Judicialização da mediação: avanço ou retrocesso? – Por Ardala Marta Corso

Judicialização da mediação: avanço ou retrocesso? – Por Ardala Marta Corso

Por Ardala Marta Corso – 01/09/2017

Coordenador: Marcos Catalan

A morosidade dos processos e a burocratização na sua gestão, a falta de informação e orientação aos jurisdicionados, as deficiências do patrocínio gratuito, aliados ao elevado grau de litigiosidade, próprio da sociedade contemporânea, tem levado uma excessiva sobrecarga de juízes e tribunais. Consequência deste cenário é a obstrução das vias de acesso à justiça, acarretando o descrédito da sociedade no Poder Judiciário. Assim, a crise da justiça é, em grande parte, responsável pelo renascimento das vias conciliativas[1].

O movimento pelo acesso à tutela jurisdicional efetiva passou pela ampliação das oportunidades de conciliação, bem como pela difusão da mediação e de outros métodos de solução de conflitos, em que a sociedade civil atua como protagonista da solução da controvérsia[2]. Nesse contexto, a mediação foi inserida no âmbito do processo judicial com a publicação da Lei 13.140, de 2015, que dispõe sobre a mediação entre particulares como meio de solução de controvérsias, bem do Código de Processo Civil de 2015, que disciplina a mediação como meio de solução de conflitos. Nos termos da exposição de motivos, o novo diploma processual deu ênfase à possibilidade de as partes colocarem fim ao conflito pela via da mediação ou da conciliação, entendendo o legislador que a satisfação efetiva das partes pode dar-se de modo mais intenso se a solução é por elas criada e não imposta pelo juiz[3]. Com efeito, o estímulo à adoção de meios consensuais não é novidade, uma vez que desde 2010 institui-se no Brasil a política pública de tratamento adequado dos conflitos jurídicos. Por meio da Resolução 125/2010, do Conselho Nacional de Justiça, que até a edição do novo Código de Processo Civil era o mais importante instrumento normativo sobre mediação e conciliação, houve estímulo à adoção da autocomposição.

Contudo, a preocupação excessiva em vincular à mediação à redução do demandismo brasileiro e ligá-la a promessa de celeridade e descongestionamento dos tribunais brasileiros, pode distanciá-la do objetivo de promover uma mudança nas relações interpessoais das partes envolvidas. Ou seja, a mediação como possibilidade de melhoria das relações interpessoais se voltará tão somente para a resolução do conflito e cederá espaço para o cumprimento de metas numéricas[4].

O Conselho Nacional de Justiça instituiu metas a serem cumpridas pelo Poder Judiciário, dentre as quais se destaca a que estabelece que os Centros Judiciários de Solução de Conflitos – CEJUSC, homologuem o maior número de acordos pré-processuais, por mediação ou conciliação, que as médias das sentenças homologatórias das unidades judiciárias correlatas. Ou seja, claramente o CNJ estimulou o uso da mediação para a realização de acordos, como alternativa para evitar a judicialização de conflitos. No entanto, se a lógica da mediação judicial for a resolução dos conflitos simplesmente para a redução de demandas, ou para garantia da celeridade processual, ela estará fadada a ser mero instrumento de reprodução de acordos, por vezes não satisfatórios, a exemplo do que muitas vezes acontece no âmbito da conciliação judicial. Com o mero propósito de garantir celeridade e esvaziamento dos tribunais, a mediação judicial corre o risco de insucesso, como vem ocorrendo em parte com a conciliação, porque a sua essência é incompatível com a lógica produtivista e adversarial do Poder Judiciário[5].

O procedimento da mediação deve atender ao tempo das partes, de modo que elas possam amadurecer sua visão sobre o conflito e retomar as relações interpessoais perdidas, por meio do diálogo, o que não pode ser atingido unicamente por acordos ou metas[6]. Outrossim, a regulamentação e implementação dos meios consensuais de solução de controvérsias deveria basear-se no objetivo de proporcionar meios mais adequados à resolução de determinados conflitos, considerando suas peculiaridades e complexidades, e não como solução para os males que assolam o Poder Judiciário brasileiro.

A aposta de que a mediação seria a panaceia para todos os males do Poder Judiciário Brasileiro, especialmente o problema do seu congestionamento, levou a regulamentação da mediação como uma fase do processo, tradicionalmente organizado sob a ótica binária adversarial e litigiosa. Todavia, parece um paradoxo falar em consenso dentro de uma estrutura organizada pela lógica do contraditório[7], que carrega a ideia de adversarialidade, de culpado ou inocente, dos binarismos do vencedor ou perdedor[8]. Nesse sentido, a estrutura processual pode obstaculizar o consenso, uma vez que é baseada no contraditório o que pode gerar um paradoxo em face dos meios consensuais.

O processo brasileiro tem por base um paradigma de resolução de controvérsias que se desenvolve em um ambiente competitivo e, portanto, desfavorável a uma visão colaborativa. Nosso sistema jurisdicional é repleto de dogmas e procedimentos que são desconexos com os fins dialógicos e de decisões compartilhadas da mediação[9]. Em outras palavras, “o processo judicial brasileiro não comporta o consenso e o diálogo como formas de administração do conflito, uma vez que está centrado tanto no princípio como na lógica do contraditório”[10].

A este respeito, Petrônio Calmon[11] aduz que o Conselho Nacional de Justiça se equivoca ao tentar criar uma atividade, na sua concepção, impossível, ou seja, a mediação judicial. Para o autor o Poder Judiciário, atualmente não consegue exercer de forma adequada a sua função primordial de julgar e assim “não deveria sequer tentar dar um passo maior do que as pernas; deveria ter se limitado a consolidar e aplicar a conciliação, mecanismo de incentivo ao acordo totalmente compatível com a atividade judicial”. Ainda, aponta que a Resolução 125 do Conselho Nacional de Justiça “contribui para desviar a sociedade do que deveria estar fazendo com liberdade e sem intervenção estatal, ou seja, buscar mudança de paradigma.”

No mesmo sentido, Humberto Dalla Bernardina de Pinho e Michele Pedrosa Paumgartten[12], apontam que a institucionalização da mediação acaba por enfraquecer a escolha das partes envolvidas e implica na perda da sua identidade, pois ela passa a se aproximar cada vez mais da adjudicação. Ainda, referem os autores que um sistema de mediação incidental não parece ser o ideal, já que mesmo assim haveria a movimentação da máquina estatal o que, em muitos casos, poderia ser evitado.

Embora possa ser cedo para responder se houve avanço ou retrocesso, já se pode afirmar que o respeito a essência da mediação exige que ela seja desburocratizada e minimamente regulada, a fim de viabilizar uma maior aproximação das pessoas e uma forma diferenciada de resolução de seus conflitos. A mediação não pode ser encarada apenas como uma política judiciária, mas deve ser concebida como um serviço universal que não pode e não deve ser estimulada apenas como instrumento para a redução de demandas em tramite e meio para desafogar o Poder Judiciário.


Notas e Referências: 

[1] GRINOVER, Ada Pellegrini. Os fundamentos da justiça conciliativa. In: GRINOVER, Ada Pellegrini; WATANABE, Kazuo; LAGRASTA NETO, Caetano (Coord.). Mediação e Gerenciamento de Processo. São Paulo: Atlas, 2007.

[2] VASCONCELOS, Carlos Eduardo de. Mediação de conflitos e práticas restaurativas. São Paulo: Método, 2014.

[3] SENADO. Anteprojeto do Novo Código de Processo Civil. Disponível em: https://www.senado.gov.br/senado/novocpc/pdf/Anteprojeto.pdf. Acesso em: 13/08/2016.

[4] ORSINI, Adriana Goulart de Sena. SILVA, Nathane Fernandes da. Entre a promessa e a efetividade da mediação: uma análise da mediação no contexto brasileiro. Revista Jurídica da Presidência, Brasília, v. 18, n. 115, jun./set., 2016, p. 344. Disponível em: https://revistajuridica.presidencia.gov.br/index.php/saj/article/view/1148. Acesso em: 01/06/2017.

[5] Ibidem, p. 344.

[6] Ibidem, p. 345

[7] A lógica do contraditório é um método de constituição do saber jurídico e de socialização dos operadores do campo do direito que não se confunde com o princípio do contraditório, embora nele encontre eco e inspiração.

[8] ORSINI, Adriana Goulart de Sena. SILVA, Nathane Fernandes da. Entre a promessa e a efetividade da mediação: uma análise da mediação no contexto brasileiro. Revista Jurídica da Presidência, Brasília, v. 18, n. 115, jun./set., 2016, p. 339. Disponível em: https://revistajuridica.presidencia.gov.br/index.php/saj/article/view/1148. Acesso em: 01/06/2017.

[9] Ibidem, p. 339.

[10] MELLO, Kátia Sento Sé. BAPTISTA, Bárbara Gomes Lupetti. Mediação e conciliação no Judiciário: Dilemas e significados. Dilemas: Revista de Estudos de Conflito e Controle Social. Rio de Janeiro, v. 4, n. 1, jan./março, 2011. Disponível em: https://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:4D-2vTlETccJ:https://revistas.ufrj.br/index.php/dilemas/article/download/7208/5801+&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br. Acesso em: 01/06/2017.

[11] CALMON, Petronio. Fundamentos da mediação e da conciliação. 3. ed. Brasília: Gazeta Jurídica, 2015, p. 136.

[12] PINHO, Humberto Dalla Bernardina de; PAUMGARTEN, Michele Pedrosa. Os desafios para a integração entre o sistema jurisdicional e a mediação a partir do novo Código de Processo Civil. Quais as perspectivas para a justiça brasileira? In: ALMEIDA, Diogo Assumpção Rezende de; PANTOJA, Fernanda Medina; PELAJO, Samantha. (Org.). A mediação no novo Código de Processo Civil. Rio de Janeiro: Atlas, 2016. p. 1-32.


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Ardala Marta Corso é Graduada em Ciências Jurídicas e Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Pós-graduada em Processo Civil pela Academia Brasileira de Direito Processual Civil.
 Mestranda em Direito e Sociedade pelo Unilasalle, Canoas. Integrante do grupo de pesquisas Teorias Sociais do Direito. Advogada.


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