Revolução do instante – Por Fernanda Martins

Revolução do instante – Por Fernanda Martins

Por Fernanda Martins – 28/01/2017

“Eu me lembro que um dia acordei de manhã e havia uma sensação de possibilidade. Sabe esse sentimento? E eu me lembro de ter pensado: este é o início da felicidade. É aqui que ela começa. E, é claro, haverá muito mais. Nunca me ocorreu que não era o começo. Era a felicidade. Era o momento. Aquele exato momento”.

Virginia Woolf

“Eu me lembro que um dia acordei de manhã e havia uma sensação de possibilidade.” Essas palavras inscritas no início do século XX pela mulher que virou ladrilhos na literatura reverberam com certa freqüência no meu particular ao fazer-me lembrar que os acontecimentos não são dotados de linearidade ou continuidades homogêneas, mas que a cada instante faz-se o momento revolucionário da felicidade, da possibilidade, das resistências. Nesse sentido, ao acordar no último domingo, dia 21 de janeiro, e perceber que “centenas de milhares de mulheres se mobilizaram em diversos países na Women’s March, por justiça social, direitos iguais e contra o avanço conservador no mundo sintetizado na figura de Donald Trump, agora Presidente dos Estados Unidos”[1] foi talvez o maior ato político-coletivo da história em terras do Tio Sam, certa sensação de possibilidade estava novamente ali, naqueles corpos, naquelas mulheres, naquela linguagem trazida essencialmente para dizer que estamos aqui.

Apesar de o Brasil viver um drama político próprio é impossível não reconhecer os acontecimentos mundiais que tocam o panorama nacional, ou seja, não podemos deixar de encarar de olhos atentos que a figura de Trump, a qual simboliza a presença do ódio nos discursos públicos[2], nas ruínas de políticas públicas de proteção desde o proletariado ao precariado, trata-se também de um sintoma de nosso tempo e espaço.

No contexto brasileiro em que vemos a ascensão do conservadorismo arruinando os direitos previdenciários, trabalhistas e indígenas, retrocedendo conquistas de direitos dos movimentos feministas, de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros, e que ainda propõe uma reforma do sistema prisional pautada em políticas criminais de amplo encarceramento que tocam diretamente às questões raciais, a conexão com a resistência feminista internacional deve ser campo de troca, toque, gestos e sentidos.

Angela Davis ao se pronunciar na Women’s March convocou as “centenas de milhares, de milhões de mulheres, transgêneros, homens e jovens” que lá se encontravam para representar as poderosas “forças de mudança que estão determinadas a impedir as culturas moribundas do racismo e do hetero-patriarcado de levantar-se novamente.”[3] Ao dizer que um feminismo inclusivo e interseccional “convoca todos nós a resistência contra o racismo, a islamofobia, ao anti-semitismo, a misoginia e a exploração capitalista”[4], a filósofa nos situa no contexto nacional em que resistir como feministas é pautar indissociavelmente lutas contra todas as medidas que arruínam nosso cenário de pluralidade, que desrespeita nossas singularidades, que elimina nossas conquistas e que afeta diretamente populações historicamente massacradas pelo Estado brasileiro como sujeitos das periferias, índios, índias, negros e negras, entre tantos outros.

Nancy Fraser ao realizar sua análise sobre a eleição de Trump nos Estados Unidos também nos diz muito sobre nossa realidade política nacional, apesar de toda diferença que há entre os contextos estadunidense e brasileiro. Alerta-nos que “em vez de aceitar os termos apresentados a nós pelas classes políticas, que opõem emancipação a proteção social, deveríamos trabalhar no sentido de redefini-los, tendo como apoio a crescente repulsa da sociedade contra a ordem atual. Em vez de nos aliarmos ao ideal da financeirização-com-emancipação contra a proteção social, deveríamos construir uma nova aliança entre emancipação e proteção social, contra a financeirização. Neste projeto […] emancipação não significaria diversificar a hierarquia corporativa, mas antes aboli-la. Da mesma forma, prosperidade não significaria aumento de valor acionário ou lucro corporativo, mas a disponibilização a todos os cidadãos dos requisitos materiais necessários para uma vida confortável. Esta combinação continua sendo a única resposta digna e vitoriosa na conjuntura atual.”[5]

Dessa forma, não se é possível desvincular as lutas feministas do neoliberalismo que se faz como a nova razão do mundo[6] em que estamos situadas, entendendo que jamais “teremos de nos calar sobre as urgentes questões colocadas pelo racismo e pelo machismo”, mas que o que “teremos de fazer é mostrar como estas antiquíssimas formas de opressão encontram nova expressão e terreno nos dias de hoje por meio do capitalismo financeiro.”[7]

Em um momento em que se percebe “os feminismos, as esquerdas e a ascensão social de uma parcela da população pobre”[8] como notoriamente frentes de desconstrução de privilégios, o discurso de ódio cresce como força bruta nos cenários institucional e social. E “para compreender essa ideia, convém colocar em questão que governo não representativo de Michel Temer enuncia-se como uma espécie de ditadura do ‘pater potestas’, de uma soberania tirânica que subjuga e exclui o povo dos processos governamentais. Seu governo dá espaço apenas ao homem branco capitalista, coronelista e colonialista e exclui, nesse gesto, a imensa população marcada por toda sorte de diferenças. Michel Temer vem a representar um poder de caráter antiquado. A extinção de ministérios e a retirada de representantes negros e mulheres, em outras palavras de todos os subrepresentados que se tornam agora absolutamente não representados, é a prova do tom da política atualmente imposta como um velho jogo de linguagem. Ora, quando dizemos jogo de linguagem, queremos dizer dos processos discursivos, mas não só. Tudo o que é simbólico, imaginário, todo o campo das representações, está em questão no que é dito e no que é feito, mas também no que é encenado.”[9]

Assim, se o impossível nesta tentativa de compreender para além de nós permite reconhecer a potência da diferença, que façamos do distinto nossa marca e que assim possamos (des)aprender juntas, escutando formas de resistências que atravessam desde bairros a oceanos e que não-ditam tão distintas e idênticas reivindicações. Que as marchas que já se organizam do Oiapoque ao Chuí sejam convocadas através de uma interseccionalidade em que os feminismos sejam uma “grande desconstrução epistemológica dos preceitos que imperam na sociedade brasileira”[10] e que subvertam essa sensação de impotência da revolução macrossociológica na potência do acontecimento a todo instante.

E é nessa toada de “jogar areia nas engrenagens” de poder heteronormativas, brancas e colonialistas que “mulheres brasileiras, profissionais de diversas áreas, negras, brancas, indígenas, estudantes e membros de organizações e movimentos sociais, conscientes da importância das funções exercidas” construíram e divulgam a anticandidatura da professora Beatriz Vargas (que pode ser assinada aqui https://goo.gl/forms/f2xoxIaxCpdNy0In1) como manifesto de insatisfação ao atual panorama nacional no tange as hipóteses de representação política e em especial do Supremo Tribunal Federal.

A iniciativa demonstra a relevância do papel do Estado” e indica o conhecimento claro de “que regulação dos direitos sociais sucumbe quando o capital deixa de ser publicamente regulado, a todas e todos que apoiam os movimentos de mulheres e os movimentos negros, LGBT e em defesa de trabalhadoras e trabalhadores brasileiros a assinarem este manifesto, posicionando-se publicamente contra o modelo de Estado e sociedade que está sendo implantado para atender aos interesses de uma pequena parcela da população, a todas e todos que se colocam contra o machismo e a criminalização do aborto, contra o direito penal máximo e a superlotação prisional, contra o punitivismo rotundo e o racismo que respondem pela exclusão social e pelas mortes de jovens negros e pobres, dentro e fora das prisões, contra a flexibilização e o desmonte dos direitos sociais do trabalho, contra a prevalência do “negociado sobre o legislado” – o “paraíso da insegurança jurídica” – e em favor da vida, da afirmação do Estado laico e da tolerância e em respeito à dignidade humana.”[11]

O manifesto é também a defesa de um Supremo Tribunal Federal atento à missão constitucional de guardião maior dos direitos fundamentais e sensível às necessidades de uma sociedade complexa como a brasileira, marcada pela desigualdade e pela injusta redistribuição de riquezas, e, enfim, para que o STF seja o parceiro da emancipação humana e social no Brasil, ao invés de se converter definitivamente numa ilha de conservadorismo, inacessível à grande maioria da população brasileira.”[12]

Sintamo-nos, portanto, “nos próximos meses e anos […] convocadas a intensificar nossas demandas por justiça social e nos tornarmos mais militantes em nossa defesa das populações vulneráveis. Aqueles que ainda defendem a supremacia masculina branca e hetero-patriarcal devem ter cuidado” com os levantes periféricos que ultrapassam o tom acinzentado das nossas moradas, dos nossos murados.


Notas e Referências:

[1] BORGES, Juliana. https://cronicasnabelavista.wordpress.com/2017/01/22/brevissimas-do-facebook-o-discurso-de-angela-davis-na-womens-march/

[2] BUTLER, Judith. https://www.revistapaquidermo.com/archives/13308

[3] DAVIS, Angela. https://cronicasnabelavista.wordpress.com/2017/01/22/brevissimas-do-facebook-o-discurso-de-angela-davis-na-womens-march/

[4] DAVIS, Angela. https://cronicasnabelavista.wordpress.com/2017/01/22/brevissimas-do-facebook-o-discurso-de-angela-davis-na-womens-march/

[5] FRASER, Nancy. http://jornalggn.com.br/noticia/a-eleicao-de-donald-trump-e-o-fim-do-neoliberalismo-progressista-por-nancy-fraser

[6] DARDOT, Pierre; LAVAL, Cristian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal.

[7] FRASER, Nancy. http://jornalggn.com.br/noticia/a-eleicao-de-donald-trump-e-o-fim-do-neoliberalismo-progressista-por-nancy-fraser

[8] BUTLER, Judith. https://www.revistapaquidermo.com/archives/13308

[9] TIBURI, Márcia. http://revistacult.uol.com.br/home/2016/07/a-maquina-misogina-e-o-fator-dilma-rousseff-na-politica-brasileira/

[10] TIBURI, Márcia. http://www.brasilpost.com.br/2015/12/10/marcia-tiburi-feminismo_n_8773774.html

[11] Anticanditadura da profa Beatriz Vargas ao STF. https://goo.gl/forms/f2xoxIaxCpdNy0In1

[12] Anticanditadura da profa Beatriz Vargas ao STF. https://goo.gl/forms/f2xoxIaxCpdNy0In1


Fernanda Martins.
Fernanda Martins é Mestre em Teoria, Filosofia e História do Direito pelo Programa de Pós-graduação em Direito da Universidade Federal de Santa Catarina. Professora substituta na Universidade Federal de Santa Catarina e professora na Universidade do Vale do Itajaí.
E-mail: fernanda.ma@gmail.com
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Imagem Ilustrativa do Post: Women’s March // Foto de: Tom Hilton // Sem alterações

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