O Facebook e o negócio da emoção – Por Léo Rosa de...

O Facebook e o negócio da emoção – Por Léo Rosa de Andrade

Por Léo Rosa de Andrade – 17/05/2017

Dados de novembro de 2016: o Facebook atingiu o número de 1,8 bilhão de usuários ativos (desses, 1,2 bilhão usa o aplicativo da rede social para celulares). Outros aplicativos do grupo continuam a ganhar novos usuários.

Tanto o WhatsApp quanto o Facebook Messenger já ultrapassaram a marca de 1 bilhão de utentes em operação, enquanto o Instagram, em crescimento, conta com mais de 500 milhões (http://migre.me/wzJnt).

Não se podem simplesmente adicionar os números pensando em pessoas, porque grande parte delas divide-se entre mais de um aplicativo, mas somam-se usuários, que atingem a impressionante contagem de 4,5 bilhões.

Correlacionando: o mundo tem pouco mais de 7 bilhões de habitantes. Adultos e jovens são 62%, ou seja, 4,3 bilhões. Não fica difícil imaginar o alcance que os aplicativos de Mark Zuckerberg têm sobre a população do planeta.

Ainda que haja esforço de restrição em alguns países, a tecnologia disponível permite que se driblem autoridades dispostas a aplicar na censura. O mundo, pois, busca o Facebook, alcança-o, usa-o. E se expõe a ele.

Tudo isso é negócio: O lucro e a receita trimestral do Facebook superaram as estimativas de Wall Street. A receita total subiu 59,2% para US$ 6,44 bilhões, ante a projeção de US$ 6 bilhões (http://migre.me/wzK8b).

Esse é um relatório do lado dos acionistas: do seu sucesso, dos seus lucros. É coisa lá deles com eles mesmos. Preocupa-me a banda em que se situam os usuários, neles incluídos, com muito gosto, eu mesmo.

Não me situo entre os que deploram as fragilidades dos laços da sociedade líquida, da qual o Facebook seria o alegado melhor exemplo. E nem penso que o Facebook liquidifique o mundo. Bem ao contrário:

Casais que se formam no mundo digital podem ser mais felizes que aqueles que se conhecem por outros meios, conforme pesquisa americana publicada na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences.

Conforme consulta em universo que incluiu 19.131 pessoas que se casaram entre 2005 e 2012, mais de 30% delas havia começado o namoro online (22% no trabalho; 19% via amigos; 9% em bar ou casa noturna; 4% igreja).

Foram analisados quantos casais se divorciaram ao final do período da pesquisa: 5,96% dos que oficializaram a relação após terem se conhecido pela internet, contra 7,67 das duplas casadas offline (http://migre.me/wzNLE).

Seguramente, o Facebook mudou a dinâmica da vida. Por um lado permitiu maldades como a sistematização de mentiras tornadas críveis (pós-verdades), levando à manipulação da opinião pública. Mas penso noutra manipulação.

Lembro de Galbraith, A Cultura do Contentamento, 1992: denunciava que as crenças e interesses de grupos privilegiados dão sustentação às ideias sociais relevantes e acabam perpetuando a própria cultura que as origina.

Atualmente, os algoritmos do Facebook selecionam classes semelhantes de pessoas, por suas crenças, interesses etc, e dão um jeito de pô-las em relação. Elas acabam vendo-se, sabendo-se, curtindo-se, talvez encontrando-se.

São bolhas ensimesmadas, autorreferentes, permitindo trânsito por compatibilidade e afinidades ideológicas. Ajuntaram os conformes, reafirmando-os na conformidade. A próxima meta parece ser o estado emocional dos jovens:

“Documentos vazados da sede do Facebook na Austrália mostram, segundo o jornal The Australian, que a rede social se aproveita da vulnerabilidade emocional de jovens para promover determinado tipo de publicidade.

Algoritmos determinam ‘momentos em que precisam de aumento de confiança’. Identificam quando um jovem se sente ‘estressado’, ‘derrotado’, ‘sobrecarregado’, ‘ansiosos’, ‘nervoso’, ‘estúpido’, ‘bobo’, ‘inútil’ e um ‘fracasso’.

A apresentação seria destinada a um banco da Austrália. Questionado, o Facebook enviou primeiro um pedido de desculpas formal, dizendo que estava abrindo investigação para entender a falha.

No entanto, a rede social mudou o tom ao descrever a reportagem como ‘enganosa’ e negou que ofereça ferramentas para escolher o público-alvo de anúncios com base em estado emocional” (FSP, 02mai17, editado).

Não sei. Importa dizer que sentimentos já são conversíveis em insumo da mercadoria informação. O que se curte ou se repudia no Facebook, pois, não é conceito, mas dado comerciável. Melhor se emocionar sem muita emoção.


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Léo Rosa de Andrade é Doutor em Direito pela UFSC e Professor da UNISUL (SC).
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Imagem Ilustrativa do Post: Facebook // Foto de: HAMZA BUTT // Sem alterações

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