Os sentidos dos acontecimentos, o acontecimento vida – Por Léo Rosa de...

Os sentidos dos acontecimentos, o acontecimento vida – Por Léo Rosa de Andrade

Por Léo Rosa de Andrade – 19/07/2017

Na nossa Tradição Ocidental a vida não foi valorada pela vida mesma. Ocorrem-me três modos de valorar a vida: pelo seu reconhecimento e gozo, como uma função para alcançar um fim, como um sentido dado.

Os gregos entendiam a vida como um evento entre os eventos do Universo. Tudo estaria determinadamente ordenado num Cosmo absoluto e eterno. Ou se sofria a própria condição de vida, ou se a gozava.

Os estoicos buscavam a imperturbabilidade, a extirpação de toda e qualquer paixão, a aceitação resignada da condição do mundo e no mundo. Pregavam e praticavam uma ética da conformação ao estado de coisas vigente.

O gozo da vida epicurista afastava as preocupações com a morte. Cultuava a ética da reflexão inteligente: posto que o mundo é coisa dada, desapaixonadamente vivam-se os seus prazeres, e mais não pode ser feito.

O viver, pois, ao tempo do auge grego, conforme suas principais correntes filosóficas, resumia-se à abdicação dos ímpetos humanos, seja resignando-se, seja comedindo o usufruto do estar vivo.

O estoicismo é a matriz ideológica do cristianismo, daí, pois, está subjacente à nossa civilização. É verdade que os cristãos acrescentaram um valor à vida, mas só o fizeram para pôr o viver a favor de uma causa.

A vida em si não é um valor para a cristandade. Mais do que viver resignadamente, o cristianismo pede um viver em sacrifício por uma causa futura e de outro mundo, alienando o tempo e o lugar da existência concreta.

Eis a causa: a humanidade teria um pecado de origem, sofrendo, em decorrência, condenação à ruína eterna. A divindade cristã veio à terra para o resgate dos humanos. A promessa de redenção pede uma ética.

O divino, sacrificou-se pela humanidade; a humanidade, então, lhe é tributária de eterno sacrifício. A dívida não seria exigível (livre arbítrio). Todavia, em não a pagando, o humano padecerá de inacabável castigo.

Essa cilada capturou a História por quase dois milênios. E ainda respinga efeitos: muita gente vive a vida como tarefa para viver noutro tempo e lugar. Esse modo de pensar nega a historicidade dos acontecimentos.

Só o marxismo pôs as coisas no lugar: a humanidade é produção da história dos humanos; a história dos humanos é produção da humanidade. Acontece que os marxistas fizeram do marxismo uma religião.

Para o marxista ortodoxo a vida tem o sentido dado pelo modo de produção vigente. Sartre, marxista ressabiado, sabia que a vida não porta sentido, ainda que a existência (incluído o modo de produção) preceda a essência.

Para Camus, ademais de a vida não ter sentido, estar vivo é um acontecimento absurdo. Sartre e Camus eram existencialistas. O primeiro queria construir sentidos com engajamentos; o segundo não abraçava ideais.

Pergunto-me: o quanto do viver vem do animal (Darwin)? E o quanto é pautado pelo que não nos sabemos (inconsciente, Freud)? Seguramente, estamos um tanto entre o bestial contido e os conteúdos recalcados.

O animal absurdo refreado pela sociedade procurando sentido para a vida: angústia. Perdido em si, sem respostas; perdido na História, que não leva a lugar algum. O humano pode ser maior do que a condição humana?

A humanidade como massa é enquadrada em sistemas: de produção, de crenças, de legalidade, de diversão, de disciplina, de consumo, de ensino. Sistemas de poder que se referenciam, se legitimam e se suportam mutuamente.

Sistemas produzem ideologias, oferecem modos de pensar. Modos sistemáticos de pensar fortalecem sistemas de dominação. A humanidade consome modos produzidos de viver como se vivesse o sentido de vida.

A humanidade disciplinada (Foucault) ainda demanda explicações conclusivas para os acontecimentos, incluindo a vida. A humanidade pensa que a vida é um acontecimento à parte dos acontecimentos gerais. Engana-se.

Estoicos nos fizeram objetos passivos do Cosmo; cristãos nos fizeram objetos culpados da sua divindade; marxistas nos fizeram objetos dialéticos da História; psicanalistas nos advertem que não nos sabemos de todo.

Existencialistas indagam: agora que sabemos de tudo isso, o que faremos? Bem, somos um acontecimento como outro qualquer, mas adquirimos consciência. Humano é o que tem consciência das circunstâncias (Sartre).

Podemos fazer acontecer sobre os acontecimentos. Não obstante, há quem debite a vida em crendices, como há quem a consuma em consumismos baratos, ainda que caros. São vidas entre igrejas e shoppings.

Estilística da existência (Foucault); fazer consigo sobre o que consigo foi feito (Sartre); vida como obra de arte (Nietzsche). Vida prazerosa (Epicuro). Sofisticar o acontecimento vida. Mais não há, nem há causa de haver.


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Léo Rosa de Andrade é Doutor em Direito pela UFSC e Professor da UNISUL (SC).
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