Cinema: Questão de Honra – Por Luiz Ferri de Barros

Cinema: Questão de Honra – Por Luiz Ferri de Barros

Por Luiz Ferri de Barros – 07/06/2016

Filme de 1992, Questão de Honra narra um julgamento, pela Justiça Militar, de um cabo e um soldado, acusados de matar outro soldado na Base Naval de Guantánamo, em Cuba, onde os três serviam. Dirigido por Rob Reiner, o filme prende a atenção pelo elenco, que reúne atores famosos e carismáticos nos principais papéis: Tom Cruise e Demi More (os advogados de defesa), ainda bem jovens, como os heróis protagonistas; e Jack Nicholson (o comandante da base militar onde se deu o crime), como o principal antagonista. Um bom time de atores coadjuvantes, como Kiefer Sutherland e Kevin Bacon, completam o competente casting.

Analisada de forma isolada, a primeira impressão conclui pelo artificialismo e pela improbabilidade da história, que é contada de forma maniqueísta, e caricata – em especial na caracterização do personagem de Tom Cruise no início do filme e na forma como se dá o embate entre os jovens advogados e o comandante da base. No entanto, passados não muitos anos, fatos acontecidos na base americana de Guantánamo, em sequência à guerra do Iraque, vieram a demonstrar que nunca são demasiado irrealistas as obras ficcionais relacionadas aos horrores da guerra e aos profissionais da guerra.

Mas, mesmo se não encontramos realismo na película, em muito deformada pelo já mencionado maniqueísmo e pelas tintas da caricatura, nela encontramos características típicas do cinema hollywoodiano que são apreciadas pelo público. A principal é a transformação de dramas em thrillers: neste aspecto, o roteiro assinado por Aaron Sorkin consegue, a partir de uma peça de teatro, de sua própria autoria, criar suspense e gerar a sensação de estarmos diante de um filme de ação, e com muitas passagens feitas sob medida para emocionar.

O enredo dramático sustenta-se em dois eixos: de um lado explora a milenar narrativa arquetípica de David e Golias, com o jovem tenente advogado posto a enfrentar o coronel comandante da base militar, poderoso oficial em ascensão, prestes a ser promovido para a chefia do Conselho de Segurança Nacional.

De outro lado, o drama expõe a ambiguidade da nação americana quanto à forma como são vistos seus militares, caracterizada, principalmente desde a guerra do Vietnam, por intenso conflito de valores, a partir da percepção de que os mocinhos nem sempre se comportam como anjos, heróis impolutos, desta forma, para proteger os valores americanos, agindo em desacordo com esses mesmos valores.

Simbolizando essa dicotomia entre a expectativa civil da conduta ética irrepreensível dos militares, representada nos regulamentos oficiais das Forças Armadas, e a realidade do campo de batalha, o cerne da disputa judicial que se dá na Corte Marcial em que são julgados os dois mariners gira em torno da existência sim, ou não, na base de Guantánamo, de um assim denominado Código Vermelho, uma forma de punição física violenta e vexatória a que eram submetidos os soldados à mínima infração disciplinar.  Esse código sustentava-se noutro, um Código de Honra, cuja expressão resumida era: Unidade, Tropa, Deus, País, pregando a obediência cega aos superiores.

Desde a primeira cena do filme sabe-se que os dois soldados atacaram seu colega, levando-o à morte e, pouco depois, fica evidente que isto se deu devido à aplicação de tal Código Vermelho. De tal sorte que, confiando-se na vitória do herói, o suspense do filme reside na forma pela qual será provado que os soldados agiram cumprindo ordens.

Sem dispor de provas de qualquer natureza, o embate entre Tom Cruise e Jack Nicholson, o advogado e o comandante, será um embate psicológico, terreno perigoso para o advogado, posto que afronta a hierarquia, pois ele é um tenente e o outro, coronel.

Não há destaque a ser feito quanto à fotografia do filme, salvo ressaltar uma cena com extraordinária evolução de fuzis por um pelotão de fuzileiros navais em traje de gala, enquanto passam os créditos iniciais.


Originalmente publicado na Revista da OAB/CAASP.


Luiz Ferri de Barros é Mestre e Doutor em Filosofia da Educação pela USP, Administrador de Empresas pela FGV, escritor e jornalista.

Publica coluna semanal no Empório do Direito às terças-feiras.

E-mail para contato: barros@velhosguerreiros.com.br.


Imagem Ilustrativa do Post: End of an era // Foto de: Nic McPhee // Sem alterações

Disponível em: https://www.flickr.com/photos/nicmcphee/13668736373

Licença de uso: http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/legalcode


O texto é de responsabilidade exclusiva do autor, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Empório do Direito.