Os dois lados da moeda: a sociedade do consumo e a sociedade...

Os dois lados da moeda: a sociedade do consumo e a sociedade do trabalho – Por Iury M. Honorato Ferreira da Silva

Por Iury M. Honorato Ferreira da Silva – 23/06/2016

É um instigante desafio identificar fissuras nas estruturas das sociedades contemporâneas. Nesse momento, vamos delinear breves apontamentos, de maneira livre, sobre dois símbolos do sistema capitalista, resultantes da evolução e aprimoramento da economia de mercado: a sociedade do trabalho e a sociedade do consumo.

A fim de não perdermos de vista a umbilical relação entre essas facetas da nossa sociedade, é necessário, portanto, relembrar e salientar alguns elementos que provocam a coexistência dessas duas lógicas. Hoje em dia, trabalho e consumo são os principais fatores de sociabilização, identificação e pertencimento, realização pessoal, status social, etc.

O sistema:
Com uma das mãos rouba o que com a outra empresta.
Suas vítimas:
Quanto mais pagam, mais devem.
Quanto mais recebem, menos têm.
Quanto mais vendem, menos compram.[1]

Reagindo à provocação de Eduardo Galeano no fragmento acima, percebemos que a tais fatores de sociabilização – trabalho e consumo – estão incutidos em uma lógica perversa de degradação do ser humano. O trabalho pode proporcionar subsistência, mas os salários-mínimos não são suficientes para satisfazer as necessidades básicas e, simultaneamente, acessar bens de consumo. A mídia e a publicidade cumprem papel fundamental nesse sistema: disseminam às necessidades do mercado como necessidades humanas. Não há escapatória fora da rota trabalho-consumo que não a marginalização.

Para uma abordagem um pouco mais completa historicamente, vamos dar alguns passos atrás, talvez alguns séculos.

A transformação da força de trabalho em mercadoria é considerada por muitos uma das condições para o surgimento do capitalismo moderno. Atenção ao simbolismo aqui presente: o sistema estruturou-se nos ombros da classe trabalhadora, comprando sua força de trabalho à custo de nada. Eis uma anedota: talvez em algum momento o vendedor da própria força de trabalho seja até mesmo capaz de adquirir algum dos pertences saídos da sua linha de produção.

“Gentes pobres e laboriosas, muitas das quais suportando o fardo e o encargo de mulheres e filhos numerosos e que nada mais possuem além do que podem ganhar com o trabalho das suas mãos.”[2]

Após esse período de afirmação da economia capitalista (séc. XVI ao XVIII), o trabalho torna-se o fator que conecta toda a sociedade. Encarado como relação social fundamental, foi denominado por Dominique Meda como “fato social total” [3], ou seja, um elemento que confere razão à estrutura social, política e econômica.

O Estado de bem-estar social, por sua vez, tenta reconfigurar as relações de trabalho. Atribui às relações empregatícias a função de propiciar a distribuição de renda. De acordo com Robert Castel: “O emprego foi o ‘suporte’ até recentemente garantidor da inclusão social e por extensão de uma autonomia emancipadora”[4]. Contudo, as sucessivas crises do sistema e as investidas neoliberais demonstram que há mais pedras meio do caminho: as taxas de desemprego e desigualdade cresceram exponencialmente nos últimos anos.

É nesse contexto que nos voltamos para a sociedade do consumo, a qual se choca com a sociedade do trabalho gerando um segundo grau de exploração humana. Os rendimentos advindos do trabalho agora se destinam à retroalimentar a cadeia produtiva.

Além disso, os bens de consumo possuem cada vez mais carga significativa moral e cultural. Somos caracterizados a partir de que roupas usamos, lugares em que nos alimentamos, onde moramos, qual meio de transporte usamos, entre outros. Em seguida, o conflito social visível a olho nu: pânico pela popularização dos aeroportos e pânico pelos “rolezinhos” em shoppings centers.

Diante da imprevisibilidade desse sistema, seja quanto à sua superação ou quanto ao seu colapso, resta-nos um exercício reflexivo. Para tanto, utilizaremos o episódio “Fifteen Million Merits” da série televisiva Black Mirror (não tema spoilers).

Situado em uma distopia futurística, o episódio tem por escopo satirizar os programas de entretenimento. No cenário principal, as pessoas devem trabalhar pedalando em bicicletas que geram energia. O pagamento é realizado em uma moeda chamada “Mérito”. As personagens são rodeadas a todo momento pelos filmes publicitários que só podem ser ignorados mediante o pagamento de alguns méritos. A única possibilidade de ascensão social é a participação nos reality shows dos comerciais e, portanto, passar a ocupar o outro lado do sistema, servindo de entretenimento.

Para as personagens do episódio, inexiste escolha acerca de qual tipo de trabalho realizar, sendo relegadas a pedalar infinitamente. A publicidade massiva e incessante determina as alternativas sobre como gastar a remuneração. Até mesmo durante o período de trabalho, ou seja, pedalando, são obrigados a visualizarem os anúncios.

É assim que ocorre a manutenção da sociedade do trabalho e da sociedade do consumo em Fifteen Million Merits: não há senso de coletividade no trabalho e não há senso de realização pessoal fora do consumo. Quem coordena esse sistema e se beneficia dele sequer é visto.

Black Mirror tem como proposta levar elementos culturais e sociopolíticos atuais ao limite, radicalizando-os, especialmente no que se refere à tecnologia. Pautados pelo poder econômico, o trabalho e o consumo possuem uma relação de interdependência. A partir desses dois aspectos da nossa sociedade, qual será o nosso caminho?


Notas e Referências:

[1] GALEANO, Eduardo. O Livro dos Abraços. Tradução: Eric Nepumoceno. 9ª ed. Porto Alegre: L&PM, 2002, p. 60.

[2] “Eis uma excelente descrição do proletariado moderno, extraída de uma petição do fim do século XVI, redigida em Leiden (na Holanda).” MANDEL, Ernest. Introdução ao Marxismo. Tradução: Mariano Soares. 2ª ed. Porto Alegre: Renascença, 2015, p. 42.

[3] MÉDA, Dominique. Le travail: une valeur en voie de disparition. Paris: Aubier, 1995.

[4] CASTEL, Robert. Estamos constituindo uma sociedade de “precariados’. Instituto Humanitas Unisinos, 24 maio 2007. Disponível em: <http://www.ihu.unisinos.br/564615-estamos-constituindo-uma-sociedade-de-precariados-afirma-robert-castel>. Acesso em: 17 jun. 2017.


Iury M. Honorato Ferreira da Silva.
Iury M. Honorato Ferreira da Silva integra o grupo Teorias Sociais do Direito na Unilasalle, em Canoas/RS. Graduando em Direito na Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Unisinos, São Leopoldo/RS. Pesquisador e bolsista Pratic/Unisinos junto ao grupo Direito e Teoria Crítica, coordenado pelo Prof. Dr. José Rodrigo Rodriguez.
.


Imagem ilustrativa do post: Un rato al sol… // Foto de: tepena // Sem alterações.

Disponível em: https://www.flickr.com/photos/79886033@N02/7974605757

Licença de uso: http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/legalcode


O texto é de responsabilidade exclusiva do autor, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Empório do Direito.