Cinema: O julgamento de Joana D´Arc – Por Luiz Ferri de Barros

Cinema: O julgamento de Joana D´Arc – Por Luiz Ferri de Barros

 Por Luiz Ferri de Barros – 21/06/2016

Filme minimalista de Robert Bresson, O Processo de Joana D´Arc retrata o julgamento no Auto-de-Fé da Inquisição que levou à fogueira a legendária heroína da unificação francesa.

A grandeza e as peculiaridades da história de Joana D´Arc renderam um sem número de representações artísticas: livros, peças de teatro, músicas e filmes, desde a era do cinema mudo até os tempos atuais. Na atualidade a heroína é também inspiradora de personagens de inúmeros videogames, em sua condição de santa-guerreira.

Todos os filmes sobre ela retratam o julgamento da camponesa heroína e mártir da unificação da França, que liderou exércitos franceses contra os ingleses em batalhas decisivas durante a Guerra dos Cem Anos.

Os procedimentos inquisitórios do Auto-de-Fé que levaram Joana D´Arc à fogueira aos 19 anos de idade são narrados em todos esses filmes, naturalmente, eis que correspondem à parte fundamental de sua saga, quando à sua figura heroica agrega-se a dimensão do martírio que, cinco séculos após ter sido queimada na fogueira, levou-a à canonização.

De uma forma ou de outra, os diversos filmes apresentam os conflitos da jovem camponesa que ouvia vozes vindas de Deus por meio de santos que a incitavam a defender seu rei e seu país invadido pelos ingleses, e, no que se refere a seu julgamento, apontam erros de forma e de conteúdo em sua condenação por heresia, num tribunal religioso, quando a motivação de seus acusadores era política e de ganância financeira, tendo o bispo francês que presidiu o tribunal servido aos interesses dos ingleses em troca de suborno.

Mas o filme de Robert Bresson, produção francesa de 1962, O Processo de Joana D´Arc, também conhecido como Joana D´Arc de Bresson, trata exclusivamente de seu julgamento. Em legendas iniciais o cineasta afirma que a história de Joana é de todos conhecida; e, em legendas finais, indica que 25 anos após sua execução a sentença foi revista pela igreja e ela foi reabilitada. Mas ele não menciona sua canonização, a partir da qual Santa Joana D´Arc passou a ser a padroeira da França.

Bresson é consagrado diretor autoral francês. Fez parte do movimento nouvelle vague, que no Brasil influenciou o Cinema Novo, para, a seguir, ser um dos fundadores e expoentes do movimento minimalista. Em seu filme sobre Joana D´Arc verificam-se características dos dois movimentos.

Três características deste filme chamam a atenção.

A primeira é o clima de conversação que se imprime ao julgamento, relembrando a predominância de diálogos que era uma das marcas do cinema novo francês.

A forma desse diálogo/conversação entre os juízes/inquisidores e a acusada, Joana D´Arc, talvez seja a característica mais marcante, que ficará ao critério de cada espectador considerar como instigante ou absurda. Trata-se de um toque minimalista de Bresson: todos, sejam os juízes ou a ré, falam no mesmo tom de voz durante todo o julgamento, por toda a duração do filme.

A terceira característica marcante do filme de Bresson é a fotografia, por sua cor. É uma película filmada em branco e preto, mas esse branco e preto não é propriamente o convencional e sim puxado ao cinza.

Bresson foi um cineasta muito influente, não apenas por seus filmes como também por seus trabalhos teóricos sobre cinema, por seus artigos e livros. Além de ser um diretor autoral, foi também um autor experimental, um diretor à procura de novas formas de narrativa.

Em O Processo de Joana D´Arc o resultado de suas experiências narrativas resultou num relato calcado no racional, absolutamente não-emotivo, que pouco valoriza o vigoroso drama e a tragédia da personagem e que é pouco enfático no que se refere aos aspectos políticos de sua condenação.

Tudo em contraste com o substancioso acervo cinematográfico sobre Joana D´Arc. Contam as crônicas históricas sobre o cinema, ou as lendas, que Maria Falconetti enlouqueceu. Ela foi protagonista de um dos primeiros filmes sobre a heroína, A Paixão de Joana D´Arc, de Carl Theodor Dreyer, produção francesa em cinema mudo, de 1928. A atriz teria sido levada tão longe pelo diretor ao viver o martírio de Joana, e nele mergulhou tão profundamente, que nunca teria se recuperado após a filmagem.

Ingrid Bergman consagrou-se duas vezes interpretando Joana D´Arc. Em 1948 estrelou Joana D´Arc, sob direção de Victor Fleming, uma produção americana, filme disponível no youtube em versão dublada, com forte matiz dramático, e em Joana D´Arc no Fogo, no Brasil conhecido como Joana D´Arc de Rosselini, produção ítalo-francesa de 1954, dirigida por Roberto Rosselini, seu marido.

Outros grandes diretores dedicaram-se à personagem, como Otto Preminger, em filme de 1957 de produção anglo-americana.

Mais recentemente, em produção francesa de 1999, temos The Messenger: The Story of Joan of Arc, conhecida no Brasil como Joana D´Arc de Luc Besson, também disponível na internet; com direção de Luc Besson, conta com grande elenco, com Milla Jovovich, John Malkovich, Faye Dunaway  e Dustin Hoffman. Este filme, em linguagem mais moderna, ao estilo grande produção e contando com diversos efeitos especiais para retratar os momentos em que Joana ouvia as vozes, relata a vida da heroína desde a infância e assemelha-se a um épico.

Sem necessidade de citar outras obras, basta notar a plêiade de grandes diretores que se dedicaram a retratá-la para constatar a grandeza de Joana D´Arc como personagem histórica e lendária, religiosa e guerreira. Pelo conjunto das obras é que percebemos a dimensão dramática, apaixonada e trágica da heroína.

Os filmes, salvo o de Robert Bresson, que não retrata sua vida e sim somente seu julgamento, mostram bem, afinal, o pretexto utilizado para seu sacrifício e martírio: seguindo uma inspiração divina, Joana incutiu ânimo e fé aos soldados franceses ao passo que os ingleses, vendo-a liderar exércitos, passaram a designá-la como bruxa. Capturada pelos borgonheses, contra quem o rei lutava, esses franceses venderam-na ao bispo francês daquele ducado, que, por sua vez, a vendeu aos ingleses. Esta é, muito resumidamente, a história que em legendas Robert Bresson afirma que todos conhecem.


Originalmente publicado na Revista da OAB/CAASP. Nº 5. Edição 21. São Paulo, fevereiro de 2016.


Luiz Ferri de Barros é Mestre e Doutor em Filosofia da Educação pela USP, Administrador de Empresas pela FGV, escritor e jornalista.

Publica coluna semanal no Empório do Direito às terças-feiras.

E-mail para contato: barros@velhosguerreiros.com.br.


Imagem Ilustrativa do Post: Joana D’Arc // Foto de: Luciano Guelfi // Sem alterações

Disponível em: https://www.flickr.com/photos/lrguelfi/2807168754

Licença de uso: http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/legalcode


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