Quem manda sou eu! – Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira

Quem manda sou eu! – Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira

Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira – 10/06/2016

Estômago”. Filme nacional de Marcos Jorge é um convite à habitação da vida humana sem rodeios. Esses dizeres são provados exatamente porque no filme o que se vê é uma crônica da vida cotidiana temperada por comédia, tragédia, sexo, comida e poder.

Raimundo Nonato (João Miguel) é quem nos convida a esta vigem pelo interior do corpo humano. Há uma idéia que em Platão já víamos: a de compreender a cidade como se fosse o corpo humano. Essa idéia é mostrada pelo diretor, que em próprias palavras, inicia o filme na boca da personagem principal e termina em sua bunda. Fazendo o percurso natural da comida. Esse mote realista é que conduz quem se dispõe a sentir no estômago a realidade da existência.

Poderíamos ler a trama como uma estória de ascensão de um retirante que chega como indigente na cidade grande e aos poucos se vai inscrevendo na história da cidade. Essa história de melhoria na vida de Raimundo Nonato passa pela leitura da realidade de várias outras formas de existir que não são contadas, apenas compõem um cenário maior de quem domina o poder. O poder de dizer a história.

Essa brecha sobre o poder claramente está dentre as melhores percepções acerca da obra. Ora, Raimundo Nonato, por intermédio de uma sensibilidade culinária, deixa de ser um mero ajudante de cozinha em um bar suburbano, para se tornar um cozinheiro conhecido pela sua marca. Assim inicia o processo de ascensão e decadência de sua vida, que na trama é contada simultaneamente entre as ações presentes e futuras a partir de uma atitude que culmina com o final do filme. Essa maneira de mostrar a vida de Raimundo, aliás, cai muito bem.

Assim, quando o cozinheiro se torna notável pelas coxinhas que faz, consegue sua primeira mulher na cidade grande – “fisga” pela boca. “O peixe também morre pela boca”. Veremos se isso se aplicará a Raimundo. Depois da primeira mulher, o primeiro trabalho decente. As primeiras aulas sobre vinho e como preparar pratos sofisticados. A percepção de Raimundo não é mais a mesma, também são outras as habilidades adquiridas e, por conseguinte, as intenções.

Um filósofo disse uma vez que “saber é poder”. Nonato agora possuía uma identidade. Era um cozinheiro. Retirante ainda, ingênuo a ponto de querer se casar com uma “puta”. Matar por ela. E assim o fez. Matou seu antigo patrão. A mistura da vontade de poder, com o ciúme pela “traição” de “sua” prostituta não ficaria impune. Do mesmo jeito, ganhava a confiança do ”chefe” da cela em que ocupava já o cargo de cozinheiro.

Mudou de vida o cozinheiro. Deixou de ser ajudante de um bar horrível. Tornou-se cozinheiro de um restaurante de nível mais elevado. Conseguiu mulher. Conseguiu o respeito dos vendedores do mercado. Galgou um andar mais no beliche da cadeia. Mas o poder intoxica. Raimundo Nonato foi intoxicado.

Não bastava mais ser subordinado do “chefe” da cela. Pois ele era quem determinava o que as pessoas iriam comer. Assim, o ditado de  que o “peixe morre pela boca”, não fora pra Nonato, mas pro agora falecido”chefe” da cela, morto pela veneno que Nonato colocara na comida. O poder não tem fim. Há manipulações diversas. Inclusive através da comida.

O filme imprime um mal estar ao mostrar que toda a variedade e singularidade, depois de passar pelo estômago, são perdidas. Daí percebermos que aquele que detém o poder tem mesmo a visão do produto final. Ou seja, quem domina, seja pela comida, seja pela guerra, não enxerga a singularidade do prato, do humano, vê apenas a homogeneidade que o estômago transforma. No estômago vê-se exatamente o resultado das ações de poder. Lá não há rostos, apenas coisas disformes, prontas para serem evacuadas.


.
Bernardo Gomes Barbosa Nogueira é Doutorando em Teoria do Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais; Mestre em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Especialização em Filosofia pela Universidade Federal de Ouro Preto. Professor da Escola de Direito do Centro Universitário Newton Paiva.
.


Imagem Ilustrativa do Post: Divulgação // Sem alterações

Disponível em: http://www.estomagoofilme.com.br/imprensa.htm


O texto é de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Empório do Direito.