O ódio da democracia – Por Mauro Mendes Dias

O ódio da democracia – Por Mauro Mendes Dias

Por Mauro Mendes Dias – 11/05/2016

Primeiramente quero agradecer ao meu amigo Paolo Lollo, responsável pelo convite para que eu estivesse hoje aqui*. E estendo o agradecimento aos organizadores do Colóquio, tanto quanto aos colegas da Insistance que, desde o Rio de Janeiro, passando por Belém e São Paulo, se dispuseram a uma verdadeira aproximação. Nossa interlocução tem permitido iniciar com alguns outros, iniciativas de trabalho como essa que compartilhamos agora e a programação de outras por vir. Por isso mesmo, tem toda importância o fato de estarem hoje aqui presentes membros do Instituto Vox de pesquisa em Psicanálise, aos quais agradeço pela solidariedade.
De maneira a reduzir minhas limitações com a língua, vou procurar falar pausadamente de forma a que possamos melhor aproveitar nosso encontro.

Desde o primeiro momento em que apresentei o título de minha comunicação, me dei conta da dificuldade que iria ser falar desses temas num momento político bem pouco suscetível à inclusão da diferença. Momento difícil, também, ao vir marcado por diferentes crises sociais, políticas e econômicas, que nos conduzem a não priorizar o entendimento do que dizemos quando falamos em democracia[1]. Há, marcadamente nos diálogos sobre democracia, uma referência a algo que é muito mais da ordem da presença de um fantasma e de um ideal, do que a realidade das condições existentes nas sociedades democráticas. Entendendo que esse fantasma se estrutura, desde a antiguidade grega, levando-nos a confundir que o governo do povo é sinônimo de governo de todos. O ideal se apresenta pela concepção que considera que a democracia é uma esp&am p;ea cute;cie de remédio para todos os conflitos, como se todos eles pudessem encontrar solução com um único remédio. Sem nos darmos conta, assim, consentimos na invasão de outros países com o objetivo de levar a eles a cura.[2]

Some-se ao que foi afirmado antes que não é suficiente constatar a presença do ódio como paixão dominante em nossa época, sendo falado em diferentes lugares, resta, ainda, esclarecer sua estrutura, sua montagem. Tão mais importante de ser situada, já que o ódio dirigido à democracia, aquele que vem do seu exterior, mantem íntima relação com aquele que é vivido nas sociedades democráticas. É necessário considerar que a relação de intimidade exterior que o ódio promove, não implica em atribuir a causa do ódio vivido nas sociedades democráticas ao ódio dirigido a elas. Por isso mesmo é preciso retomar a culpa e a responsabilidade como questões decisivas para o entendimento da implicação dos sujeitos no ódio: tanto aquele que é dirigido à democracia, quanto o que é vivido na sociedade democrática.

Quando me vi implicado numa apresentação sobre o ódio não desconhecia a dificuldade de abordá-lo, ainda que tivesse a experiência de ter escrito um livro sobre os ódios[3], no qual me vali, em boa parte, da prática clínica com sujeitos psicóticos, tanto quanto da apresentação de pacientes com eles. Se posso afirmar que a experiência com as psicoses me permitiu articular o ódio, num primeiro momento, é mesmo porque ele se mantem presente e dá fundamento ao crime para alguns desses sujeitos, permitindo inaugurar uma pesquisa sobre atos extremos.

Num segundo momento, o estudo sobre a potência do ódio me levou a estabelecer uma troca, mantida por cartas, desde a prisão onde cumpre pena de prisão perpétua nos EUA, com o terrorista chamado Unabomber[4]. Em seu caso, se tratavam de cartas bomba que, ao cumprirem seus destinos, faziam da escrita suporte da explosão. Não se tratava mais de conservar a leitura da carta por um sujeito, seu destinatário, mas sim sua explosão. A explosão da carta, tanto quanto do leitor. Nessa modalidade de ato, o ódio é causa da escrita. Trata-se de explodir o Outro ao qual a carta se dirige. O ódio é essa paixão que impulsiona o sujeito a sustentar uma crença de que o Outro merece ser destruído e morto. O agente do ódio, nesse caso, se torna cego e surdo, fazendo de sua escrita um decreto de morte.

Limitamos nossa condição de articulação quando acreditamos que a destruição do Outro, por via de um ódio extremado, signifique e se manifeste da mesma maneira. Assim, deixamos de reconhecer uma passagem. Passagem essa que agora faz comparecer a destruição do Outro e do próprio sujeito que sustenta o ato. Trata-se da passagem das cartas bomba para os homens, mulheres e crianças bomba[5]. O que dá suporte ao ato da explosão, nesse caso, é o corpo do sujeito. Ocorre que, antes de se explodirem, tais sujeitos gritam uma frase curta, a qual evoca o destinatário suposto do ato. Esse curto momento que separa o grito da explosão dos corpos, é quando o sujeito mostra sua possessão. Ele grita, ele é o anjo da morte que em seguida produz a destruição.

É somente porque a voz é constitutiva do ser de linguagem, enquanto afirmação de presença e reconhecimento do Outro, que nesse momento em que o sujeito grita antes da explosão, sua voz sai de cena cedendo lugar à vociferação, na medida em que promove a destruição de tudo aquilo que deu origem à vida, à liberdade, à diversidade e à invenção. A indicação da existência de um tipo de ódio que introduz uma dupla explosão, não é algo que se limite a nações longínquas. Bem mais problemático é quando se considera que não se pode articular a partir da Psicanálise, o ódio que comparece na explosão dos corpos pelo terrorismo. O fato de alguns de nossos colegas objetarem e indicarem a limitação do conceito de terrorismo, não implica no desaparecimento dos efeitos de tais atos extremos.

Considero que articular a presença do ódio, desde a explosão dos corpos, permite situar uma potência dele que faz laço político, implicando no reconhecimento de sua existência nas sociedades democráticas. Ele comparece pela explosão dos homens bomba, tanto quanto pela presença de sujeitos que explodem as condições do diálogo. Entendendo que esses últimos não somente existem em maior quantidade à nossa volta, ainda, são responsáveis por medidas políticas capazes de promover a repetição das explosões.

Parto do princípio que não há possibilidade de solução para o ódio, já que a própria ideia de solução, foi apresentada por Jean-Claude Milner[6] como tendo sido forjada habilmente pelo nazismo, com o objetivo declarado de extermínio do povo judeu. Se não se trata de solução, no sentido de erradicação, é mesmo porque o ódio comparece como elemento decisivo em nossa constituição, articulado por Freud[7] como precedendo o amor. É ele que faz barreira e quer destruir o que vem do exterior, impedindo que a crença de uma suposta ligação sem ruptura, possa ser abalada. Nesse sentido, a ligação entre ódio e exterior esclarece um ponto decisivo, qual seja, a evitação do estrangeiro como constitutiva. Somente quando admitimos que o ódio não s e confunde com uma paixão fácil de ser entendida, que nos dedicamos a situar seu advento, sua potência, tanto quanto as formas de abordá-lo, ou seja, de tratá-lo. Experiência que se sustenta a partir da clínica psicanalítica e se estende ao laço social.

Vou prosseguir afirmando que o ódio que vem pela destruição dos corpos, tanto quanto o que promove a destruição do diálogo, merecem ser situados como integrantes de uma mesma política, fundamentada na vociferação. Faço uso da significante vociferação como forma de introduzir um deslocamento em relação as significações atribuídas a ele. Tendemos a admitir que a vociferação se confunde com falar em voz alta, exaltando, acusando. Contudo, quando acompanhamos o momento de emergência da vociferação, ela se dá a escutar pela retirada da voz do sujeito. É o instante em que, segundo a tradição da literatura de terror, e dos estudos sobre possessão, entra em cena uma Outra presença. A voz gutural, o uivo, os urros e os gritos, são a colocação em ato da vociferação atil de;o.  Entendendo que a partir desse momento a voz faz corpo e o corpo se faz voz. O que encontramos na estrutura da vociferação é a retirada de cena da voz do sujeito, tanto quanto uma redução ao extremo de seu discurso. Nesse sentido, a vociferação é a entrada em cena, não de um sujeito, mas de um agente da destruição do Outro, reduzindo, em primeiro lugar, o espaço que permitiria consentir na diferença do Outro. Os agentes da destruição do discurso promovem a incitação de atos que prometem uma solução definitiva. Há sempre a presença da urgência como justificativa das passagens aos atos extremados.

Vale a pena considerar que o consentimento a vociferação é indicadora de um vazio, no sentido de subjetividade esvaziada de questionamento, presente nos sujeitos que com ela fazem laço. Segundo o que apresentei antes, a presença da vociferação é a colocação em cena da retirada da voz do sujeito, tanto quanto a redução quase ao grau zero do discurso. Dessa forma o sujeito passa a se fazer presente pela condição uníssona e limitada que repete junto a outros, com os quais faz um corpo.

Foi Hanna Arendt quem afirmou pela primeira vez que:
-“O que prepara os homens para o domínio totalitário no mundo não totalitário é o fato de que a solidão, que já foi uma experiência fronteiriça, sofrida geralmente em certas condições sociais marginais como a velhice, passou a ser, em nosso século, a experiência de massas cada vez maiores. O impiedoso processo no qual o totalitarismo engolfa e organiza as massas parece uma fuga suicida dessa realidade”[8]

A partir daí podemos reconhecer uma mutação que foi operada junto ao que entendemos como totalitarismo. O que passa a contar não é somente a indicação de sistemas de governo totalitário, mais do que isso, o totalitarismo se faz presente entre nós pelo ódio, enquanto ódio que promove uma política de destruição do Outro, do sujeito, da voz e do discurso. Nessa configuração do ódio que habita as sociedades democráticas hoje, encontramos a reafirmação dos trabalhos que procuraram sustentar que o totalitarismo surge de dentro da democracia, se mantem presente nela como condição de possibilidade para gerar um movimento. Se esse movimento hoje não se declara explicitamente como favorável ao totalitarismo como sistema político, é tão somente pelo fato de que o elemento que melhor lhe define j á se encontra presente entre nós, através do ódio como política da vociferação.

Afirmar que o que foi vivido num primeiro momento como sistema político totalitário, retorna como ódio no laço social das sociedades democráticas, implica em reconhecer que o nazismo não terminou. Ele retorna por um tipo de ódio visando a mesma questão de outrora, qual seja, a destruição do Outro. Acontece que esse Outro que se visa destruir é o que se encontra no fundamento dos discursos simbólicos, no interior das sociedades democráticas. O ódio é essa prática política que metamorfoseia os sujeitos pela vociferação. A partir do momento que se consente a esse tipo de laço, o que importa é a solução final, ou seja, a destruição das vozes discordantes. No extremo, o que é visado pela política da vociferação é, tal como no nazismo, extermínio, agora das vozes.

Se se pode situar o advento do ódio por uma política que promove a vociferação, significa admitir que, pelo avesso, se pode contar com a insistência para incluir a voz. A condição de insistência para fazer barreira à vociferação, tanto quanto, a de promover as condições para a advento da voz do sujeito, me parecem situar os fundamentos de uma política, pela Psicanálise. No extremo, com seriedade, somos convidados por essa política a deixar cair o fascínio pelo demônio, pelo fogo e pela destruição.

Acreditar que realizar um diagnóstico, ou mesmo uma precisão dos elementos que estruturam o ódio da democracia são suficientes para o que foi exposto, é deixar passar que a função de um psicanalista participa e se sustenta de uma prática, ou seja, não se trata somente de mostrar o impasse, mas também as formas e as articulações para lidar com ele. Seu tratamento.

Não me parece ser necessário insistir que o tema da democracia, tanto quanto o do ódio são suscetíveis de promover concordâncias que não produzem deslocamentos, tampouco avanços. Consentir em trabalhar, com outros, as questões derivadas da política do ódio pela vociferação, nas sociedades democráticas, implica na realização de um trabalho compartilhado. Compartilhamento que parte do princípio da inclusão da diferença, através daqueles que vem de outros campos e experiências, e se dedicam em articular, intervir e inventar no laço social as condições para o retorno das vozes.


Notas e Referências:

[1] Lefort, Claude. A invenção democrática. Ed Brasiliense.

[2] Hobsbawm. Eric. Globalização, democracia e terrorismo.Ed Companhia das letras

[3] Dias, M.Mauro. Os ódios. Ed Iluminuras.

[4] Dias, M.Mauro. Por causa do pior. Ed Iluminuras.

[5] Por que se explodem as mulheres?Jornal Paraná online.

[6] Milner. C. Jean. Les penchants Criminels de l’ Europe démocratique. Ed Verdier.

[7] Freud, S. Sobre o narcisismo, uma introdução. Vol XIV. Ed Imago

[8] Arendt, Hanna. Origens do totalitarismo. Ed Companhia das letras.


*Texto a ser apresentado no Colóquio sobre Democracia e Psicanálise na UNESCO no  dia 12/05.


Mauro Mendes Dias.
Mauro Mendes Dias é Psicanalista, diretor do Instituto Vox de Pesquisa em Psicanálise, onde conduz um Seminário sobre a voz na neurose obsessiva. Realiza apresentação de pacientes no hospital São João de Deus, em São Paulo. Membro fundador do Núcleo de Direito e Psicanálise, sediado na UFPR. Autor de livros e arquivos de psicanálise.
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