Ninguém se cala diante de “Quando todos calam” de Berna Reale ou...

Ninguém se cala diante de “Quando todos calam” de Berna Reale ou “Tudo agora mesmo pode estar por um segundo…” – Por Elisabeth Bittencourt

Por Elisabeth Bittencourt – 19/06/2016

Belém do Pará. Chego de madrugada no Mercado Ver-o-Peso. No fone de ouvido, as Bachianas de Villa Lobos. O olhar, literal, comanda os sentidos. O que meus olhos veem, o coração sente! Estou atordoada. Um amontoado de gente. Alguns chegam, tomam café com tapioca. Tenho inveja deles! Outros ainda nem se foram. As notas de Villa Lobos servem de trilha sonora para a algazarra etílica que suponho nos rostos bêbados. Sou jogada para dentro do “estômago da cidade” (Reale,2009,p.32).

Renuncio a Villa Lobos. Escuto o som em que vozes se misturam. Enquanto se arrumam, a prosa corre solta. Escuto uma prosa musical que não é normal. Vozes que arranham. Tons e semitons que saltam aos ouvidos. Adivinho o rumorejar dos sentidos…

Adentro pelo mercado. Um Outro sentido é acionado. Os cheiros se chegam a mim. Me esforço. Tento inspirar os cheiros. Que frutos são esses? Que cores são essas?

À direita, a Baía de Guajará com suas águas escuras e barcos me atormentam. Pegar um barco desses? O desejo me tortura!

Vejo sorrisos desdentados, como no meu primeiro dia no Maranhão. Não quero um Outro Maranhão na minha vida! A emoção estrila em minha pele e o sol ainda nem raiou. Não tenho saída. Sigo adiante, imersa naquela cena. Chego ao mercado de peixes. Algo me para. Estanco! E agora?

Os peixes estão expostos nas calçadas. Cadáveres comestíveis. Suas vísceras se mostram. Eles cheiram forte!  Sinto repulsa. Tento fugir. Estou num lugar de mim que desconheço. A saída é por onde não tem porta!

Não fujo. Procuro vielas nas calçadas. Por onde passar? Quero evitar as carcaças de peixes. Peixe? Lembro de Clarice: sonhei que era um peixe. Os homens carregam os peixes em enormes caixotes de madeira. Os caixões pesam. Eles riem, desgarrados da morte. Me emociono. A brasilidade brilha no ar quente e úmido que anuncia o sol. As alegrias são abundantes. Brasil, meu Brasil brasileiro.

Olho para a esquerda. Vejo um comércio variado de utensílios da pesca. Cordas, nós de marinheiros. Penso em Lacan.  Uma ordem me comanda: siga adiante. Atravesso a rua tumultuada por um trânsito desordenado.  Quando dou por mim, assim meio do ladinho, um urubu. Levo um susto! Que cena é essa? O estranho desenha o momento. Que aves são essas? Lembro dos gregos. As tragédias e seus gemidos humanos. Do som agourento das aves. Caio no assombro. Sinto medo. Urubus? Quero distância deles!

Aproximo-me mais ainda, deles. Obedeço ordens do meu desejo. Não tenho escolha. O sol me abate. Muitas nuvens. Mas que aves são essas? Elegantes nos voos, horrendas em sua face e que andam nas calçadas em busca de restos? Restos? De quê?

PALAVRAS EM AÇÃO.

Rio, domingo, 13 de maio de 2012

Vou à exposição “Amazônia – Ciclos da Modernidade” (2012). Sou carregada para o antro da exposição. Encontro os urubus de Berna Reale. Eles passeiam a tarde toda no meu jardim. Encontro a Amazônia de Luís Braga e as impressões de Alexandre Sequeira. Encontro – ai que alívio – as cores de Frida Kahlo que não sei o nome, expostas por Emanuel Nassar dentro de garrafas de plástico: o amarelo do tucupi, o verde das garrafadas…

Saio atordoada. Na semana seguinte, já, lá, estaria, de novo, em Belém do Pará!

TODOS CALAM…

A artista paraense Berna Reale encena uma performance direcionada para a fotografia no Mercado Ver-o-Peso de Belém – Quando todos calam -, em que nua, deitada numa mesa de madeira, coloca vísceras sobre o seu corpo, ficando exposta aos urubus que se aproximam do corpo da artista, provocando no espectador a vivência da experiência de que os urubus vão atacá-la.

A chegada dos barcos com peixes para serem comercializados nesse local é intensa, e os urubus, em grande quantidade, fazem voos rasantes que causam estranhamento e temor aos transeuntes que passam pelo local.

MOMENTO BERNA REALE

Chega o meu momento Berna Reale. Desde junho de 2012 que os urubus passam o dia no meu jardim, em pleno plexo solar do dia. Aproximo-me deles. Me esforço para achar a voz de Berna Reale. Quero fazer uma composição com o seu “Todos calam”. Quero falar…

Primeiro, a fascinação angustiante que o tríptico me provoca. Como? Ela não tem medo? E se os urubus a atacarem? Os humanos temem por sua própria pele! Berna, não? Pergunto: o que levaria os artistas a arriscarem sua própria pele na construção de sua performance?

Berna diz que aquilo que a incomoda, que a inquieta, que a faz pensar sobre o mundo é a violência do dia a dia: esse é seu motor de produção. Ela teme que os seres humanos, em meio à dessubjetivação do dia a dia, não se reconheçam uns nos outros.

Os sujeitos ficariam reduzidos a si mesmos, apartados das insígnias que marcam seus supostos semelhantes? Para ela, Isso faria a violência tornar-se íntima, e Isso, segundo ela, não pode acontecer! Mas Berna não parece temer que os urubus, sei lá, contrariando a evidência de que eles só comem carniça, que avancem sobre ela? Esse não seria um traço constitutivo da humanidade que vive a se proteger sem saber que pode estar por um triz?

Berna desafia sua própria humanidade! Seu desejo de produzir uma performance que jogue em nossa cara, de maneira contundente,  a violência do dia-a-dia a que estamos expostos, ultrapassa o temor de que os urubus possam atacá-la? Eu não sei de nada, só sei que ela disse numa entrevista que tinha medo de que os urubus picassem seus olhos… Mesmo assim, ela foi adiante!

Berna está movida pela ética do seu desejo! Ela paga o preço e atravessa fronteiras de mal-estar em seu ato performático? Sei não…mas, com certeza, enfrenta riscos, que, para nós, seres falantes, parecem ir além dos limites de nossas possibilidades! É por ir além desse limiar – entre tantas outras coisas – que ela consegue nos deixar numa posição de espanto? Sabemos que o espanto é um lugar subjetivo que promove efeitos de refundar aquilo que já estava fundado ou de ”injetar enigma”, como disse minha amiga Marinela. O mesmo, depois do espanto, conforme o espectador, pode tornar-se Outro. Conforme disse algum dia: “O espanto é a nossa esperança para o futuro”.

Ao não ceder de seu desejo, ao desafiar os riscos, ela se aproxima de dois campos simbolicamente diferenciados: vida e morte? Lacan já nos anuncia que é desse lugar que fulgura o brilho da ética do desejo, aquela que não se importa com os bens!

O CORPO

O anúncio da desgraça leva o homem, conforme Georges Bataille, a urrar, lembrando a todos da “pura sensibilidade animal” (Bataille apud Moraes,2002,p.150)  que nos habita e que nos livra dos “limites da razão e da inquietação do futuro que lhe corresponde” (Idem). Momento de puro gozo! A “memória da fera” (Bataille, apud Moraes, p.151) volta. Somos jogados nos rios profundos e amazônicos: o não sentido do horror. Do fundo do animal, aportamos no “extremo do possível” (Idem), no qual nada conta além do instante performático que encena a desgraça. O mundo é um absurdo. Os sentidos se fecham. A morte joga xadrez.

Berna Reale nos faz urrar com sua performance. Ao desafiar um temor comum aos humanos, expondo seu corpo, ela ocupa um lugar que nos desafia suspendendo uma suposta segurança, a que estaríamos alienados. Esta seria uma das fontes de seu poder de monstrar Belém, “cidade linda e abandonada” (2013), segundo ela. Se em qualquer esquina, o tiro está sempre na ponta da agulha, se o brilho da faca está sempre reluzindo e as motosserras em ação, – como aparecem numa imagem de fundo, no filme “Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios” (2012); nós, apesar dos nós, permanecemos inebriados com os festins e com os desmandos das autoridades. Enquanto Isso, a violência se espraia, gargarejando a morte de cada dia.

Berna usa o seu corpo como suporte privilegiado para sua arte: “No meu trabalho tudo é milimetricamente pensado com o meu corpo” (Reale,2012,p.3). Objeto da medicina que revira suas entranhas, objeto da estética que o aprisiona numa imagem ou como suporte para a arte contemporânea, o corpo é um meio privilegiado para difundir o assombro. O estupor dificilmente será tão intenso, inesperado, despertando fluxos heterogêneos, indigestos, contraditórios e, “em alguns casos viscerais como o transmitido pela linguagem que utiliza o corpo como suporte” (Pires,2005, p.22).

O assombro causado por essa linguagem se deve, entre outros motivos, ao lugar sagrado que há séculos o corpo ocupa na cultura. Isso mudou? O corpo cada vez mais é exposto, e não só nas artes. A mídia faz dele gato e sapato. Desgarrado de seu estatuto biológico, mas nele incluído, desde Freud, o corpo é psíquico. Suporte da letra, o corpo é escrito pelas fantasias inconscientes. As marcas do desejo que são sempre inconscientes nele estão tatuadas e elas falam, demandando decifração.

O corpo que antes era preservado da exposição pública, por ser o “reduto da intimidade e da dor” (Pires, 2005, p.22). Ao ultrapassar esse limiar, da intimidade e da dor, ao anunciar um “desfecho aterrador iminente” (2013), Berna alcança um lugar de produção que indica uma zona limite em que a vida é tocada pela morte? Corte no cotidiano? É daí desse lugar de produção que emanarão efeitos desnorteantes, lembrando as comoções gregas?

Berna se expõe a uma violência da ordem do real, impossível de ser simbolizada. Fica sempre um resto. Restos de quê?

E OS QUE VOAM, ESPERANDO O RESTO…

Ela diz que já havia estudado os urubus. Sabia que não seria atacada, afinal eles só comem carniça, mas vai que… Queria discutir ‘a banalidade do corpo e da violência’ na performance que lhe rendeu o apelido da Marina Abramovic do Pará, por Luiz Camillo Osorio, curador do Museu de Arte Moderna do Rio, em referência à grande artista sérvia” (Furlaneto, 2012, p.3).

Berna chama o Mercado Ver-o-Peso em Belém do Pará, de o “estômago da cidade” (Reale,2009,p.32): lugar de fartura e miséria. É lá que ela encena o seu tríptico, arrodeada de urubus. É lá que se coloca para ser servida nesse banquete? É lá que oferece seu corpo para esse ritual que nos provoca estupor e, é claro, sideração?

Seu corpo se auto expõe, impiedosamente, na beira de uma profanação? A violência é servida aos nossos olhos de modo indisfarçável. O horror se apresenta. Qual a diferença entre os dois? A violência registra na carne, a vivência imediata da desgraça, e o horror é o que aparece depois em busca do sentido, ou um já está no outro?

Amortecidos pelas promessas benfazejas, não nos damos conta de que, todos os dias, estamos expostos ao melhor e ao pior. Nós também somos servidos como carne para o banquete da servidão voluntária! Obedecemos às ordens no dia a dia, que excluem o sujeito de si próprio, incrementando com nossa neutralidade a violência dos poderes constituídos?

O que o extrato da contundência do banquete de Berna quer inseminar é uma rebeldia para com a cegueira que a memória traz. Ela diz não se importar com o passado e que a memória traz uma zona de conforto: foi pior, e agora é melhor!

O grande cineasta japonês Kurosawa contou que, quando a bomba de Hiroshima explodiu, ele precisava atravessar um campo cheio de corpos mutilados e que um parente seu que o acompanhava lhe disse: Fique de olhos abertos, se você fechar os olhos, vai ficar com medo. Se fechar os olhos passa a ver fantasmas internos que vêm de dentro. E se por um acaso, esse buraco que ficou dessa visão que não se deu, for substituído por outras imagens que não se dizem?


Notas e Referências:

AMAZONIA – Ciclos da Modernidade. Curadores da exposição: Paulo Herkenhoff e Agnaldo Farias. Centro Cultural Banco do Brasil: Rio de Janeiro, 2012 (29/05 a 22/07).

FLETCHER, John. PAULA, Leandro Raphael. Tragédia e catarse em quando todos calam de Berna Reale. p.42 a 51. IN: Revista Ensaio Geral, vol. 3, n.6, ago-dez, 2011. Universidade Federal do Pará.Instituto de Ciências da Arte. Escola de Teatro e Dança

FURLANETO, Audrey. Berna Reale, a ‘Marina Abramovic do Pará’. Segundo Caderno. Jornal O Globo. Domingo, 17 de junho de 2012, p.3.

MORAES, Eliane Robert. O Corpo Impossível. São Paulo: FAPESP/Iluminuras, 2002.

PIRES, Beatriz Ferreira. O corpo como suporte da arte. São Paulo: SENAC, 2005.

REALE, Berna. Starte. Segundo Programa sobre os artistas de Belém do Pará. 2013. Disponível em HTTP://globotv.globo.com/globo-news/starte/v/veja-segundo-programa-sobre- os-artistas-de belem-do-para/2725813

REALE, Berna. Entrevista. In: MAIORANA, Roberta; OLIVEIRA,Daniela; MACHADO, Vânia (Org.). Arte Pará 2009. Catálogo. Belém: Fundação Rômulo Maiorana, 2009.

Filmes:

EU receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. Direção de Beto Brant e Renato Ciasca [Brasil]: Sony Pictures, 2012. 1 DVD.


Elisabeth Bittencourt.
Elisabeth Bittencourt é Psicanalista e Escritora. Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise do Rio de Janeiro. Membro do Núcleo de Direito e Psicanálise do Programa de Pós Graduação em Direito da Universidade Federal do Paraná – UFPR.
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