Ladrilhos do avesso: histórias de ontem e hoje – Por Fernanda Martins

Ladrilhos do avesso: histórias de ontem e hoje – Por Fernanda Martins

Por Fernanda Martins – 07/01/2017

Oh my God,
what has it been,
like ten years?”[1]

Dizer em anos, dias, horas é moldurar imagens de uma “realidade” em que o tempo possa ser controlado, contabilizado, governabilizado, administrado. Contudo, apesar de compreender que esse tempo datado em passado, presente e futuro não existe para além de uma convencionalidade, não ignoro que esses símbolos geram perspectivas e expectativas que nos atravessam e dialogam com nosso cotidiano profundamente, visto que é impossível viver – na usualidade das sociedades capitalistas ocidentais – sem um relógio (lembrando ao Coelho que ele “vai chegar muito atrasado”[2] e que “o “tic-tac” vai marcando cada momento de um dia morto.”[3])

Nesse sentido, reconheço que um longo período se passou sem que eu pudesse me colocar novamente nesse espaço, nessa coluna que está intrinsecamente ligada à minha e ao que eu amo fazer… Mas como compõe o grande clássico do rock, “cada ano vai ficando mais curto e parece não haver tempo para nada”.[4] A voracidade de 2016 para mim foi assim, tempo para muito enquanto tempo para nada. Foi um transcorrer de dias e noites em particular (porém visível, também pelos movimentos sociais, no campo político, jurídico e econômico) de se travar batalhas. Na esfera pessoal foi, sem sombra de dúvidas, um viver de processos cotidianos de luta extrema, mas também de profundo luto.

Enquanto conquistas atravessaram meu cotidiano, derrotas infindáveis marcaram meus dias e assinalaram nossos tempos.  Foi um ano de olhar para além de mim constantemente, mas reconhecer que tudo, de certa forma, refletia em mim, essencial e indissociavelmente sobre meu corpo e minha linguagem.
Em 2016, meu corpo foi assinalado por tudo aquilo que vivi e que senti, e se um dos principais enfoques que hoje me inquieta nos olhares feministas é a reflexão sobre o corpo, não consigo desvincular minha luta das consequências corporais que este ano já passado – ainda presente – me trouxe. Carreguei mudanças, malas, noites mal dormidas, decisões dolorosas, cirurgia e doenças, mas vivi Amor, vivi novas cidades, novos olhares, tantos diálogos e pessoas, no melhor estilo kafkiano numa “Colônia Penal”, todos se fazem hoje fixados na pele, corporificação quase nova que cobre um corpo antigo, moldada aos novos acontecimentos e às tantos novos desejos, estabelecendo sua conexão a tudo que já foi.  Anos, ondas, vidas, corpos me parecerem ser assim, sobrepostos ao que já foi sem jamais se sobrepor ao que ainda é. E se hoje posso me olhar no espelho e construir minha própria narrativa é porque tenho o privilégio em poder dizer.

Donna Haraway questionou ao pensar a feminista ciborgue[5]através da relação corpo-máquina, as concepções do natural determinado pelo falogocentrismo e o dualismo sempre presente nessa estrutura em que a definição de Homem e Natureza está subordinada à construção de um pensamento racionalizado pelo homem branco, colonialista e burguês. Dessa forma, pensar as narrativas a partir daquilo que nos é mais material, corpo (não dócil), tocado pelas histórias daqueles que sequer podemos dizer para aqueles que sequer podemos prever[6], é desconstruir e reconstruir a possibilidade de reconhecermos novas vidas como vidas dignas de serem vividas, é assim fraturar a consciência da exclusão[7] presente no pensamento binário e na violência do patriarcado.

Nessa fusão ciborgue em que a escrita e a fala são ferramentas subversivas[8] que nos permitem sobreviver, o “mundo ciborgue pode ter a ver com as realidades sociais e corporais realmente vividas, um mundo onde as pessoas não têm medo da sua afinidade e ligação com os animais e as máquinas, da sua identidade permanentemente parcial nem das posições contraditórias.”[9]

Assim, se o corpo não é natural, mas marcado por tudo que o toca, ou seja, efeito da naturalização ou desnaturalização[10], se o corpo não se limita a pele ou ao aquilo sob ela[11], reescrever ativamente os textos dos seus corpos e das suas sociedades é utilizar-se de um meio tradicionalmente marcado pelo dizer masculino e romper com a dominação sempre presente de todos os laços político-sociais de um corpo submisso. É “para além de simplesmente ocupar espaço, é necessário um real comprometimento em romper com lógicas opressoras.”[12] Um corpo livre – talvez impossível – significa recusar a liberdade no sentido mais individualista dos marcos coloniais, o qual restringe o sujeito a si mesmo. Viver livre é não estar imune às histórias sempre tocadas por outras tantas, sobretudo não se acreditar livre de ser opressor e/ou de ser oprimido.

Seja por mais ética ou sob novas estéticas, pensemos a liberdade talvez através da máxima de Nina Simone, em que “ser livre é viver sem medo” de si e do mundo que nos cerca, representificar o passado, reconhecendo em suas próprias marcas que a vida só ocorre ao se lutar também por todas as vidas. Por vidas tomadas pelas instituições como indignas de luto ou como baixas “acidentais” – contingências de um percurso administrável -, tais como os 60 “corpos” descartados na Penitenciária do Amazonas ou 33 “corpos” no presídio de Roraima. Assim como o de todas as mulheres – majoritariamente negras e pobres – que morrem em decorrência de abortos ilegais no Brasil, das mulheres cujas vidas são amputadas em seu máximo através do feminicídio, como ocorrido na Chacina de Campinas.

São essas vidas corporificadas que devemos ouvir como potência de luta, como resistência, num corpo nosso – mas sempre a partir de cada singularidade – que não se sinta imune às dores sofridas pelo patriarcado, pelo sistema penal e por todas as violências físicas e simbólicas de tempos indizíveis.

Dessa forma, para não se alijar da politização da vida que captura o ser humano[13], colocando-o como estratégia de governo, a tarefa de se pensar nesse início de 2017 meu local de (des)construção de escrita criminológica feminista e o que se propõe também através dessa coluna, faz-se marcada sob alguma radicalidade que merece ser vivida, e que deve passar a ser a de “redescrever as possibilidades que já existem, mas que existem dentro de domínios culturais apontados como culturalmente ininteligíveis e impossíveis.”[14] E em reconhecer que “a luta política reside em ser capaz de ver o mundo ao mesmo tempo (por) duas perspectivas, (…) as da dominação como a das possibilidades inimagináveis(…)”[15] pelos marcos da subjugação.

Se a assunção da temporalidade se dá também em perceber que o ato e a repetição constituem a performatividade de gênero em que a “linguagem atua sobre nós antes que atuemos e continua atuando no mesmo momento em que atuamos”[16],  ou seja, que a vulnerabilidade se situa em “ser exposto a linguagem antes de qualquer possibilidade de formar ou formular um ato discursivo”, a resistência somente é possível radicalizando as limitações dos discursos e do poder institucional que nos afeta.[17] Então, enquanto houver marcas, há corpos, enquanto houver corpos, há fala, enquanto houver fala, há luta! E que essa seja a construção desse nosso instante nunca permanente e sempre decisivo.


Notas e Referências: 

[1] ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Americanah. Alfred A. Knopf: New York/Toronto, 2013.

[2] CARROLL, Lewis. Alice no país das maravilhas. São Paulo: Cosac Naify, 2015.

[3] Pink Floyd, Time (Livre tradução).

[4] Pink Floyd, Time (Livre tradução).

[5] HARAWAY, Donna. O Manifesto Ciborgue: a ciência, a tecnologia e o feminismo socialista nos finais do século XX. In: MACEDO, Ana Gabriela (Org.) Género, identidade e desejo: Antologia Crítica do Feminismo Contemporâneo. Lisboa: Cotovia, 2002.

[6] BUTLER, Judith. Relatar a si mesmo: Crítica da violência ética. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015.

[7] HARAWAY, Donna. O Manifesto Ciborgue […] p. 232

[8] HARAWAY, Donna. O Manifesto Ciborgue. BUTLER, Judith. Relatar a si mesmo.

[9] HARAWAY, Donna. O Manifesto Ciborgue[…]  p. 231

[10] DERRIDA, Jacques. Given Time: I Counterfeit Money. Chicago: The University of Chicago Press, 1992.

[11] SPIVAK, Gayatri Chakravorty. In a Word.

[12] RIBEIRO, Djamila. Prefácio de DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2015.

[13] DERRIDA, Jacques. Espectros de Marx: o estado da dívida, o trabalho do luto e a nova Internacional. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.

[14] BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: Feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2009. p. 156

[15] HARAWAY, Donna. O Manifesto Ciborgue […] p. 231

[16] BUTLER, Judith. Repensar la vulnerabilidad y la resistência. Conferencia impartida el 24 de junio en el marco del XV Simposio de la Asociación Internacional de Filósofas (IAPh), Alcalá de Henares, España.

[17] BUTLER, Judith. Repensar la vulnerabilidad y la resistência. […].


Fernanda Martins.
Fernanda Martins é Mestre em Teoria, Filosofia e História do Direito pelo Programa de Pós-graduação em Direito da Universidade Federal de Santa Catarina. Professora substituta na Universidade Federal de Santa Catarina e professora na Universidade do Vale do Itajaí.
E-mail: fernanda.ma@gmail.com
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