Ponos e o dilema da escolha da criança a salvar – Por...

Ponos e o dilema da escolha da criança a salvar – Por Tiago Gagliano Pinto Alberto

Por Tiago Gagliano Pinto Alberto – 28/03/2017

“Sou um homem doente… Um homem mau. Um homem desagradável. (…) Naturalmente, não vos saberei explicar a quem exatamente farei mal, no presente caso, com a minha raiva.”[1]. Estas foram as últimas linhas que leu Ponos[2] antes de ser chamado pelo carcereiro. Agora as repetia mentalmente, como que um mantra utilizado para se lembrar quem ele realmente era. “Mau, doente, desagradável”, era o que dizia a si mesmo não desde agora, mas há muito, pelo menos dez anos em que estivera recolhido, ainda em cadeia pública, aguardando um julgamento definitivo, que jamais ocorreu, do seu delito. Dado o largo tempo de prisão, ele mesmo já não tinha certeza de quem era, ou o que era, para ser mais preciso. Vira tudo o que se poderia ver nesse tempo: homens que julgava de índole má, que sentiam prazer com o cometimento do crime; pessoas boas que se viram na contingência de cometer um crime por algum motivo específico; apaixonados doentes, capazes de tudo por amor; desinteressados na vida, daqueles que matavam e feriam sem um motivo específico; entre outros.

Ele mesmo, contudo, não conseguia se categorizar. Não entendia como pudera estar tanto tempo preso, à espera de um julgamento, se desde o crime em si até agora, quando era chamado pelo carcereiro para enfim saborear uma vez mais a liberdade, ainda se convencia de que fizera o correto, que tomara a decisão acertada e que, enfim, se lhe pusessem na mesma situação e momento, agiria da mesma maneira, mas que, não obstante, não o impedira de cometer um delito.

Era um dia quente, desses que o só mover-se já gera suor e o esgotamento ao final do trabalho se encontra mais acentuado pelo calor do que pelo esforço em si. O mês era janeiro e o local, um pequeno lago próximo à indústria em que trabalhava como auxiliar de produção, responsável por atividades manuais, únicas que conseguira ser contratado para realizar em virtude da sua educação, que se limitava ao incompleto primeiro grau. Lembrou-se, ao sair de seu local de trabalho após um extenuante dia, que gostava bastante do que fazia, embora o salário não fosse bom e tivesse que dormir ao menos duas a três noites por semana em algum banco de praça próximo à fábrica, já que preferia enviar dinheiro a sua esposa e filhos que viviam no interior, ao gastar com os quatro ônibus e um trem até a sua casa; preferia assim, afinal, os seus meninos menores estavam muito bem na escola, em especial a pequenina de três aninhos, e, por isso, mereciam cadernos, lápis e canetas novos.

Absorto nestes pensamentos e considerando que essa era uma das noites em que dormiria em algum lugar na cidade para, no dia seguinte, voltar ao trabalho, resolveu parar um pouco naquele pequeno lago próximo à indústria para se refrescar um pouco. Parece que havia uma brisa naquele lugar; algo capaz de lembrá-lo de casa, da sua rede no interior e das conversas em família ao final de um modesto, porém feliz jantar.

Foi nesse momento em que ouviu o primeiro grito. Parecia uma criança, uma pequena criança, dada a voz estridente. Apressou-se em levantar para ver se podia identificar a origem do grito. Foi, então, quando ouviu o segundo grito, um pouco mais grave, parecendo vir de outra pessoa, também criança, porém mais velha. Já desesperado, fincado na realidade após sair de seu pequeno sonho desperto, correu para a margem do lago e, ao longe, viu duas crianças que pareciam estar se afogando. Sem pensar em mais nada, nem mesmo que não sabia muito bem nadar, jogou-se desesperadamente no lago e pôs-se a tentar alcançar as crianças.

Uma delas estava mais próxima e, portanto, podia ser alcançada logo; a outra, um pouco mais distante. Seu pensamento, então, foi objetivo: alcançar a mais próxima e depois buscar a outra, mais distante. Isso parecia o mais adequado a fazer, até mesmo porque a criança mais próxima era visivelmente menor do que aquela mais distante e, pelo seu raciocínio lógico, teria que ser salva primeiro mesmo.

E assim executou a sua ação. Nadando um tanto sem jeito, aproximou-se da primeira e, já bem próximo, tentou alcançá-la, quando percebeu que o seu pezinho estava preso a algo no fundo do lago. Por mais que puxasse, não conseguia soltá-lo e a criança, entre gritos desesperados e tosses decorrentes da água que engolia, tampouco conseguia soltar o pé, parecendo que afundava ainda mais como consequência de cada tentativa. Ponos mesmo já se encontrava em dificuldades, uma vez que também não sabia muito bem nadar e, naquela situação, tampouco qual a melhor atitude a tomar. Já tendo engolido ele mesmo muita água e sem conseguir pensar direito, estava dividido entre continuar a tentativa de salvamento daquela menina, de não mais do que cinco anos de idade, ou dirigir-se à outra criança, para tentar salvá-la. Alcançar as duas parecia impossível, já que não estavam próximas.

Ele estava desesperado e tudo parecia piorar, considerando que também já havia engolido muita água e logo precisaria de ajuda. O pé da menina não se desprendia e ela a cada momento engolia mais e mais água. Sair dali implicaria deixá-la morrer, sem dúvida; estaria afogada quando, e se, conseguisse voltar para buscá-la. Mas, de outro lado, ficar ali também resultaria na morte da outra criança, cujos gritos já até diminuíam à proporção do iminente afogamento.

Ponos, então, olhou firme nos olhos da menina, que lhe encarou com um semblante desesperado, e disse: “Aguente. Já voltarei. ” A menina, nesse momento, sabia que não resistiria e, por isso, não quis largá-lo; quase com tanta força quanto tentava puxar o seu pé, segurava na camisa de Ponos, implorando que não a deixasse. Ele, contudo, acreditando que, nas circunstâncias, tomara a decisão correta, empurrou a mãozinha da menina e, desvencilhado, nadou até a outra criança, que felizmente conseguiu agarrar e pôr em seus braços para nadar de volta. Retornando, porém, não encontrou mais a menina, que havia submergido e não mais voltara a gritar.

Na margem, ao retornar, algumas pessoas já se assomavam no local. Alguém havia também ouvido os gritos e chamado polícia e bombeiros, que agora, somente quando conseguiu alcançar a terra firme, chegaram. Ao contar o que ocorrera, Ponos foi imediatamente preso, sob a alegação de que teria dado causa ao afogamento da menina menor. “Como pode”, explicou professoralmente o delegado, “colocar-se em uma situação de garante e não implementar o salvamento completo de todas os infantes de tenra idade? ”. Ponos não entendeu muito bem o que ele quis dizer, mas também se sentia culpado; afinal, a menina morrera…

Dessa maneira, terminou encarcerado, embora jamais julgado, personagem principal que era de um processo que, não se sabe bem por qual motivo, acabou esquecido em algum armário de um empoeirado cartório criminal daquela Vara única da comarca, até que um juiz de nome curioso, algo grego, o descobrira e, dizendo que o processo estava encerrado, alguma coisa a ver com trancado, embora não entendesse bem o que isso significava, mandou soltá-lo imediatamente.

Agora, chamado pelo carcereiro para sair da prisão e alcançar novamente a liberdade, não sabia o que fazer. Já não tinha o seu antigo emprego e dificilmente encontraria outro; não sabia o que ocorrera com a sua família, já que não havia como ter contato enquanto preso; não tinha sequer dinheiro para voltar à sua cidade de origem; e, para piorar, mesmo passados dez anos do ocorrido, ainda se lembrava da voz da menina que se afogava, seus gritos, tosse e como o agarrava, pedindo que não a deixasse.

A essa altura, Ponos só tinha uma certeza: era um homem doente, mau e desagradável…

Abraços a todos. Compartilhem a paz.


Notas e Referências:

[1] DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memória do subsolo. Tradução de Boris Schnaiderman. São Paulo: Ed. 34, 2000, p. 15.

[2] Filho de Éris, era considerado, na mitologia grega, a tradução do desânimo e da fadiga.


Confira a obra de Tiago Gagliano Pinto Alberto publicada pela Editora Empório do Direito:


thiago galiano

Tiago Gagliano Pinto Alberto é Pós-doutor pela Universidad de León/ES. Doutor em Direito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Professor da Escola da Magistratura do Estado do Paraná (EMAP). Professor da Escola da Magistratura Federal em Curitiba (ESMAFE). Coordenador da Pós-graduação em teoria da decisão judicial na Escola da Magistratura do Estado de Tocantins (ESMAT). Membro fundador do Instituto Latino-Americano de Argumentação Jurídica (ILAJJ). Juiz de Direito Titular da 2ª Vara de Fazenda Pública da Comarca de Curitiba.


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