Morte sem vestígios: o ataque químico na Síria – Por Bruna Fernanda...

Morte sem vestígios: o ataque químico na Síria – Por Bruna Fernanda Bronzatti

Por Bruna Fernanda Bronzatti – 07/04/2017

Na mesma proporção que os levantes da oposição aumentavam, a violência do regime se utilizava dos mesmos parâmetros. Outrora, os primeiros resquícios da guerra civil podiam ser evidenciados nas condutas dos simpatizantes do grupo antigoverno que utilizavam de armas primeiramente para se defender e depois para expulsar as forças de segurança de suas regiões.

Paulatinamente, a violência se alastra pelo território, grupos de rebeldes se reuniam para combater as forças oficiais e retomar o controle dos vilarejos. Com o passar dos anos as formas de violência e de interesses foram evoluindo, tanto é verdade que os últimos dias na Síria foram considerados os mais violentos e sangrentos.

Na última terça houve aquilo que fora apontado como um ataque de armas químicas contra uma região controlada por rebeldes. Segundo informações do grupo britânico de monitoramento do Observatório Sírio para os Direitos Humanos, foram mortas oitenta e seis pessoas, dentre as quais vinte e sete são crianças devido ao incidente químico em Khan Sheikhoun, na província de Idlib.

O que se verifica é que a guerra que perdura por anos na Síria, que começou como um levante pacífico contra o presidente Bashar al-Assad e outras nuances políticas, mas que se tornou um conflito incessante em que se visualiza brutalidade e sangria desenfreada. Tais conflitos, não atingem apenas a localidade, mas potenciais regionais e internacionais. Consoante dados da Organização das Nações Unidas desde o início da guerra pelos menos houve 400 mil mortos e um êxodo de cerca de 4,5 milhões de pessoas no Estado.

Essa semana, no entanto, a guerra toma outros contornos e até mesmo chama a atenção pela forma que é introduzida e busca atingir o “inimigo”. O ataque químico como foi chamado, utilizou do gás Sarin, asfixiante, originalmente desenvolvido como um pesticida na Alemanha em 1938. O mesmo gás esteve presente em uma classe de armas químicas confeccionadas durante a Segunda Guerra Mundial.

O Sarin e outros agentes químicos já também foram introduzidos em outras ocasiões e localidades como meio de guerra. Em 1994, sabe-se que o Sarin foi lançado em Matsumoto, com intuito de matar três juízes, tentativa que não teve êxito. Nesse episódio, oito pessoas foram mortas e centenas tiveram que ser hospitalizadas.

Em seu posicionamento o governo sírio negou repetidamente qualquer uso de armas químicas na guerra civil. Todavia, tal posicionamento ter certas contradições, visto que as alegações de que Damasco utiliza este tipo de armamento são recorrentes e uma investigação liderada pela ONU, o que se verifica são pelo menos três ataques com gás cloro em 2014 e 2015, mesmo a Síria tendo ratificado a Convenção sobre a Proibição de Armas Químicas em 2013.

O ataque com armas químicas na Síria causou comoção mundial, tendo em vista as dezenas de mortes de civis e crianças. Uma das imagens que chocou o mundo e que viralizou na rede foi a de um pai que segurava os filhos gêmeos mortos nos braços, o homem identificado como Abdul Hamid Youssef perdeu na tragédia outros familiares, incluindo sua esposa.

O gás gera a morte pelo fato de interferir no neurotransmissor acetilcolina, que atua como um transmissor especial entre glândulas e músculos. Logo, o grau de envenenamento depende do interim de exposição e a quantidade de tal gás.

Um dos fatores que podem ter interferido na escolha é o fato da capacidade de dispensar rapidamente, o que, de certa forma, dificulta a detecção do gás. Para que possa obter uma boa evidencia é necessário que os investigadores estejam no local e colham amostras de sangues e cabelos das áreas afetadas diretamente pelo agente químico. Tarefa difícil em meio à multidão desesperada que busca uma forma de salvar sua vida.

O ataque gerou condenação generalizada entre líderes da comunidade internacional. Os países ao redor do mundo divergem em opiniões sobre a guerra civil que já dura anos e cada vez inova quando o assunto é atingir o outro.

Nota-se que a guerra civil na Síria deve ser visualizada para além dos episódios de massacres ocorridos. Isso porque, diversos problemas sociais que eles acarretam continuam existindo e se massificando após os ataques, isto é, são fatores que contribuem de maneira direta para o aumento das desigualdades, precariedade da saúde, da educação, da manutenção dos direitos das mulheres.

Segundo a ONU, esta é a maior crise humanitária da história, que apenas não transparece seu legado de destruição, mas também da necessidade de cooperação mútua para a resolução dos problemas que afetam o bem-estar das pessoas e da sociedade, para que os efeitos da guerra sejam minimizados. Dessa forma, evidencia-se que o caso da Síria é complexo em virtude de diversos fatores, ainda, o que se observa é que as intenções e interesses de atores internacionais e internos dificultam o entendimento coletivo. Há necessidade da análise da questão sob uma ótica humanística da situação e que se coloque o jogo de interesses em segundo plano quando o que está em jogo são vidas.


Notas e Referências:

http://www.bbc.com/portuguese/internacional-37472074

http://g1.globo.com/revolta-arabe/noticia/2013/08/entenda-guerra-civil-da-siria.html

http://www.internacionaldaamazonia.com/single-post/2015/10/21/O-Conflito-Civil-S%C3%ADrio-e-a-quest%C3%A3o-Humanit%C3%A1ria


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Bruna Fernanda Bronzatti

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Bruna Fernanda Bronzatti é Acadêmica do Curso de Direito da Unijuí. Bolsista de iniciação científica PIBIC/CNPq no projeto “Direito e Economia às Vestes do Constitucionalismo Garantista”.
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Imagem Ilustrativa do Post: لاجئين يهربون من الموت إلى الموت // Foto de: Freedom House // Sem alterações

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