Cultura Libertária e uma nota de fogo: faíscas na fronteira da mesmice (abolicionismos e sociedades de controle – epílogo III) - Por Guilherme Moreira Pires

26/01/2018

Seja em Durrutti, que recobra a potência dos que carregam nos corações um mundo novo (que pulsa no presente e cresce no instante, aqui e agora, transbordando e convulsionando); em Bakunin, que valoriza a importância e potência de nossas gotas, que não se perderão, e que formam oceanos; em Warat e sua semiologia do poder, que contempla como cada uma dessas singulares gotas já nos remete a sublimes e potentes oceanos; em René Char, e sua extraordinária manifestação artística do ingovernável, destacando que em nossos jardins preparam-se florestas (que assim ocupam e produzem a imaginação libertária mesmo em espaços restritos e demarcados): a cultura libertária cresce mesmo no interior de culturas repressivas, assim como uma sociedade sem penas já existente (aqui e agora).


Opto por navegar no conteúdo proposto como cultura libertária sem estacionar nas prisões da palavra, atuando como nômade capaz de se desterritorializar. Nesta acepção e percursos experimentados, se valoriza muitas coisas: o conteúdo assinalado como pirata, a energia destoante e não governada sublinhada, a inventividade guerreira, a criatividade artística, isso e muito mais ressoando juntos, mas jamais no formato, configuração e destino de um ser-soldado.


No decorrer do livro “Abolicionismos e Sociedades de Controle: entre aprisionamentos e monitoramentos”, a figura do soldado (contrastada com a do guerreiro em acepção não repressiva rara) é associada ao que somos convocados a nos tornar na atualidade, se obedientes aos fluxos criticados.


Em contrariedade a esses direcionamentos na produção de subjetividades, são enxergadas outras interações e linguagens produzidas no presente, valorizando e vislumbrando nas contribuições de uma vasta reunião de chamas libertárias, possibilidades outras, inclusive de viver (aqui e agora); a própria vida como uma obra de arte conectada à arte de não ser governado, diametralmente contrária às criminologias instrumentalizadas como auxiliares de uma boa arte de governar, função para a qual se prontificam muitos dos arautos da esquerda, com planos de “governar juntos” e indicar bons nomes, os bons condutores de consciências, que seguirão pisoteando e obliterando culturas libertárias, ao contrário do que juram e prometem aos líderes do rebanho crítico.


Sem aprisionar-se nas projeções morais estadocêntricas, e sem obediência às expectativas de unidades coesas, os abolicionismos e anarquismos são energizados tanto quanto lanceados e instigados a se reinventarem na atualidade; os pensadores recobrados mesmo quando valorizados, não são sacralizados, com muito espaço para críticas, a exemplo do senso comum criminológico e do senso comum democrático visualizados / incinerados, e até certo senso comum anarquista assinalado no livro, como os slogans de ordem (“anarquia é ordem”) e o culto a “criadores”, nos anarquismos e abolicionismos.


Com Stirner, as associações de únicos, já existem e coabitam o mundo, sem condicionarem suas existências libertárias ao desaparecimento de metas e interações autoritárias. Ainda que existam objetivos futuros importantes, fazem acontecer no presente, sem adiá-lo, eternizá-lo como amanhã, sem matá-lo com reducionismos reentrantes acerca de uma cartilha etapista de abolição prisional, ou, que se incumbe de insistir: "enquanto existir produções repressivas, usaremos porque é assim, porque é a comida servida na mesa", essa teimosia que acomete esquerdas e direitas, que seguem ingerindo e produzindo alimentos podres com ingredientes terríveis.


Assim, "na floresta que cresce" evocada com René Char, como no mundo novo de Durrutti, a potência emerge no instante, crescente como nas gotas (propriamente oceanos) visualizadas por Bakunin e Warat; confiantes de que essas gotas não serão perdidas: elas certamente potencializarão liberdades no futuro, como o fizeram no presente (agora passado). Ocorre que, ao não negligenciarem em suas vidas o "agora", alcançaram mesmo o longínquo futuro, enquanto que os etapistas nada alcançam, senão a eternização de culturas repressivas.


De formas distintas, muitas chamas sublimes no passado nas histórias dos pensamentos libertários perceberam e levaram ao limite tais percepções, atiçadas, tensionadas e reinventadas em obras como “Abolicionismos e Cultura Libertária” (2017) e “Abolicionismos e Sociedades de Controle: entre aprisionamentos e monitoramentos” (2018): livros que valorizam o presente com pensadores destoantes contemporâneos, jamais abandonando a atualidade energizada.


Incinerando a poeira do conteúdo outrora capturado e convertido em notas de rodapé nas criminologias (mesmo as com a etiqueta de “críticas”), o tensionado nesses livros é metamorfoseado em produções que escapam de uma arte de governar, dinamitando e se apartando do princípio da autoridade (e da punição), temas centrais da coleção de ensaios que originou o livro “Política, Sociedade e Castigos: ensaios libertários contra o princípio da autoridade e da punição”.


Obras que lanceiam o cerne de um processo de redimensionamento desses princípios, que ampliam os aprisionamentos paralelamente ao crescimento dos discursos de contenção e a retórica dos direitos humanos, abarcando as continuidades e aprimoramentos repressivos não apenas propriamente na questão criminal e prisional, mas retornando à educação (para a obediência) e acompanhando certa diluição da autoridade e centralidade para garantir sua conservação e perpetuação, então de formas mais sofisticadas e palatáveis, “legítimas”, com o selo / carimbo dos humanistas e progressistas, também convertendo cada cidadão em polícia e governo, mesmo os assumidamente “contra a polícia” e “contra os governos”.


Trata-se de um dos incontáveis detalhes cruéis na atualidade das sociedades de controle, nulificando saídas reais para as produções repressivas, seja em larga escala ou na vida de cada um; “o sistema” não é então algo externo a ser combatido sem olhar para si, somos todos nós, e a ruptura não pode se acastelar no olhar desta ou daquela autoridade / governo / figura ou formato repressivo, mas no princípio da autoridade, na razão de governo, nas produções repressivas e no quanto de tudo isso temos naturalizado em nós, nos parasitando.


Tais produções ainda atendem a centralidades e nutrem relação com os poderes estabelecidos, no entanto, ataca-las sem um olhar também para si é inútil. É o caso, por exemplo, de autoproclamados anarquistas, contra o sistema de justiça criminal e suas prisões, mas violentos e favoráveis aos castigos, entusiastas de armas e defensores de espancamentos, linchamentos e mortes até de pequenos ladrões; esses sujeitos existem, e encaixam-se na condição de soldados obedientes aos fluxos das sociedades de controle (mesmo acreditando serem forças destoantes e rebeldes, o que certamente não são; são, sim, cidadãos-polícia, soldados-militantes que carregam as produções repressivas em si, constituindo-se e tornando-se produtos obedientes às centralidades e poderes que juram repudiar).


Mostra-se absolutamente insuficiente bradar contra o universal e o sagrado vinculados na tessitura no princípio da autoridade, entre centralidades estruturantes dos poderes estabelecidos, quando as ações realizadas não são realmente oposições, mas continuidades e extensões, agora com máxima sofisticação dos soldados parasitados, que formalmente não querem ser representados, como asseguram, mas que se converteram nos novos representantes do conteúdo que fantasiosamente lanceiam, a ele associados e conectados.


 Nesse sentido, neste novo livro se mergulha mais nas faíscas do encontro entre a filosofia pós-estruturalista que também atravessa anarquismos e abolicionismos, sem cultuar nenhum rei ou rainha nesses horizontes, e sem temer danificar as ossadas de fantasmas; sem proteger o cetro de qualquer sorte de autoridade / representante, e sem medo de desagradar seus leitores, os fãs das tríades blindadas regentes de cada quadrado, bem como os do empoderamento cool lanceado no decorrer do livro, conectados às retóricas e referenciais das cirandas dos direitos e suas liberdades de papel; também amassando e arremessando para longe o papel da busca por hegemonia, essa ficção que apenas nos paralisa ao lado de tantas outras crenças, sobretudo a do não abandono do dever-ser falso enquanto referencial: o núcleo da maior alucinação de esquerdas e direitas na atualidade. 


 


Notas e referências: 


[1] O presente escrito se trata do epílogo III do livro “Abolicionismos e Sociedades de Controle: entre aprisionamentos e monitoramentos” (2018). Livro que proporcionou uma diversidade de participações potentes: apresentação de Patrícia Cordeiro, prefácio libertário de Acácio Augusto, prólogo de Fernando Henrique Cardoso Neves, epílogos de Paulo Resende (I), Pablo Ornelas Rosa (II), epílogo autor (III), e de Gustavo Noronha de Ávila (IV). Posfácio de Attila Piovesan, e um extra de Aknaton T. Souza, Giovane Ramone, Pedro R. Bodê de Moraes, além de comentário de Mayannara Carvalho. 


[2] Epílogo III. Cultura Libertária e uma nota de fogo: faíscas na fronteira da mesmice. In: PIRES, Guilherme Moreira. Abolicionismos e Sociedades de Controle: entre aprisionamentos e monitoramentos. Florianópolis: Habitus, 2018. Livro temporariamente disponível no endereço eletrônico:<https://vendasventoliberta.wixsite.com/comprar> ou mediante contato eletrônico com o autor.  


 


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