O pensamento espetacular de Guy Debord – Por Carla Froener Ferreira

O pensamento espetacular de Guy Debord – Por Carla Froener Ferreira

Por Carla Froener Ferreira – 25/08/2017

Coordenador: Marcos Catalan

Neste ano de 2017, a obra intitulada “Sociedade do Espetáculo”[1] de Guy Debord completa 50 anos. Diante da importância de seu texto e da atualidade de suas críticas, nada mais justo do que tecermos algumas considerações sobre a vida e o pensamento deste autor.

Nascido em Paris, no ano de 1931, além de filósofo, agitador social e cineastra, Debord é considerado como um dos percussores do movimento contestatório que eclodiu na França em maio de 1968. Trata-se de um crítico mordaz do domínio da imagem e da sociedade capitalista, dedicado a revigorar a teoria e a prática marxistas, em um contexto de rápida modernização da França após a Segunda Guerra Mundial e explosão do consumo nos anos 60.

Debord afirma em seus escritos que o mundo contemporâneo, inserido no sistema capitalista avançado, experimenta uma “sociedade do espetáculo”, como resultado da dominação da economia sobre a vida social. Enquanto a primeira fase desta dominação converteu o “ser”, no “ter”, a fase atual representa a hegemonia do “parecer”. Não importa mais “o que se é” ou “o que se tem”, mas a imagem que se transmite, “o que se parece ser ou ter”. Por este motivo, a aparência predomina na “sociedade do espetáculo”.

Observa, ainda, na sociedade contemporânea, a divisão entre “imagem” e “realidade”, sem existir uma oposição, pois a “realidade surge no espetáculo e o espetáculo é real”. Mais do que isso: o espetáculo inverte o real e é vendido como produto, enquanto a realidade vivida é materialmente invadida pela contemplação do espetáculo. Em outras palavras, o mundo real se transforma em simples imagens, já essas simples imagens tornam-se seres reais e motivações eficientes de um comportamento hipnótico.

Assim, a imagem em Debord representa a “superficialidade da simples aparência”, que reduz a complexidade das coisas apenas ao visível. O resultado disso tudo é a alienação das pessoas, que se tornam meros espectadores.

O autor mostra-se preocupado com a supressão da consciência de classe na sociedade do espetáculo. A ideia de que todos são iguais e capazes de consumir a mesma coisa é claramente uma ilusão. O valor do trabalho sublimado na forma do dinheiro, uma construção abstrata que impede antiga mensuração baseada na força despendida ou nas horas trabalhadas, perpetua um sistema baseado na desigualdade, que é o capitalismo.

Como dizer que todos consomem da mesma forma, se o acesso ao consumo é dado pelo dinheiro, e o dinheiro é distribuído de maneira desigual? Como afirma Debord em sua obra, o “espetáculo reúne o separado”, pois todos são considerados consumidores, mas “reúne como separado”, já que o acesso aos bens de consumo é desigual e permanecem as diferenças de classe.

Nesta dinâmica, a economia domina completamente a vida humana, que passa a ser mediada por imagens que se misturam à realidade, sob os desígnios do capital. O capitalismo contemporâneo, segundo Debord, quer criar nas pessoas “pseudonecessidades” a serem consumidas, capazes de movimentar as engrenagens da economia. Assim, cria-se a figura do “consumidor-espectador”, que permanece impassível frente ao contexto social e as consequências de suas ações, reduzindo-se ao comportamento hipnótico de “consumir” (produtos, serviços ou até mesmo ilusões) repetidamente, sem qualquer limite, em uma tentativa de capturar a felicidade.

Debord faleceu em 1994, mas, como pode ser concluído pela análise feita acima, a atualidade de seu pensamento aumenta com o passar do tempo e os novos artifícios do capitalismo. Vivemos em uma sociedade de consumo, na qual a economia não busca apenas suprir as necessidades básicas humanas, mas se baseia na produção e consumo massificado de produtos e serviços que são vendidos com o único objetivo de manter o sistema econômico dominante.


Notas e Referências:

[1] DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Trad. Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

FREDERICO, Celso. Debord: do espetáculo ao simulacro. MATRIZes, São Paulo, ano 4, n. 1, p. 179-191, jul./dez. 2010.

FREIRE FILHO, João. A sociedade do espetáculo revisitada. Revista FAMECOS, Porto Alegre, n. 22, p. 33-46, dez. 2003.

SOUZA, Daniel Maurício Viana de. A teoria da “sociedade do espetáculo” e os mass media. Revista Brasileira de Sociologia, v. 2, n. 4, p. 250, jul./dez. 2014.


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Carla Froener Ferreira é mestra em Direito (Unilasalle), especialista em Direito Civil e Processo Civil (Instituto de Desenvolvimento Cultural), integrante do grupo de pesquisa Teorias Sociais do Direito (Unilasalle-Canoas) e advogada.
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Imagem Ilustrativa do Post: Guy Debord, painted portrait DDC_7568.jpg // Foto de: thierry ehrmann // Sem alterações

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