O dilema de Hermes: viver é decidir a cada instante – Por...

O dilema de Hermes: viver é decidir a cada instante – Por Tiago Gagliano Pinto Alberto

Por Tiago Gagliano Pinto Alberto – 11/04/2017

A lembrança mais antiga que Hermes tinha de si mesmo era em uma rua gélida de uma cidade pouco amistosa, pés no chão, fome… muita fome, além de pouca compreensão do que ocorria ao seu redor. Tinha pouco mais de 5 anos de idade e morava nas ruas. Não sabia como havia chegado ali, ou como e se sairia daquela situação. Como muitos, praticava pequenos delitos para subsistir: uma maçã ou banana na feira, a carteira de uma senhora idosa, um cigarro para trocar com os mais velhos por comida e coisas do tipo. Também corria muito da polícia e do Conselho Tutelar. De quando em vez, um dos seus amigos de rua era pego por algum deles e, conquanto não soubesse para onde iam, o certo é que não os via retornar. Assim, cuidava sempre para que isso não acontecesse consigo.

E dessa forma ia levando a vida, dormindo aqui e ali, tomando banho em qualquer córrego ou tubulação que vertesse água vinda da cidade, comendo quando tinha comida e chorando muitas vezes pela falta de alguma coisa que não sabia o que era.

Foi quando conheceu as drogas. Começou aos 8 anos de idade com a maconha, que lhe aliviava o peso do dia-a-dia; depois, passou para a cocaína que, além de consumir, ainda lhe garantia, com a venda, algum dinheiro para comprar comida e roupas; e, na sequência, o crack, que tinha a vantagem de lhe tirar a fome, além de qualquer vontade de viver a vida sofrida que passava diante dos seus olhos. Sem perceber, foi se tornando ainda mais magro, doente e acabado. Mas isso não lhe assustava; não tinha algo que pudesse chamar de vida e pouco importava que o final dela estivesse se tornando cada vez mais próximo.

De tempos em tempos, simplesmente o mundo desaparecia de sua vista. Começava a consumir a droga em um lugar e, quando recobrava a consciência, estava em outro lado da cidade, largado em alguma sarjeta, completamente sujo e sem condições sequer de se levantar.

Foi nessa situação que Cícero o encontrou. Hermes estava sem condições nem mesmo de entender o motivo pelo qual aquele homem o levantara da esquina onde se encontrava, ajudara a entrar no carro e o levara para a sua casa, onde lhe dera banho, cortara o cabelo, além de comida e bebida, ajudando-o a enfrentar a abstinência tanto nos dias e semanas seguintes, como nos anos que sobrevieram. Por vários anos, enquanto enfrentava a falta da droga, Hermes não tinha certeza se estava mesmo vivo, se aquela atenção, amor e carinho eram obra de algum ser humano, ou se, em função do vício, teria morrido e aquilo já seria o tal paraíso para onde vão as pessoas de bem, que trabalham e não praticam crimes.

Agora, no entanto, passados vários anos de seu encontro com Cícero, estava saudável, forte, bem alimentado e sendo educado em uma escola cujas despesas eram integralmente pagas pelo seu protetor. Viva na família de Cícero, esposa e filhos, recebendo, sem distinções, tudo o que os seus irmãos de criação recebiam, seja em bens materiais, seja em amor e dedicação.

Incrivelmente aplicado, Hermes logo teve condições de cursar a faculdade, tendo optado pelo curso de direito, que lhe pareceu adequado diante das dificuldades pelas quais passara em sua vida. Objetivava talvez prestar um concurso para Magistratura, fortemente influenciado pelas aulas do juiz da comarca, Sísifo, com quem aprendeu que a Justiça não é apenas a aplicação de leis, devendo, antes de tudo, ser observado o ser humano que está escondido em seus meandros.

Um dia, quando saia da faculdade, viu um dos seus antigos amigos de rua em uma esquina próxima, sujo, doente e infeliz como decerto estaria não fosse o cuidado que recebera de Cícero e família. Apressou-se em se aproximar e perguntar como estava o seu amigo. Em princípio Hermes não foi reconhecido, mas tão logo se lembrou, seu amigo perguntou o que havia ocorrido e por que sumira das ruas.

Depois de relatar tudo o que lhe havia passado, inclusive com detalhes acerca de Cícero e a sua família, seu amigo começou a chorar, levantando-se de repente e querendo sair logo dali. Hermes achou estranha a reação e perguntou o motivo. Foi quando o seu amigo lhe disse que Cícero era um dos maiores vendedores de drogas da região, sendo responsável também por grande parte das atividades de prostituição, tráfico de mulheres e crianças. Segundo contavam, por ser uma pessoa bem relacionada e ter ajudado um drogado que se encontrava nas ruas, passou a ser uma pessoa acima de qualquer suspeita na sociedade, embora o submundo o conhecesse bem.

Chocado, Hermes perdeu de repente o chão. Como pode ter sido usado por tantos anos? Como pode Cícero e a sua família terem simplesmente fingido todo o amor, carinho, atenção e afeto que lhe dispensaram por muitos anos? Tudo isso seria uma desculpa apenas para aparentar ser o que não era e ficar fora de suspeitas aos olhos de todos na sociedade? E o pior… agora, o que faria? Simplesmente o denunciaria, arruinando toda a família que o acolhera, ou deixaria tudo assim, sem qualquer ação por sua parte, sabendo que a sua omissão estaria contribuindo para que drogas e outros ilícitos estivessem sendo praticados?

Estava angustiado, com dúvidas, sem saber o que fazer. Lembrou-se das aulas de Sísifo e como ele ressaltava que a liberdade era angustiante, incapaz de trazer soluções prontas para os problemas que vivíamos. Cada escolha é um momento de dor, aflição e afirmação de valores, ou da falta deles. Hermes estava perdido verdadeiramente, preso entre a gratidão, que acreditava até poder ter começado falsa, mas que evoluíra certamente para a sinceridade, e a obrigação de evitar que outros jovens e até crianças, como um dia ele fora, também fossem prejudicados em suas vidas; da mesma maneira as mulheres exploradas, retiradas de suas famílias e vidas.

Caminhando sem direção pela cidade, sem querer passando em frente a vários lugares onde havia dormido, comido e até mesmo se drogado, muitas emoções e sentimentos recobraram força em seu pensamento, tornando até mesmo respirar difícil naquela situação. Algo deveria ser feito; a omissão era inaceitável, dizia a sua mente racional; gratidão, por outro lado, era o que importava, bradava o seu coração.

Confrontando Cícero a respeito, ele não negou; ao contrário, confirmou tudo o que fora dito pelo amigo de Hermes, agregando apenas que se, por um lado, retirou-o mesmo da rua por interesse, depois todos se apaixonaram pelo garoto, que passaram a considerar como da família.

Gratidão e razão travavam uma batalha silenciosa em seu interior, representadas, respectivamente, pelo seu coração e mente.

Sem saber o que fazer, vagou pela cidade por vários dias, incapaz de decidir. Talvez não fosse para estar naquela situação; talvez não fosse para ter saído das ruas mesmo; talvez devesse estar morto, o que seria melhor do que ou ser responsável pela ruína de uma família, ou de muitas outras. Caminhando, viu alguns de seus antigos amigos fumando crack; essa seria uma opção.

Aproximou-se. Talvez não precisasse decidir. Talvez voltasse à sua antiga vida. Talvez, quem sabe, só um pouco…

Abraços a todos. Compartilhem a paz.


Confira a obra de Tiago Gagliano Pinto Alberto publicada pela Editora Empório do Direito:


thiago galiano

Tiago Gagliano Pinto Alberto é Pós-doutor pela Universidad de León/ES. Doutor em Direito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Professor da Escola da Magistratura do Estado do Paraná (EMAP). Professor da Escola da Magistratura Federal em Curitiba (ESMAFE). Coordenador da Pós-graduação em teoria da decisão judicial na Escola da Magistratura do Estado de Tocantins (ESMAT). Membro fundador do Instituto Latino-Americano de Argumentação Jurídica (ILAJJ). Juiz de Direito Titular da 2ª Vara de Fazenda Pública da Comarca de Curitiba.


Imagem Ilustrativa do Post: “El Chino” home // Foto de: Hernán Piñera // Sem alterações

Disponível em: https://www.flickr.com/photos/hernanpc/14393953963

Licença de uso: http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/legalcode


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