Louco(cura) – Por Bruna Fernanda Bronzatti

Louco(cura) – Por Bruna Fernanda Bronzatti

Por Bruna Fernanda Bronzatti – 10/02/2017

Eu não sou louco. É o mundo que
 não entende minha lucidez.

Raul Seixas

O filme brasileiro Nise – o coração da loucura, dirigido por Roberto Berliner, tem o enredo pautado na história de Nise da Silveira, revolucionária no tratamento da “loucura” no Brasil. A personagem principal, psiquiatra alagoana (1905-1999) que representa uma resistência atemporal, lutava para os indivíduos fossem vistos e tratados como seres humanos, e não como excluídos totalmente da sociedade, despidos de dignidade, vistos como criaturas abomináveis que deveriam ir para os manicômios para ficarem escondidas daquilo tido como normal, encobertos por muros e paredes que eram demarcações de dois mundos distintos – os considerados loucos e os sãos.

A película retrata a década de quarenta, quando Nise foi reintegrada ao Hospital Pedro II, antigo Centro Psiquiátrico Nacional, no Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, pouco tempo depois de sair da prisão, onde teve que cumprir pena após ser denunciada por uma enfermeira que mostrou para a polícia do governo de Getúlio Vargas, os livros marxistas que a psiquiatra brasileira possuía em seu acervo.

No primeiro contato com os colegas demonstrou ser contrária aos tratamentos que utilizavam violência para a “cura” dos pacientes – o eletrochoque e a lobotomia. Contrária a esses métodos e tantos outros, se opõe a realiza-los, e então se depara com a única possibilidade de realizar um trabalho diferenciado, no setor de terapia ocupacional, pejorativamente chamado de recreação.

A psiquiatra se depara com um porão do prédio, isolado, acinzentado e que até então era um espaço onde os pacientes apenas andavam de um lado para o outro – sujeitos com medos e anseios que até então ninguém ousava tentar entender.

Um tempo em que a sanidade era obrigatória e, por vezes, o diferente era considerado louco. A depressão, e tantos outros problemas reiteradamente discutidos na atualidade eram considerados loucura e bastavam para que os sujeitos da comunidade fossem encaminhados ao manicômio. Nise, revoluciona o modo de tratamento no Brasil, substituindo o usa da violência no tratamento pela arte e outras formas de expressão, como forma de reabilitar os pacientes rejeitados pelo sistema.

Outra contribuição de Nise foi ao Museu de Imagens do Inconsciente, através das obras (pinturas, desenhos, e modelagem) com autoria de esquizofrênicos marginalizados e até então esquecidos, que através da linguagem não verbal. Ela acreditava que os desenhos poderiam demonstrar traços que muitas vezes contavam a história daquele ser humano, suas angústias, anseios.

Ao longo das atividades propostas, a psiquiatra estudou a teoria ocupacional sob os pontos de vista da época (Kraepelin, Bleuler, Schneider, Simon, Freud, Jung), embora não tenha se subordinado intelectualmente a nenhuma delas, utilizou a psicologia Junguiana quando percebeu algo singular nos desenhos e pinturas de seus pacientes, reiteradamente círculos ou mandalas, que segundo ela demonstravam o inconsciente de seus autores.

Além disso, Nise utilizou animais na terapia para tentar atrair a afetividade dos psicóticos, estabelecendo um paralelo com o mundo real, tentando mantê-los o mais próximo da superfície e não em um mundo à parte, como vinha ocorrendo. O que se evidencia é um método humanizado de tratar os pacientes, dando a eles condições básicas de existência e voz a loucura.

Nise também questionou os manicômios, a confusão existente entre o hospital psiquiátrico e o cárcere. Isso no que concerne até mesmo as condutas dos próprios funcionários do engenho, que tratavam os pacientes como presos e quando a situação fugia da “normalidade” utilizavam da força para controlar a situação, que, na maioria das vezes, poderia ser contornada com os métodos alternativos de Nise, que não estavam pautados na conduta tida como padrão para a época, através da violência, tratamentos com choques, amarrar pessoas na cama ou aplicar sedativos.

Devido ao viés humanista seguido pela psiquiatra, em 1956, foi fundada a Casa das Palmeiras, considerada em âmbito nacional a primeira instituição a desenvolver um projeto de desinstitucionalização dos manicômios.

Dessa forma, o que se evidencia é a atemporalidade da película, que discorre acerca da história da revolucionária da psiquiatria, e pode desencadear diversas discussões, seja sobre a realidade da saúde no país ou mesmo em outras esferas, até mesmo na prisional.

Ora, será que a superlotação, indivíduos presos atrás de quatro paredes acinzentadas, muitas vezes sem as mínimas condições dignas de sobrevivência, está ligada ao Estado ativo, diminuição de criminalidade? O que a película demonstra, e se aplica a diversas relações, mas principalmente quanto à saúde psíquica, é que nem sempre o uso da força, da violência, está ligada a aspectos efetivamente positivos.


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Bruna Fernanda Bronzatti

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Bruna Fernanda Bronzatti é Acadêmica do Curso de Direito da Unijuí. Bolsista de iniciação científica PIBIC/CNPq no projeto “Direito e Economia às Vestes do Constitucionalismo Garantista”.
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Imagem Ilustrativa do Post: Luta antimanicomial-16/05/13 // Foto de: Maria Objetiva // Sem alterações

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