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Públio Virgílio Maro e as origens do imaginário republicano no Brasil – Por Elpídio Paiva Luz Segundo

Por Elpídio Paiva Luz Segundo – 15/04/2016

Públio Virgílio Maro (séc. I a. C) foi um escritor latino da antiguidade e criador da epopeia romana intitulada “Eneida”, que conta a história de Eneias após a queda da cidade de Tróia (séc. XII a.C), dentre outras obras de relevo. Na visão do autor, incorporada pela burocracia imperial à época, o herói troiano teria sido um dos precursores da fundação de Roma, e, por esta razão, gregos e romanos seriam povos irmãos, considerando que a narrativa fundacional é comum a ambos, que teriam se organizado em torno da lendária Tróia, cuja existência geográfica só foi demonstrada no final do século XIX.

Virgílio foi um dos patronos da literatura latina e de suas derivações, pois, as literaturas de fundação dos Estados nacionais modernos no Ocidente tomaram como referência a grande narrativa do romano, cujo protagonista principal não é, propriamente, Eneias, mas, o povo de Roma e seu destino glorioso. Aqui abre-se um parêntese. A “Eneida”, antes de mais nada, deve ser compreendida como um manifesto político sobre o poderio romano sobre o mundo conhecido. Assim também foi, à seu modo e tempo, “Os Lusíadas”, de Luís Vaz de Camões, a literatura cervantina, “A divina comédia”, de Dante Alighieri e “O paraíso perdido”, de Milton.

Virgílio viveu os primeiros anos da Roma Imperial, multitudinária, e, como um autor bucólico, defendia a vida no campo em oposição à vida na cidade, algo tão ao gosto dos poetas mineiros, da Árcade, do século XVIII, pois, como Virgílio, os arcadistas de Vila Rica viveram na maior cidade do continente americano de seu tempo. A poética virgiliana, outrossim, está repleta de imagens pastoris, que se repetem nos quadros de um Tomás Antônio Gonzaga ou de um Cláudio Manoel da Costa.

Com efeito, a influência de Virgílio na nascente literatura brasileira do século XVIII é bastante conhecida, mas, pouco se fala de sua contribuição para o advento do imaginário republicano no Brasil. Como isso ocorreu?

Há um livro de Virgílio chamado “Éclogas”. Lá, de uma perspectiva rural e de fuga da cidade há um trecho emblemático: “libertas quae sera tamen”, liberdade ainda que tarde. Pois bem. Alvarenga Peixoto, inconfidente da cepa, transformou o sentido agrário do texto em uma frase política. Operou-se uma atividade hermenêutica, sem redução de texto, que fixou as bases do imaginário republicano no Brasil, pelas seguintes razões: a) quando a República foi proclamada em 1889, havia a necessidade de erigir no passado um marco inaugural; b) O presente republicano não poderia ser um ato exclusivo de força dos quartéis, dos militares, ou, do marechal Deodoro da Fonseca, mas, indicava um fluxo contínuo da história, de mudança e progresso – o aponta para uma visão positivista das ciências; c) o passado como espelho para o futuro e para um projeto de sociedade que ainda se entendia como unívoco.

Diferentes movimentos concorriam na disputa pelo imaginário. Quatro eram os principais: 1) a Conjuração Baiana; 2) a Revolução Pernambucana; 3) a Confederação do Equador; 4) a Inconfidência Mineira. Prevaleceu a última, por razões políticas, históricas e geográficas, e, não, efetivamente, por ter sido a principal fonte de emancipação, mesmo porque, com as devidas escusas, não houve levante, pois, a adiada derrama não foi decretada pela Metrópole.

Além disso, a morte do alferes Xavier, o Tiradentes, e as representações pictóricas do corpo do inconfidente esquartejado, ou, assemelhado a Cristo, imortalizadas pelo traço de Pedro Américo contribuíram, decisivamente, para a formação do mito nacional. O 21 de abril, data de martírio, em lugar de uma celebração mineira, tornou-se uma rememoração, um festejo anual, que inaugura o tempo da república no Brasil.

A recepção da lírica virgiliana no imaginário republicano se faz notar pela presença de Tiradentes, que se tornou nome de cidade e de diversas vias públicas no Brasil, incluso, a Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro. Há escolas, universidade, hospital, livros, filmes, telenovelas e enredos de escola de samba em homenagem ao inconfidente, além do Museu da Inconfidência, em Ouro Preto.

Ademais, o mês de abril, aquele da tradição fabricada da Inconfidência, é o mesmo da abdicação de D. Pedro I em favor de seu filho, Pedro de Alcântara, em 1831, que assinalou o fim do Primeiro Reinado, do golpe civil-militar de 1964, do falecimento de Tancredo Neves, em 1985, que inaugura a Nova República, e da discussão do impeachment da atual presidente, em 2016.

Em que pesem as diferentes circunstâncias políticas e históricas, os eventos indicados, à exceção do primeiro, expõem a renovação permanente do mito, que catalisa sentimentos, conta a memória, questiona a história e constrói novas perspectivas.

Por último, um registro: em frente ao Antigo Congresso Nacional, no Rio de Janeiro, que foi capital do Império e da República está colocada uma escultura de Tiradentes, que simboliza a unidade nacional, ao lembrar quem fomos, quem somos e o que seremos.


Elpídio Paiva Luz Segundo.
Elpídio Paiva Luz Segundo é Bacharel em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), Mestre e Doutorando em Direito pela Universidade Estácio de Sá (UNESA/RJ). Professor da Faculdade Guanambi (FG/BA) e Advogado.
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