Resistir juntos!

29/06/2018

 

Resistir[1], dentro do que penso, é a capacidade de seguir em frente, mesmo com todas as dificuldades. A adversidade, os erros do passado, não podem nos impedir de seguir. Resistir é não abrir mão daquilo que se acredita.

“Ir em frente” significa buscar modelos e padrões melhores do que os do passado. Aprimorar. Mudar, para melhor. Não era sobre isso que aquele filme tratava? A busca da felicidade...

Mas por que falar sobre este mudar? Por que falar sobre ter a oportunidade de fazer escolhas melhores?

Porque as eleições estão chegando e algumas questões começam a se revelar...

E, pensando em eleições, é fundamental lembrar que a “loucura é querer resultados diferentes fazendo tudo exatamente igual” (EINSTEIN, Albert).

Nesse sentido, algo interessante ocorreu nos últimos dias.

Meu amigo Rubens Casara escreveu um belíssimo texto[2], “Casei com uma feminista”, no qual homenageia sua esposa e admite o quanto com ela aprendeu. Disse Rubens:

 

Em casa, aprendi com Marcia sobre a política da escuta. As mulheres, pelo menos as que perceberam a necessidade de politizar a questão de gênero, ensinam que é preciso saber ouvir, em especial aquelas que normalmente são silenciadas. Correlato ao direito de falar, apreendi que há o poder-dever de ouvir. Ao levar o homem a descobrir que é impossível falar por ou como fala aquela que sente na pele a opressão (e o feminismo negro fala do local de quem sente dupla opressão – daí a importância da expressão “dororidade” cunhada por Vilma Piedade), o feminismo produz uma saudável ferida narcísica e ajuda a desconstruir o “eu idealizado”, culturalmente pensado no ocidente como “branco” e “heteronormativo”.

Com as feministas também se aprende que não há hierarquia de opressão. Mais do que isso. Aprende-se a importância da “interseccionalidade”, termo cunhado para dar conta de que as pessoas, e em especial as pessoas marcadas como “mulheres”, experimentam a opressão em diversas configurações e em diferentes graus de intensidade, por diversos motivos. O feminismo é (ou, pelo menos, deveria ser) radicalmente contra qualquer forma de opressão.

Assisti ao programa Roda Viva no qual a pré-candidata à Presidência da República pelo PCdoB, Manuela D’Ávila, foi entrevistada e interrompida, sistematicamente.

Ato contínuo, pude também ler o artigo do meu professor Leonardo Isaac Yarochewsky[3], no qual, falando sobre a participação da referida candidata, disse:

Não resta dúvida que a pré-candidata Manuela foi mais uma vítima do machismo, de uma sociedade patriarcal e preconceituosa. Vítima da mesma sociedade que coloca a culpa na vítima pelas agressões sexuais protagonizadas por homens.

A história, como bem observou Simone de Beauvoir, mostrou que “os homens sempre detiveram todos os poderes concretos; desde os primeiros tempos do patriarcado, julgaram útil manter a mulher em estado de dependência; seus códigos estabeleceram-se contra ela; e assim foi que ela se constituiu concretamente como Outro. Esta condição servia os interesses dos homens, mas convinha também a suas pretensões ontológicas e morais”.

A trajetória de luta da mulher é longa e árdua. No Brasil a mulher só adquiriu o direito de votar e ser votada em 1932. Se hodiernamente a mulher vem conseguindo ser vista e, pouco a pouco, vencendo a luta contra o preconceito, deve-se aos movimentos feministas e ao feminismo. Ao feminismo, como movimento social, deve-se boa parte destas conquistas, bem como o fato de ter colocado as mulheres no centro do debate político.

Penso que o mínimo de coerência, para aqueles que acreditam no feminismo, é votar em alguém verdadeiramente feminista. E acredito que pouco importa o partido pelo qual o candidato pleiteia a vaga, no Brasil. Afinal, os programas dos partidos são praticamente iguais[4].

Radicais existem em todos partidos e em todos os lugares. Espero ao menos que os radicais não sejam os candidatos ao mais alto cargo da nação. Ou não se elejam.

Não é cabível àqueles que acreditam, realmente, que as mulheres (e todos os gêneros e raças) devem ter igualdade, votarem em radicais. Ou melhor, não votarem em quem se alinha à sua ideia de igualdade. O que é igualdade para você? Qual candidato espelha esta ideia?

Ressalto, aqueles que me conhecem sabem que definitivamente este texto não é uma defesa à esquerda. E também não é um ataque à direita. Voto, com tranquilidade, em partidos de direita e de esquerda. Voto em pessoas. Em seus ideais.

Por fim, hipoteticamente: qual o problema de se ter um modelo social brasileiro? O capitalismo atual permite que todos tenham lucro? Saúde pública efetiva? Segurança? Educação pública de qualidade? Qual a diferença entre capitalismo, liberalismo, socialismo e comunismo?

Essas são perguntas fundamentais.

Adiro ao meu amigo Casara, e completo: ainda bem que me casei com uma feminista. Esta é a verdadeira razão deste texto.  

Para Dani, com meu amor.

Notas e Referências

[1] http://emporiododireito.com.br/leitura/por-que-resistir-por-leonardo-monteiro-rodrigues

[2] https://revistacult.uol.com.br/home/casei-com-uma-feminista/

[3] http://justificando.cartacapital.com.br/2018/06/26/que-roda-foi-essa/

[4] Como exemplo:

PCdoB: “O Programa atual de transição para o socialismo está situado historicamente. Procura responder, na dinâmica da evolução política brasileira, à exigência histórica contemporânea de um novo avanço civilizacional. Este consiste na afirmação e no fortalecimento da Nação, na plena democratização da sociedade e no progresso social que a época demanda. Esta exigência decorre da existência já de uma base técnico-científica que permite grandes passos para a conquista de uma sociedade avançada. O sistema capitalista, gerador dessa base moderna de forças produtivas, tornou-se incapaz de utilizá-la como impulsionadora de nova fase do progresso social. Conforme indica a tendência histórica objetiva, a solução viável é o socialismo. Contudo, na atualidade, o alcance do socialismo não é imediato. É preciso reunir condições e meios políticos e orgânicos para se conseguir a transição para esse novo sistema. O Programa atual está situado nessa perspectiva, voltado para responder a esse grande desafio perante a encruzilhada histórica.” (https://pcdob.org.br/programa/)

PSDB: “O PSDB tem como base a democracia interna e a disciplina e, como objetivos programáticos, a consolidação dos direitos individuais e coletivos; o exercício democrático participativo e representativo; a soberania nacional; a construção de uma ordem social justa e garantida pela igualdade de oportunidades; o respeito ao pluralismo de ideias, culturas e etnias; e a realização do desenvolvimento de forma harmoniosa, com a prevalência do trabalho sobre o capital, buscando a distribuição equilibrada da riqueza nacional entre todas as regiões e classes sociais.” (http://www.psdb.org.br/conheca/estatuto/)

 

Imagem Ilustrativa do Post: Plantillas feministas // Foto de: gaelx // Sem alterações

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