O advogado de Kurosawa – Por Luiz Ferri de Barros

O advogado de Kurosawa – Por Luiz Ferri de Barros

Por Luiz Ferri de Barros – 24/05/2016

Filme de Kurosawa de 1950, Escândalo trata do sensacionalismo dos tabloides. Um advogado de conduta duvidosa, aparentemente coadjuvante, é a personagem dramática central, roubando a cena a grandes astros pela excepcional interpretação.

Shûnbun – em português Escândalo – é um filme pouco conhecido de Akira Kurosawa, rodado em 1950 e estrelado por Toshiro Mifune.  Assistir à interpretação dele, jovem e no papel de galã, é uma das coisas interessantes da película.

O filme é uma crítica à imprensa sensacionalista que vive à custa de fofocas. A questão do limite entre a liberdade de expressão e a invasão de privacidade está explicitamente posta desde o início. É marcante o pioneirismo do cineasta ao tratar do tema.

A trama se desenvolve a partir de um encontro casual entre um pintor e uma cantora, ambos famosos, numa estação turística nas montanhas. Dois fotógrafos de uma revista denominada Amour identificaram a cantora, que estava hospedada numa pousada, e tentaram entrevistá-la e fazer uma sessão de fotos.

Diante de sua negativa, armaram tocaia e conseguiram fazer uma foto dela em companhia do pintor quando ambos, que haviam acabado de se conhecer, conversavam num alpendre.  A revista publicou sucessivas edições-extra com a foto e histórias de um romance inventado.

Diante da situação, criou-se o impasse. Ao editor da revista, que se pauta apenas pelas vendas, não interessa retratar-se, pelo contrário: ele diz saber que se for processado isto aumentará seu faturamento; então o caso vai ao tribunal para julgamento.

Neste ponto entra em cena o advogado, interpretado por Takashi Shimura. Esse advogado é o verdadeiro personagem central. Nele estão constelados todos os conflitos dramáticos da obra. Na sua falta de escrúpulos, na sua atuação imoral e corrupta, nas suas fraquezas e vícios, e no remorso que sente.

Diante dele fica pálido o maniqueísmo dos outros personagens, sejam o pintor e a cantora, as vítimas de bom coração; seja o maldoso editor. É como se todos fossem figuras pintadas em aquarela em cores claras, servindo de fundo à marcante presença do advogado pintado em cores gritantes em tinta a óleo.

Esse filme, em geral considerado como uma obra menor de Kurosawa, em parte passou despercebido por ter sido lançado no mesmo ano de uma de suas obras primas, Rashmon, e por ter sido obscurecido por sua fecunda produção posterior, entre a qual encontraremos os filmes medievais de samurais.

Escândalo é também um filme que enfatiza o clima pós guerra, com constantes alusões a símbolos da ocidentalização do Japão. Talvez Kurosawa pretendesse indicar que a imoralidade retratada em parte provinha do Ocidente e que se espraiava para a sociedade japonesa naquele momento.

A fotografia, em branco e preto, é muito bonita na maior parte do filme, podendo-se mesmo considerá-la de alta qualidade artística em diversas passagens, em especial nos enquadramentos que trabalham com mais de um plano.

E, logo na abertura, temos um toque modernista, interessante na concepção e bem executado: uma sequencia que focaliza as rodas de uma motocicleta enquanto passam os créditos e que é cortada para a cena inicial em que Toshiro Mifune está na moto subindo uma montanha onde fincará seu cavalete para pintar.


Luiz Ferri de Barros é Mestre e Doutor em Filosofia da Educação pela USP, Administrador de Empresas pela FGV, escritor e jornalista.

Publica coluna semanal no Empório do Direito às terças-feiras.                                        

E-mail para contato: barros@velhosguerreiros.com.br..


Imagem Ilustrativa do Post: Opening title for Scandal/Shubun directed by Akira Kurosawa // Foto de: Angus Fraser // Sem alterações

Disponível em: https://www.flickr.com/photos/angusf/2217975849

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