – o teria adiado talvez para sempre. Este é, portanto, o livro possível sobre Foucault no Brasil: o da(s) amizade(s). É também o livro dos ensaios, ou seja, do cuidado de si no escrever e no pensar/agir. Os escritos que o compõem haviam sido editados aqui e ali, e foram apenas ligeiramente modificados – evitando repetições excessivas, mas mantendo alguma reiteração, para que possam ser apreciados em qualquer ordem, ou mesmo selecionados conforme interesses ou momentos específicos dos leitores (Rodrigues, 2016, p. 15).

Com a História Oral, o estilo de contar de Heliana se mistura às fontes escritas e orais daqueles que saborearam da presença Foucault do Brasil. A narratividade é fonte que permite que a autora leve a cabo seu intento.

Heliana, como boa andarilha que é, faz circular pegadas, rastros e fragmentos de alguns registros da história. Com a forma-organização que propõe em seu livro, permite ao leitor escolher o ritmo e a forma de passear pelos textos, conforme seu interesse, de forma não linear. De fato, a junção dos presentes ensaios mostra, antes de qualquer coisa, a tentativa da autora de não os perder na história.

Tais registros, como fios soltos aqui e ali, foram enlaçados por Heliana. Fragmentos que, antes dispersos, agora como bons companheiros, se juntam à mesma mesa para uma boa conversa. Bem sabemos que, assim como a história se atualiza, a presença de Foucault no Brasil, em momento tão particular, insiste em se atualizar também. A presença do “boto” e do “andarilho” continua a produzir efeitos e ressonâncias, além mar. É assim que essa obra chega às mãos do leitor: como uma contribuição, um convite a percorrer suas trilhas sem a priori, a construir outros caminhos e desvios, a refletir e, quem sabe, a ficcionar como bem nos diz Foucault.


Notas e Referências:

Bert, J.-F. (2013). Pensar com Michel Foucault. São Paulo: Parábola.

Blanchot, M. (1987). Foucault como o imagino. Portugal: Relógio D’água.

Chaves, E. (2016). Prefácio: Ele, o boto… In H. de B. C. Rodrigues, Ensaios sobre Michel Foucault no Brasil. Presença, efeitos, ressonâncias (p. 7-29). Rio de Janeiro: FAPERJ, Lamparina.

Foucault, M. (1979). Genealogia e poder. In Foucault, M. [Autor], Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal.

Foucault, M. (2011). A coragem da verdade. São Paulo: Editora WMF/Martins Fontes.

Gondra, J. & Kohan, W. (orgs.). (2006). Apresentação Foucault 80 anos (p. 9-34). Belo Horizonte: Autêntica.

Gross, F. (2011). Situação do curso. In Foucault, M. [Autor], A coragem da verdade (p. 301-316). São Paulo: Editora WMF/Martins Fontes.

Passetti, E. (2002). Heterotopias anarquistas. Verve2, 141-173.

Passetti, E. (2003). Vivendo e revirando-se: heterotopias libertárias na sociedade de controle. Verve4, 32-55.

Passetti, E. (2016). Posfácio: Percursos de uma andarilha. In H. de B. C. Rodrigues [Autor], Ensaios sobre Michel Foucault no Brasil. Presença, efeitos, ressonâncias (p. 165-171). Rio de Janeiro: FAPERJ, Lamparina.

Veyne, P. (2011). Foucault, seu pensamento, sua pessoa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.


Publicado originalmente na Revista Psicologia Clínica. Psicol. clin. vol.28 no.3 Rio de Janeiro  2016.


Esther Maria de Magalhães Arantes

Esther Maria de Magalhães Arantes é Normalista, pelo Instituto de Educação de Goiás (1967); Bacharel em Psicologia, pela Universidade Federal de Minas Gerais (1971); Formação de Psicólogos, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1972), Mestrado em Educação, pela Boston University (1976); Doutorado em Educação, pela Boston University (1981) e Pós Doutorado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2011). Professora do Programa de Pós Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e professora do Departamento de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3876442600525617


Ruth Batista.
Ruth Batista é Mestra em Psicologia Institucional pela Universidade Federal do Espírito Santo-UFES (2012). Doutoranda em Politicas Publicas e Formação Humana pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro-UERJ.
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