Série Cibersegurança IV – A cidadania digital é perigosa? – Por S....

Série Cibersegurança IV – A cidadania digital é perigosa? – Por S. Tavares-Pereira

Por S. Tavares-Pereira – 24/03/2017

Séries

Neste 2017, as publicações estão classificadas em séries. Veja, no pé deste post, as publicações anteriores. Hoje se dá sequência à série Cibersegurança.


Série Cibersegurança IV

A cidadania digital é perigosa?   

O leitor considera-se um cidadão digital? Usa a internet para tudo: comunicar-se, estudar, comprar, operar com bancos? Então, proteja-se porque um milhão e meio de ataques cibernéticos são disparados todos os dias contra empresas, governos e pessoas físicas. Internet escura ou profunda (dark web), buscadores e redes sociais compõem um caldo onde é necessário saber nadar de costas, como fazem os jacarés em lago com piranhas (diz o ditado). E, claro, desenvolver um bom casco e a habilidade de nadar do jeito certo é medida preliminar e indispensável. Como diz o apresentador de Antonio Salas em Os homens que sussurram às máquinas, este é um “[…] mundo que nos afecta a todos directamente. Porque alguien te espía y te roba a través de tu telefono móvil y tu ordenador…”.[1]  Por essas duas pontas devem começar os cuidados.

Em 2015, a Talk Talk sofreu um ataque vitorioso de hackers. Informações de 157.000 clientes foram surrupiadas. Entre elas, estavam informações de cartões de crédito. Diz-se que a companhia perdeu cerca de uma centena de milhares de clientes e uma receita estimada de mais de 50 milhões de libras. Com as informações obtidas, muitos fraudadores ligaram para os  clientes identificando-se como da Talk Talk (era fácil convencer o cliente porque as informações passadas eram exatas, incluindo dados restritos dos negócios feitos) e conseguiram instalar malwares nas respectivas máquinas. O que veio depois é possível imaginar: senhas quebradas, dados completos de bancos e cartões utilizados à vontade para o cometimento dos mais variados crimes. Informações preciosas chegaram às mãos de quem não as deveria receber (unwanted disclosure).

Ora, a informação disponibilizada para um fim foi usada para outro. Essa é a manobra mais comum da internet. Fornece-se a informação a determinada empresa e, após, essa informação é usada para encher as caixas de mensagens da pessoa com propagandas de todos os tipos.

Mas usos muito mais danosos podem ser feitos das informações hackeadas. Com elas, alguém pode se passar pela pessoa. Não são comuns os roubos de identidade (uma espécie de clonagem) com gravíssimas conseqüências para a pessoa clonada.

Às vezes, as informações roubadas não são suficientes para a continuidade da ação criminosa. Mas se elas servirem para levar o criminoso até você, funcionando como verdadeiras pegadas digitais, o quadro pode ser completado.  Aquelas informações disponibilizadas diretamente, e voluntariamente, no Facebook, Instagram, Twitter, correios eletrônicos e conversas, podem conter o complemento necessário para o ciberdelinquente.

Quem são seus amigos, quais produtos gosta de comprar, que lugares e quando os visitou, quais são seus contatos e qual a freqüência desses contatos, onde vive e em que bancos tem conta.

Que valor pode ter isso? Na internet, tudo é valioso. Sempre há interessados.

Uma vez instalado um malware em sua máquina, ela pode ser arregimentada para o exército de máquinas zumbis do invasor, espalhado ao redor do mundo, dedicado a práticas criminosas como pedofilia, ataques cibernéticos, espionagem etc.  Seu IP passa a ser um dos pontos de onde partem materiais e ataques, o que pode tornar sua vida um inferno. Como provar que você não foi o autor desses atos?

Portanto, a cidadania digital implica, sim, inumeráveis riscos. E requer cuidados especiais que vão da instalação de um antivírus, apesar dos incômodos que possa causar, à renúncia às ofertas irresistíveis, muitas vezes sem preço. Nada é de graça na internet ou, como repetem por aí os autores, quando você recebe alguma coisa de graça, o produto é você!  Aquele PDF de um livro maravilhoso, necessário e caro, que seu amigo lhe envia de graça, é um ótimo transmissor de malware. Na verdade, um dos preferidos. Se seu antivírus estiver desativado, ou nem mesmo existir, sua máquina estará ao alcance do delinqüente invasor.

Julian Assange[2] vê a internet como uma gigantesca máquina de espionagem a serviço do poder. A visão é parcial mas verdadeira, confirmada na atualidade por inúmeros fatos e ocorrências no mundo da disputa do poder pelo mundo. Essa idéia é completada por Edward Snowden: “mesmo que você não esteja fazendo nada de mal, o estão vigiando e o estão gravando.” [3] Com o aumento da capacidade de armazenamento e o desenvolvimento dos algoritmos de análise do big data, o Poder e os ciberdelinquentes têm condições de acessar quase tudo na vida das pessoas.

Portanto, todos terão de tornar-se cidadãos digitais. E ao fazê-lo, lançar-se-ão nesse mar de perigos e procelas. Atuar na minoração dos riscos é um grande negócio, porque o Direito ainda não tem respostas ou soluções para os problemas. Tudo está em construção, da lei à jurisprudência, no mundo inteiro.


Notas e Referências:

[1] SALAS, Antonio. Los hombres que susurran a las máquinas. Hackers, espías e intrusos en tu ordenador. Barcelona:Espasa, 2017, p.5: “mundo que nos afeta a todos diretamente. Porque alguém te espia e te rouba por meio do teu celular ou do teu computador…”. [tradução livre]

[2] ASSANGE, Julian apud SALAS, Antônio. Os homens que susurran às máquinas…, p. 7.

[3] SNOWDEN, Edward apud SALAS, Antônio. Os homens que susurran às máquinas…, p. 7.


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S. Tavares-PereiraS. Tavares-Pereira é mestre em Ciência Jurídica (Univali/SC) e aluno dos cursos de doutoramento da UBA. É especialista em Direito Processual Civil Contemporâneo pela PUC/RS, juiz do trabalho aposentado do TRT12 e, antes da magistratura, foi analista de sistemas/programador. Advogado. Foi professor de direito constitucional, do trabalho e processual do trabalho, em nível de graduação e pós-graduação, e de lógica de programação, linguagem de programação e banco de dados em nível de graduação. Teoriza o processo eletrônico à luz da Teoria dos Sistemas Sociais (Niklas Luhmann). 


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